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Para Encher Todas As Coisas

por T. Austin-Sparks

Capítulo 4 – O Serviço Essencial da Igreja

Leitura: Efésios 4:7-13.

Chegamos agora ao serviço essencial da igreja em relação ao divino fim “Para [Ele] (Cristo) encher todas as coisas”.

Vimos que esse é o divino propósito, estabelecido na eternidade, inalterável e que não pode ser anulado. Vimos que, junto com isso, a igreja, que é o corpo de Cristo, deve ser “a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Efésios 1:23). Então seguimos e vimos o método para seu cumprimento pleno, que nos é mostrado de forma tão clara nessa carta, em que o apóstolo começa a resumir e a encabeçar tudo o que havia dito nessa sublime questão do relacionamento matrimonial entre Cristo e a igreja. Vimos, pela ilustração do Livro de Ester, o que esse relacionamento matrimonial de fato significa: eleição divina, redenção divina, enriquecimento e adorno divinos, pacto divino. Tudo isso foi ilustrado no caso de Ester, e foi nesse ponto que paramos.

Chegamos então ao próximo ponto – o serviço essencial. No livro de Ester, é perfeitamente evidente a divina soberania em operação. Sem dúvida, esse é o significado daquele livro. Ester não foi selecionada, escolhida, chamada para o rei, para o palácio, liberta do embargo de seu exílio e cativeiro, redimida, adornada com tudo o que era essencial para torna-la apropriada para a presença do rei e enriquecida com a riqueza do rei, apenas por causa de si mesma. Tudo aconteceu não para que ela fosse simplesmente capaz de ostentar-se em sua nova posição e privilégios, nem para exibir tudo o que havia se tornado e recebido. O significado real daquele livro, como mostrado em sua sequência, é que a soberania divina estava em operação, de todas as formas, em favor de um povo que tinha que ser liberto, um povo que tinha que ser trazido para todos os benefícios da soberania do trono.

O povo estava debaixo de tratamento. As pessoas estavam debaixo do decreto de uma fonte muito maligna – podemos dizer que do próprio inferno, representado pelo Agagita. Basta mencionar esse nome, Agague, com qualquer conhecimento do Velho Testamento, e você se lembrará da atitude de Samuel contra Agague. Ele o cortou em pedaços! Agague representa algo muito mal contra o trono, uma mão contra o trono e contra o povo de Deus. E aqui, no livro de Ester, esse mal veio do abismo, com o plano de destruir o povo de Deus e o testemunho de vida que havia no meio deles como vasos. Então Mordecai usa essa frase tão familiar a respeito de Ester: “e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” Ester 4:14. Esse era o serviço essencial de Ester e, quando chegamos à carta de Efésios, como já vimos, todas essas características de Ester estão ali, numa expressão espiritual. Então concluímos: não é apenas por causa da própria igreja, de seu próprio benefício, glória e prazer. Esse vaso eleito, instrumento, é eleito e predestinado em um contexto muito mais vasto do que ele mesmo, assim como a cidade no final da Bíblia surge no meio das nações para mediar a vida para as nações através de sua árvore da vida e rio de vida. Essa é apenas outra figura e símbolo da grande verdade divina. No coração de tudo isso está esse corpo eleito, predestinado, para ministrar a plenitude de Cristo entre o seu âmbito de convivência e além dele, agora e nas eras por vir.

Esse é o serviço essencial da igreja. Com esse serviço em vista, o apóstolo é conduzido a nos trazer para essa questão do ministério da igreja, como sendo o caminho para o fim definido, o qual é: Ele encher todas as coisas através do seguinte meio: a igreja como um vaso ou instrumento de ministração.

Isso é o que está aqui. Esse é o ministério de Cristo e de Sua plenitude através da igreja, através de nós, se somos e estamos verdadeiramente nesse corpo. Essa é a nossa vocação. Quero enfatizar isso. Gostaria que você tivesse certeza que se apossou disso. Tudo o que é dito aqui sobre outras funções do povo está dentro desse âmbito: a igreja é essencialmente aquela que ministra. Caso contrário, ela perderá seu caminho. E esse seria uma perda trágica.

