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A Administração do Mistério - Volume 2

por T. Austin-Sparks

Capítulo 8 - O "Mistério" Revelado


Na maravilha e espanto desta revelação, devemos ser claros quanto à sua exata natureza e significado. Para fazer isto, devemos nos debruçar sobre frases chaves que corporificam e definem com exatidão o mistério. Descobrimos a declaração que dá a última e consumada questão: está em Efésios um, verso dez. Podemos nós achar nesta mesma Carta uma frase que traz este fim para a história, isto é, a operação que leva a este fim? Penso que podemos. É um fragmento na seção marcado como versos treze a vinte e dois do capítulo dois: “um novo homem”. Toda esta seção é uma ampliação deste fragmento e deve ser cuidadosamente lida como tal. Tem havido pistas disto em outras Cartas de Paulo, porém, aqui ele reúne tudo, e não apenas isto, mas — como devíamos esperar, se a mente dele estava vagueando nas “eras” e o segredo oculto nelas — a Bíblia toda está compreendida.

Quanto às demais pistas, temos exemplos clássicos e impressionantes, tais como Romanos cinco, versos doze a dezenove. Aqui as duas genéricas e raciais cabeças são colocadas uma contra a outra — a “um homem” Adão, e a “um homem” Cristo; e o contexto mostra o significado de ambas. Outro tremendo exemplo está naquele capítulo de incrível iluminação, primeira Corintios quinze. Está no verso quarenta e cinco: “O primeiro Adão tornou-se alma vivente. O último Adão tornou-se espírito vivificante” (ver o texto imediato). Em “Efésios” o Apóstolo primeiro se refere ao Cristo pessoal, e, então, prossegue para o corporativo, o “novo homem”. Numa passagem anterior ambos aspectos foram mencionados: Primeiro Coríntios doze, no verso três, “Jesus” e “Jesus Senhor” é pessoalmente mencionado; no verso doze a frase “assim também o Cristo” (o artigo está no original) torna os membros e a Cabeça idênticos para o propósito prático de expressão (contexto): “Vós sois o Corpo de Cristo” (verso 27). A união é pelo “Um Espírito” na Cabeça e nos membros.

É em “Efésios” que este “um novo homem” é revelado plenamente. Se este é “o mistério oculto ao longo dos séculos e gerações”, embora existente durante todo o tempo, podemos agora ver como este tem sido o conceito governante através de toda a Bíblia, isto é, a humanidade conformada a Cristo.

No princípio Deus disse: “Façamos o homem” — HOMEM. O salmista bradou: “O que é o homem?” — HOMEM? Na encarnação a designação predileta de Cristo era “Filho do Homem”. Na redenção há “um Mediador entre Deus e os homens, o próprio Deus Homem” (1 Tim. 2:5). Na reconstituição há o Padrão do “Segundo Homem” (1 Cor. 15:47). Na exaltação e na glória a pergunta do salmista é respondida em Jesus: “O que é o homem?” (salmos 8:4; Heb. 2:6). Na consumação há “Um novo homem” — Homem. Há prefigurações no Velho Testamento. Adão era uma “figura daquele que viria” (Rom. 5:14). “O homem Moisés” (Num. 12:3). Davi era um “homem Segundo o coração de Deus” (Atos 13:22). Esses são apenas exemplos dentre muitos, e suas características apontam respectivamente para as características de Cristo.

Assim, ao longo de toda a história da Bíblia, há a sombra de um Homem, tanto individualmente como corporativamente. O conceito Divino d Homem governa todos os caminhos de Deus: na criação, na encarnação, na mediação; na Cruz, um tipo de homem é colocado de lado para dar lugar a outro; na ressurreição, como o Novo Homem — o “primogênito dentre os mortos” — reconhecido; na exaltação de Jesus como o Novo Homem” instalado; na segunda vinda do “Filho do Homem” para remover o restante da humanidade que rejeita a Cristo e para estabelecer uma nova ordem; na Igreja em termos de humanidade corporativa, o vaso e o veículo da plenitude e a manifestação de Cristo. Tudo isto é o que Paulo via na “face de Jesus”.