Israel foi chamado no Velho Testamento como esposa do Senhor, a noiva do Senhor. “sendo Eu o Marido divino deles” (Jeremias 31:32 – versão King James). Israel foi chamado para ser um canal de ministração e instrumento do Senhor para todas as nações, e porque Israel não cumpriu com esse alto propósito e vocação, mas construiu muros em volta de si mesmo, fechando-se, se tornando um corpo exclusivo nas nações, por dois mil anos esteve fora do caminho. Eles perderam o caminho, foram postos de lado. Esse é o lugar de Vasti, que foi substituída por Ester.

Quando falamos sobre igreja, não podermos ir além da responsabilidade individual. Não existe igreja sem indivíduos que a forme. Cada indivíduo é parte dessa igreja, desse corpo, e deve ser uma parte em funcionamento. Esse é o ponto. Cada um de vocês, sem exceção, deve estar contribuindo com algo da plenitude de Cristo. Isso vai além do que temos em nós mesmos ou que se tem nos outros. Você pertence a este alto e santo chamamento, vocação, de ser o canal, o veículo, o mediador, de algo dessa plenitude. O Senhor fez Sua provisão para cada um, e, feito isso, é claro, Ele espera que assim sejamos.

Temos aqui essas palavras: “Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens... E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” [Ef 4:8-11], e, é claro, sentimos que suas funções são para trazer a igreja à plenitude. Então nós dizemos: “Bem, isso não importa, esse é o trabalho deles, essa é a função deles, essa é a vocação deles, eles foram chamados para isso, e nós simplesmente sentamos e ouvimos o que eles têm para dizer, e pensamos: ‘Bem, está tudo certo’, ou ‘hoje não foi tão bom assim’... ‘foi muito bom, ou foi maravilhoso’”. Então vamos para casa e isso é tudo. Não, nunca! Isso é falta de entendimento do que está sendo dito aqui. O que nos é dito aqui é que esses dons foram dados para o aperfeiçoamento dos santos “para o desempenho do seu serviço, para edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos a... plenitude de Cristo” [Ef 4:12-13]. Esses dons são essencialmente apenas para trazer a igreja ao lugar onde ela possa exercer plenamente seu ministério. Não se engane sobre esse assunto! O ministério pertence à igreja. O Senhor trouxe provisão para a igreja, a fim de que ela possa ser ajudada a exercer plenamente seu ministério através desses dons.

Essa é uma expressão maravilhosa (no verso 8)! Como sabemos, trata-se de uma citação do Salmo 68. Você se lembra desse salmo! É o salmo do retorno triunfante do monarca vitorioso depois de sua campanha em que derrotou seu inimigo, tomou para si grande despojo e trouxe de volta muitos prisioneiros. Em seu triunfo e recompensa de seus ganhos, ele agora generosamente distribui seus presentes [ou dons] para as pessoas em seu reino, a fim de que eles possam ser introduzidos no benefício de seu grande triunfo. Esse é o quadro do Salmo 68, e existe pouca dúvida de que esse salmo tenha em seu pano de fundo histórico a conquista de Sião por Davi.

Você se lembra da história. Sião estava sob o domínio dos Jebuseus, defendida pelos mais fracos de seu povo, seus coxos e cegos, porque, para eles, Sião era uma fortaleza invencível, que não precisava de nada mais do que ela mesma para se defender. Davi lançou seu desafio concernente à tomada da fortaleza, inspirando seus homens para essa grande tarefa. Então, eles lançaram seu ataque, escalou as alturas e derrubou o inimigo, subjugando cada força opositora, e tomando para si grande despojo. Davi seguiu e tomou todos seus bens, e, apesar de não estar isso registrado, mas em consonância com a prática em tais ocasiões, ele distribuiu esses bens com todo o povo, a fim de que eles pudessem conhecer que grande líder, conquistador e rei ele era.

Esse é o quadro por trás do Salmo 68. É um salmo maravilhoso – você pode lê-lo novamente.

Mas, não é extraordinário e impressionante que o apóstolo agora tira desse poderoso salmo essas palavras e transfere a ideia completa para o Senhor Jesus? “Quando ele subiu às alturas” – temos que colocar esta sentença ao lado das palavras da carta aos Hebreus: “Mas tendes chegado ao monte Sião” (aquele trono e centro da Sua grande conquista, o lugar onde o Rei habita) “...a Jerusalém celestial” (Hebreus 12:22) – “levou cativo o cativeiro e concedeu...” E por que Ele concedeu? Qual o propósito? Que Sua plenitude, a plenitude de Sua poderosa conquista, a plenitude e benefícios de Sua triunfante campanha, se torne a herança de todo o Seu povo. Além disso, para que assim seja, existem distribuidores de benefícios e de riqueza, e esses distribuidores são nomeados aqui – “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”. Voltaremos a esse assunto novamente.

Existe ainda outra pequena ilustração, não tão perfeita ou tão completa, e talvez sem um cenário tão apropriado, mas é uma ilustração desse mesmo assunto na vida desse mesmo homem, Davi. Durante o tempo em que ele foi expulso por Saul, caçado no deserto e tendo ido para a terra dos filisteus, lhe foi dada, para sua própria possessão e habitação, a cidade de Ziclague. Um dia, quando ele havia saído em uma de suas incursões, os Amalequitas saquearam Ziclague, queimaram-na com fogo, tomaram todo seu conteúdo, as mulheres de Davi e de todo o povo, não deixando nada, saindo com o despojo. Quando Davi e seus homens retornaram e encontraram todo aquele estado, ficaram em grande aflição. É-nos dito que eles “ergueram a voz e choraram, até não terem mais forças para chorar” (1 Samuel 30:4). “Davi muito se angustiou, pois o povo falava de apedrejá-lo... porém Davi se reanimou no SENHOR, seu Deus” (1 Samuel 30:6). Ele então chamou o sacerdote para consultar o Senhor, para saber se ele deveria perseguir os Amalequitas. A resposta foi “Persegue-o, porque, de fato, o alcançarás e tudo libertarás” (1 Samuel 30:8). Então Davi partiu com seus homens em perseguição, por uma longa distância, de fato tão longa e tão distante e ainda depois da recente campanha, que alguns de seus homens estavam muito enfraquecidos e muito exaustos para continuar. Então Davi deixou a bagagem ali e disse: “Bem, sentem-se aqui e tomem conta dessas coisas, porque nós continuaremos com essa empreitada”. Deixando parte de seus homens ali, ele pode continuar, e você vai se lembrar de que eles encontraram um egípcio quase morto. Aparentemente ele estava quase inconsciente e doente, não havia se alimentado por três dias e três noites. Eles generosamente lhe deram comida e água e ele recobrou a consciência. Ele então sentou e Davi disse: “Quem és tu?” Ele respondeu, “Sou um egípcio, o servo de um Amalequita. Três dias atrás saqueamos Ziclague, mas adoeci e aparentemente meu mestre simplesmente me abandonou para morrer”. Davi disse: “Poderias, descendo, guiar-me aos Amalequitas? Você sabe onde eles estão, qual caminho eles tomaram?” O egípcio disse “Jura-me, por Deus, que me não matarás, nem me entregarás nas mãos de meu senhor” (1 Samuel 30:15). Assim fez Davi, e o egípcio o levou pela trilha dos Amalequitas, e Davi os subjugou. A palavra do Senhor foi completamente cumprida. Quatrocentos escaparam em camelos, mas nos é dito: “Davi salvou tudo” (1 Samuel 30:18). E parece que ele recuperou um grande despojo a além do que ele havia perdido! (Esse é sempre a forma do Senhor – há sempre mais no fim do que havia no começo, quando nos movemos com o Senhor. Entretanto, isso está pelo caminho). Parece que Davi recuperou um grande despojo além do que havia perdido, pois retornando de sua jornada, ele voltou para os homens que havia deixado no caminho e estava para repartir com eles os despojos. Então, certos maus companheiros disseram: “Não, de forma alguma. Eles não foram para a batalha. Por que deveríamos repartir com eles os despojos?”. “Ah!” disse Davi, “Não fareis assim”. “Porque qual é a parte dos que desceram à peleja, tal será a parte dos que ficaram com a bagagem; receberão partes iguais” (1 Samuel 30:24). E isso Davi estabeleceu por estatuto e direito para sempre em Israel.