A própria Igreja não é o “Mistério” revelado a Paulo, mas a Igreja como o Corpo de Cristo — O Novo Homem — no qual todas as distinções que não pertencem a Cristo não mais existam; esta foi a revelação. Teve que ser uma revelação do Céu para certo rabino, comprometido, fanático, Judeu fanático, com toda a sua ascendência, descendência, “nascimento”, tradição, prática e “sangue” para chegar genuinamente ao lugar onde ele pudesse dizer com convicção ‘onde não há Grego, nem Judeu, etc”; onde todas as paredes de divisão foram derrubadas; onde não há circuncisão, nem incircuncisão; onde não há “filhos” nem “estrangeiros”, mas “todos são um em Cristo Jesus” (Grego: “Uma pessoa em Cristo Jesus” — o gênero é masculino).

Quão muitissimamente o Novo Testamento é iluminado à luz do conceito deste “Novo Homem”! De fato, ele abrange todo o significado do verdadeiro Cristianismo. Ele dá real significado ao novo nascimento (João 3). Ele explica a Pessoa, a característica e a obra de Cristo. É o que o apóstolo Paulo quis dizer quando disse: “se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Cor. 5:17; R.V. margem). E ele explica aquelas palavras em Romanos oito, verso vinte e nove: “…predestinados a ser conforme à imagem de Seu Filho”; e Efésios um, verso cinco: “...predestinados para filhos de adoção por Jesus Cristo”. Tudo isto e muito mais indica qual é o propósito, obra e natureza específica desta dispensação. A obra na “criação que geme” é com vista “à manifestação dos filhos de Deus”. (Rom. 8:19–23).

De forma abrangente, o Espírito de Deus que ‘se movia na face das águas’ (Gen. 1:2) está agora trabalhando sobre uma “nova criação em Cristo”. Mas com uma profunda e significativa diferença. Na velha criação tudo começou e se deu a partir do exterior em direção ao centro — Homem. Na nova criação tudo começa e se processa a partir do interior, e o “homem exterior”, o corpo, é a fase final da redenção e da nova criação: “A redenção do nosso corpo”. (Rom. 8:23; 1 Cor. 15, etc.).

A obra do Espírito de Deus possui quarto aspectos nesta dispensação.

1. A segurança do novo homem. Esta é a evangelização e a apreensão dos indivíduos. No evangelism a propósito final deve sempre ser mantido em mente, caso contrário, haverá fraqueza nos “convertidos” devido à motivação errada.

2. Através da segurança, a recriação do novo homem. Na velha criação Deus criou o homem — “formou o homem do pó da terra”. (“O primeiro... é da terra, terreno”—1 Cor. 15:47). Na nova criação Deus começa com o espírito do homem, em seguida passa para a alma, e complete com o corpo. Tudo na nova criação é basicamente e essencialmente spiritual. Veja Primeira Coríntios, capítulo dois. O “homem interior” é o espírito do “homem renovado, nascido de novo, renovado dia após dia”. Aqui entra todo o ensino sobre o Espírito Santo e sobre a vida nova no Espírito, como tendo sido “nascido do Espírito”, e “é espírito”. (João 3:6).

3. Então segue a disciplina, o aprendizado e o crescimento do novo homem. O Espírito de Deus trabalha Segundo um padrão — “a imagem de Seu Filho”; “até que Cristo seja plenamente formado em vós” (Gal. 4:19); “Deus vos trata como filhos” (Heb. 12:7). É uma longa e dura transição do “velho homem” ao “novo”, mas o fim governa todos os tratamentos e caminhos de Deus, a saber, a “imagem” ou “semelhança” que foi o principal conceito na criação do homem. “Façamos o homem conforme à nossa imagem, conforme à nossa semelhança” (Gen. 1:26); “Eu me satisfarei da Tua semelhança quando acordar” (Salmo 17:15).

4. Então, finalmente, o Espírito de Deus está trabalhando para constituir o “novo homem”, Cristo corporativamente expresso; “o corpo de Cristo”,”a plenitude (complemento) d’Ele; “a medida da estatura de Cristo,” “o homem perfeito.”

Tudo isto redunda, enfim, em plena e clara revelação nesta Carta de finalidade, “Efésios”. É o Homem conceito de eternidade a eternidade, e este conceito tem estado, como uma sombra, sobre toda a história de Deus com o homem, e sobre a história do homem com Deus. Oculto aos olhos do homem de maneiras estranhas, inexplicáveis e misteriosas, em indivíduos de fé e num povo e numa nação peculiar, foi agora revelado aos filhos dos homens, em Cristo, que “Deus, tendo provido algo melhor a nosso respeito ... para que eles sem nós não fossem tornados perfeitos (completos)” (Heb. 11:40).

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