Então Davi voltou para Ziclague, e perceba o que ele fez logo na chegada. Ele começou a distribuir os despojos por todo lugar. Ele enviou para Judá e por todas as direções. Ele dever ter tido uma grande conquista dos Amalequitas! Ele estava distribuindo presentes de sua poderosa vitória em todas as direções. Em todo lugar da abrangência das associações e companheirismo de Davi, todos foram trazidos para dentro dos benefícios de sua vitória. Ele levou cativo o seu cativeiro, o trouxe de volta, e agora estava concedendo presentes [dons] aos homens.

Essa é uma ilustração que se encaixa perfeitamente com o Salmo 68, e com o que o apóstolo está nos dizendo. O Senhor Jesus fez sua incursão – e que incursão! Ele veio de uma tremenda campanha contra os principados e poderes e hostes do mal – toda a poderosa abrangência do mal, como podemos ver. Mas essa é a posição. Ele voltou-se para os despojos, e os tomou, os trouxe de volta, e agora Ele está dizendo: “Todo Meu povo precisa participar do benefício disso. Eles precisam receber toda a Minha plenitude. Todos eles devem entrar nas bênçãos da plenitude do que estou investido através dessa conquista. Eles devem ser Minha plenitude. Minha plenitude deve ser vista por todo Meu povo. E dentro disso, dentro desse fim, existem vários ministérios que Eu concedi”. Ele “concedeu dons”, e na carta aos Efésios isso se refere a pessoas dons. Na carta aos Romanos, como sabemos, o apóstolo fala de profecia, e assim sucessivamente – a função propriamente dita. Mas aqui, são as pessoas em funções.

Não queremos gastar muito tempo nessas várias funções, porque isso realmente tomaria todo o nosso tempo. Precisamos apenas observar que o apóstolo, ou o Espírito Santo através do apóstolo, começa citando os apóstolos, e isso é algo muito significativo. Quando chegamos a essa parte particular da Bíblia, percebemos que há algo muito maior. Começamos do ponto de vista universal. Você tem a obra interior, terminando em alguns centros, mas apóstolo é uma função universal. Você deve se lembrar de que o Senhor Jesus chamou os doze “apóstolos” e os enviou – “Ide por todo o mundo e pregai” (Marcos 16:15) “e ensine... e pratique... batize”. É uma função universal – pregar, ensinar, praticar em relação ao nosso ensino. Não começamos com o que é local. Essa é a abrangência do Reino de Cristo. Apostolado está relacionado com isso, e meu ponto nesse momento é que Deus começa com o que é universal. Não de forma diferente. Quando chegamos presentemente ao que é local, deve ter havido a personificação e expressão de tudo o que é universal. Se pularmos para o nível inferior, se isso tomar uma abrangência menor, se se tornar algo menor, perderemos o pensamento divino, e descobriremos que isso perderá seu poder, e sua unção será limitada. Tornar-se-á algo em si mesmo. Tudo começa com o que é universal – “Ele deu uns para apóstolos”. Em outro lugar, referindo-se a esses dons, o apóstolo diz: “Primeiro apóstolos” (1 Coríntios 12:28). Esses são você e eu. Todos os que estão nessa igreja precisam, antes de tudo, ser imbuído e inspirado com a visão e razão universal. Precisamos ser agarrados pela universalidade de Jesus Cristo em todo esse mundo, e essa deve ser a abrangência da visão e propósito, nada menos do que isso. É algo que tem que estar entranhado em nós, a fim de nos liberar inteiramente de tudo o que gravita em direção ao que é menos do que Cristo é. Cristo é tão grandioso, que Ele deve encher todas as coisas, até a última extremidade, e tudo deve ser cheio Dele. Nós precisamos ter uma visão que não seja menor que essa, um propósito e inspiração como essa para começar.

“Outros para profetas”. Vamos gastar um tempo para explicar isso, porque aparentemente no Novo Testamento ainda havia um dom profético, até mesmo no contexto de predição. Mas, tomando o dom profético como um todo, simplesmente significa isso – aqueles que são ungidos a interpretar os pensamentos de Deus para toda Sua igreja, que trazem e apresentam à Sua igreja toda a plenitude de Seus pensamentos concernentes à própria igreja e sua vocação. Um profeta sempre cumpre essa função de chamar de volta as pessoas se elas partiram, mantendo fielmente diante delas os intentos de Deus ao chama-las, quais eram os propósitos de Deus ao escolhê-las, qual eram o ministério e vocação delas debaixo da unção do Espírito. Eles têm essa interpretação dos pensamentos de Deus por revelação vinda do próprio Deus. Isso é muito importante. Essas são as pessoas para quem o Senhor tem mostrado algo de Sua mente, Seu propósito. Elas chegaram até esse ponto, não através de estudo, não através de ser informados, mas pelo Espírito Santo. Eles simplesmente não podem se afastar dessa função. Quando você encontra essas pessoas e as ouve, você descobre que elas estão sempre na mesma linha. Tudo bem! Apesar de não ser somente essa linha! Mas lá está ela, e o profeta vive para esse propósito – manter a plenitude dos pensamentos de Deus sempre fresco diante do povo de Deus.

“Outros para evangelistas”. Evangelista sem dúvida eram os mensageiros itinerantes do evangelho. Eles tinham que pregar o evangelho aqui, ali e em todo lugar. Mas, novamente, esse é um dom soberano. Essa dispensação não passou. Não devemos dizer “esses dons foram bons para o que chamamos de tempos apostólicos, tempos do Novo Testamento, mas não são para hoje”. Bem, se tomarmos essa posição, omitiremos algo muito vital. Esses dons, essas pessoas dons, devem ainda estar aqui na igreja universal. Eles são dons soberanos do ressurreto Senhor, para serem reconhecidos, aceitos, acreditados e honrados. Sabemos que existem alguns homens que não podem falar e não podem pregar sem se dirigir diretamente àqueles que não são salvos. Essa é a essência do que são, essa é a vida deles, e se eles fizerem outra coisa, sua unção se vai. O Senhor está com eles naquela linha. Não há dúvida disso. Eles foram dados à igreja nessa capacidade, e eles simplesmente acabarão com seus ministérios se tentarem ser algo além disso. Isso também é aplicável a nós.

Então, a função combinada – “pastores e mestres”. Gosto dessa combinação! De fato, pastores e mestres são um. Você pode ser um pastor, correndo de um lado para o outro, agitando-se por causa das pessoas o tempo todo, tentando fazê-las se sentir confortáveis, felizes e contentes consigo mesmas, bem aconchegadas, e todo esse tipo de coisa. Isso é ser um pastor, sim – mas... Pastor e instrutor, pastor e mestre, juntos em um. Esses a quem você está acalentando – o que está certo – se preocupando, assistindo, tentando ajudar, não devem ser simplesmente deixados lá nas suas próprias presunções, contentes consigo mesmos e muito felizes por você frequentemente ir visitá-los para dizer algumas boas e úteis palavras. Elas precisam chegar ao entendimento através do pastor e mestre. Graças a Deus por toda combinação de pastores e mestres! Acredito que, para sermos justos, devemos colocar isso de outra forma: podemos levar as pessoas a se tornarem pesarosas se for somente ensino sem cuidado. As duas coisas devem operar de ambos os lados.

Mas, ao dizermos tudo isso, qual é o grande objetivo, e qual é o teste do ministério, o teste da unção, o teste da função? Encontramos aqui: “até que todos cheguemos... a plenitude de Cristo”.

Cada ministério, divinamente dado, tem apenas o propósito de nos trazer ao que é completo, que no fim das contas é à plenitude de Cristo. Isso está acontecendo? O ponto em que chegamos é muito prático para todos nós. Não se trata apenas de ouvir, escutar o que nos está sendo dito, o que está sendo trazido até nós, por esses vários meios. Não se trata apenas de receber tudo o que eles têm para dar, abastecer e prover. O teste para os que têm recebido do ministério de vários instrumentos é: “Estamos bem certos de que isso está resultando em algo do crescimento de Cristo em nós?” Isso irá necessitar uma atitude e uma ação. “O Senhor falou hoje. O Senhor disse algo hoje. Eu estou ouvindo atentamente a esse irmão, a esse servo do Senhor, para ver o que o Senhor tem para dizer, porque estou sendo envolvido numa grande responsabilidade por ter dado ouvidos a tudo isso. Agora, se eu posso, no Espírito, discernir algo de que o Senhor tem me falado, tenho que converter esse algo diretamente para minha vida, para o meu caráter, em substância, em história de vida”.

Fico pensando quantos de nós, de fato, depois de uma mensagem, vão diante do Senhor e dizem: “Senhor, não é suficiente para mim simplesmente ouvir essa mensagem. Se assim for, ela pode operar somente para minha condenação. Como Tu dissestes: “a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia” (João 12:48); ela será apenas para minha condenação. Não há garantia de que o muito ouvir a verdade divina resultará automaticamente no aumento da minha medida espiritual. Preciso fazer alguma coisa a esse respeito. Preciso levar tudo isso ao Senhor e reagir diante disso tudo”.

Sabemos quão possível é ter sido dado muitas e muitas coisas por tantos anos, e o resultado da medida espiritual ser muito pequeno! Alguém disso isso relutando, mas é bem possível. O ponto é que todos esses dons são dados para o aperfeiçoamento dos santos “para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos... a plenitude de Cristo”.

Esse é o serviço essencial. Você não foi chamado para um cargo; você foi chamado para funcionar. Muitas pessoas estão bastante prontas para começar a fazer algo se você apenas as vestir com um uniforme, ou se colocar nelas um crachá, ou ainda se chama-las por um título – “missionário” ou “reverendo”, ou algo assim. Eles se ocuparão com isso. Mas... oh, não! Não é isso o que está aqui. O Espírito Santo, através desse apóstolo, está falando à igreja – “até que todos”. E ele está dizendo isso para que cada um dos todos tenha que aumentar a medida de Cristo através dos ministérios dados, e para que, através desse aumento, tenham algo para se doar, assim será possível para as pessoas que estão em necessidade de luz, vida e ajuda dizer: “fulano(a) alcançou algo – ele ou ela obteve algo –aquelas pessoas realmente tem alguma coisa – e isso é vital. Não é apenas iluminação, mas é algo vital. Eles contam com aquilo que eles possuem para viver”.

Deve ser assim. Esse é o serviço essencial.

Voltando novamente a Ester. Mencionamos como tudo operou no fim, por ela ter chegado, pela graça, maravilhosa graça, abundante graça, às riquezas, fartura e glória do seu relacionamento matrimonial com o rei. Toda a nação recebeu os benefícios e foi salva da morte para a vida. Foi posta em um singular caminho no fim: “havia entre os judeus... banquetes” (Ester 8:17 VKJ). Eles tinham festas e “banquetes”! Oh, o povo do Senhor não precisa de “um banquete”? Creio que estamos tendo “um banquete” hoje, mas certamente desejamos para todo o povo do Senhor um banquete no sentido de livramento, libertação, escape dos dispositivos do inimigo, do conselho do inferno, do veredito de morte, nos achegando a todos os benefícios desfrutados por Ester.

Essa é a necessidade, a real necessidade que clama. Talvez estejamos aqui hoje com um senso que não é apenas o dessa necessidade, mas isso é o que realmente o Senhor quer. Espero, de todo o meu coração, que enquanto estamos aqui hoje e estamos falando uns com os outros, seu coração esteja dizendo: “Isso é o que a igreja precisa. É o que eu preciso. É isso”. Espero que seja assim! Espero que seja em alguma medida.

Se você tem esse desejo e esperança no seu coração – sempre que há uma mensagem vinda de um mensageiro do Senhor, um mensageiro ungido do Senhor, de qualquer capacidade ou função, quando ele está cumprindo seu ministério, você está ouvindo e dizendo: “O que o Senhor está falando hoje? O que é que está marcando esse tempo como sendo do Senhor?” e então “preciso fazer alguma coisa a esse respeito!” – esse tipo de atitude trará em medida espiritual, aumento espiritual, riqueza espiritual, e conduzirá ao objetivo final: alcançar “à medida da estatura da plenitude de Cristo”.

Que o Senhor ponha sobre nós esse fardo, se necessário, com esse grande senso de vocação. Somos chamados ao trono, somos chamados à união matrimonial com o Rei, somos chamados para administrar os recursos de Seu reino para Seu povo, somos chamados agora para sermos ministros de Cristo – sim, ministros de Cristo! E talvez em um senso muito mais real e maravilhoso do que muitas vezes foi empregado a essa palavra “ministro”. Você pode ter o nome, você pode ter essa palavra (ministro), e ela pode ser usada pelas pessoas, mas o Senhor somente conhece o que ela significa. Somos chamados a estar ministrando a igreja em toda parte.

Agora, vá e busque isso – busque ao Senhor a esse respeito. Diga: “Eu sei, não sou muita coisa. Não adquiri muita vida. Não sei muita coisa. Não sou muito bom. Mas o Senhor disse isso e eu tenho que fazer algo a respeito, pequeno como sou, mau como sou, desprezível como sou, indigno como sou – o Senhor disse isso para mim, e eu sou uma parte do Seu corpo, e Seu corpo é chamado para ser um corpo ministrante em toda a parte. Estou no corpo e ‘pelo auxílio de toda junta’. Preciso estar nesse suprimento para outras partes do corpo”.

Que o Senhor te ajude a tomar essa atitude e você encontrará nesse caminho sua libertação de muita coisa. Muitos dos nossos problemas, paralisias, confusões e o que não é devido ao nosso ser se tornam em introspecção corporativa, ocupação com nós mesmos e nossos problemas corporativamente. Oh, esse é um truque do diabo! Falaremos mais sobre isso, mas que o Senhor nos dê uma grande visão Dele mesmo, do nosso chamado e – bendito seja Deus – de Sua distribuição!

Se eu tiver que adicionar uma palavra, eu colocaria isso dessa maneira. De fato, sabemos que nos tempos do Novo Testamento, no começo, quando as pessoas realmente vinham ao Senhor e eram salvas e batizadas, os apóstolos de fato impunham suas mãos sobre eles e oravam por eles, e se olharmos para a questão, descobriremos que isso acontecia pelo seguinte – que, pelo Espírito Santo, eles deveriam se tornar membros funcionais do corpo de Cristo. O Espírito Santo distribuiu dons para funcionamento, os qualificando para serem membros funcionais. O Espírito Santo não reconhece ou aceita nenhum passageiro na igreja de Deus. Não somos todos, cada um de nós, para sermos membros funcionais pelo Espírito Santo que nos foi dado? E, enquanto isso é uma afirmação desafiadora, que pode nos preocupar um pouco, lembre-se, é para nos mostrar o seguinte: que o Senhor fez provisão para o que Ele requer. Ele de fato fez isso, e sabemos que o Espírito Santo nos ajuda em certos caminhos, quando podemos dizer: “Esse é o caminho em que o Senhor está comigo. Esse é o caminho em que o Espírito me ajuda. Aqui é onde encontro ajuda do Senhor”. Sim, Ele distribuiu de acordo com Sua vontade, e isso é para cada um de nós, para verdadeira experiência, para descobrir o que devemos fazer e contribuir no corpo de Cristo. Não tente fazer o que o outro está fazendo, mas obtenha do Senhor, e isso será bom.

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