Pela Fé...
por T. Austin-Sparks

Leitura: Hebreus 10: 37-39; 11; 12: 1,2

Para que possamos apreciar e compreender o valor do trecho da carta aos Hebreus, compreendido entre o final do capítulo 10 até o capítulo 12, precisamos nos lembrar da posição em que aqueles crentes hebreus se encontravam, da posição para a qual estavam sendo chamados e daquela que estavam sendo lembrados. Isto é, a posição celestial como oposta àquela em que eles estavam, no mínimo, em perigo de cair.

Todo o propósito da carta aos Hebreus era de fazer uma separação entre aqueles crentes e o que estava tentando os levar de volta ao um nível e base terrenos de religião, como quando estavam sob o governo das formas temporais externas da vida religiosa estabelecidas por Moisés.

O curso dessa carta é o desvendar do fato de que todas aquelas coisas do Velho Testamento eram apenas sombras de Cristo, que é a substância. Tudo apontava para Ele e, com Sua vinda, todas aquelas coisas agora foram cumpridas e se tornaram celestiais em sentido e valor para vida.

Sob grande pressão e batalha, esses santos estavam sendo tentados a deixar sua posição celestial e voltar para a base terrena, porque é muito mais fácil para a carne estar em uma posição de apenas fazer as coisas religiosas exteriormente, deixando que isso seja o início e fim de tudo.

O ponto principal nesse grande resumo é a posição celestial para a qual o povo de Deus é chamado. Tal posição, sendo por nós tomada, se torna o terreno de nossas grandes provas, ao sermos testados de acordo com ela.

Isto é muito claro em cada estágio, grau e nível. Se a medida é pequena, então é nessa medida que somos testados. Mas, se tomarmos por base o completo, o máximo e o mais elevado, então o teste se torna supremo. Nós somos testados de acordo com a posição que tomamos.

Todas as Dispensações Governadas pela Fé

Há outra coisa que essa carta também nos mostra, que a fé não é algo que foi trazido na dispensação do Novo Testamento, mas tem sido o princípio pelo qual o Senhor governou Seus santos em todas as eras. O Senhor nunca pretendeu que a dispensação da lei através de Moisés fosse outra além da dispensação da fé - e não temos diante de nós apenas o contraste entre as obras da lei e da fé - porque temos a fé aqui (em Hebreus 11) apresentada em relação a todo o povo que estava sob a lei, se tornando a base para o seu julgamento.

Pela fé Moisés... pela fé Israel, e a continuamente sob toda aquela dispensação. Todos foram julgados pela fé. Fé sempre foi e sempre será a coisa primária para Deus, algo supremo. É isso que governa todas as eras na mente do Senhor. Fé é a chave para cada era.

A Base da Fé

Quando olhamos para o capítulo onze de Hebreus, buscando a base da fé, descobrimos que é algo espiritual, feito no interior da pessoa. É bem verdade que muitas coisas registradas ali aconteceram exteriormente, como foi com Sara, Isaque e o livramento da fornalha, mas, tais coisas exteriores dependeram inteiramente de algo que aconteceu antes interiormente, apesar de não sabermos como. Por exemplo, pela fé, quando foi chamado por Deus, Abraão partiu. Não sabemos como foi esse chamado. Pode ter sido um anjo ou o próprio Senhor, de forma corpórea, que apareceu para Abraão.

Podemos dizer: ‘Oh, se ao menos isso tivesse acontecido conosco, teríamos um fundamento substancial para a fé! Se ao menos aqueles três homens aparecessem para nós, como apareceram para Abraão’ - como tudo indicou, eles eram a representação do Pai, do Filho e do Espírito Santo em forma corpórea (não tenho dúvida disso, considerando o que está ali insinuado, quando observamos o incidente de perto) - quão fácil seria para a fé, ou quão diferente seria o fundamento da fé! Ele foi chamado por Deus.

Não creio que o fundamento para a fé era baseado em acontecimentos. Mesmo algo tendo acontecido por meio de instrumentos e coisas exteriores, independente de como este fundamento surgiu, aquilo foi algo trabalhado e registrado interiormente, que gerou um efeito também no interior. É questionável que um fenômeno, por mais maravilhoso que seja, ainda que seja um anjo do céu, possa ser um duradouro e sólido fundamento para a fé.

Às vezes, dadas as circunstâncias, podemos duvidar de nossas grandes experiências exteriores. Há algo em nós chamado de alma que é psíquico, capaz de produzir os mais memoráveis e estonteantes fenômenos, a ponto de nos fazer acreditar neles e então dizemos: “Bem, eu estava evidentemente alvoroçado, as coisas começaram a acontecer, eu ouvi coisas, eu vi coisas!”. Assim, podemos questionar tudo aquilo através de uma base psícquica e psicológica. Essa é a tentação. Será que naquela hora eu estava em estado de serenidade e equilíbrio, ou será que eu estava em um estado de tensão nervosa? Será que imaginei essas coisas, sendo elas afinal apenas manifestações psíquicas? Isso poderia acontecer a todos esses homens, tanto do Novo como do Velho Testamento. Se essa fosse a base da fé, ela seria totalmente instável e insatisfatória.

Seja qual for a forma que o Senhor se manifeste ou o meio que Ele usa, a real base da fé é aquilo que tem sido realizado, forjado em nós. Apesar de possivelmente ter sido o Senhor da glória que apareceu ao pai Abraão, o efeito foi: Abraão sabia que algo havia acontecido nele, algo foi forjado em seu interior, lhe permitindo dizer a partir dali: “Existe algo em mim que é muito mais profundo do que os meios e métodos usados pelo Senhor, que se tornou uma parte do meu ser!”.

Se, por um momento, você pensar que se um anjo aparecesse seria mais fácil crer no futuro do que sem esse anjo, lembre-se de que você pode sempre duvidar dos seus anjos. Não existe garantia de que você vai crer porque viu um anjo, ou porque teve os céus abertos diante dos seus olhos. Isso é algo que deve estar no seu interior, que, no fim das contas, é invisível e intangível, mas muito real. É algo que o Senhor fez, algo Dele mesmo, algo que Ele tornou real para você a respeito Dele mesmo, de Seus caminhos, de Sua mente, de Sua vontade, algo forjado pelo Espírito Santo.

Essa é a base da fé – o Senhor e o Seu efeito na nossa vida. Não estou falando que a nossa experiência será a base da nossa fé, mas o próprio Senhor será uma realidade dentro de nós, realizando algo e nos afetando de uma forma profunda no nosso interior. Esta é a essência da fé que é exposta nesse capítulo de Hebreus. Aquelas pessoas conheciam o Senhor de maneira interior, e este foi o início e o fim deles no assunto de fé.

A Natureza da Fé

Agora veremos que há um resultado desse conhecimento interior. Aqueles heróis da fé chegaram a um ponto onde realmente creram em algo que deveria acontecer, mesmo que em muitos casos - na maioria deles - aquilo nunca veio a se realizar durante a existência de suas vidas.

Mas a grande declaração desse capítulo é que isto não fez nenhuma diferença. Eles chegaram a uma posição com o Senhor, no conhecimento Dele, a ponto de que eles todos podiam morrer, mesmo não recebendo as promessas. Todos morreram em Fé.

Eles nem ao menos tiveram o estímulo de ver as coisas se materializando; mas puderam morrer crendo. Pode ser até fácil viver em fé, se você acredita que aquilo que se espera, se realizará durante a sua vida. Mas a essência da fé é: “Isto tem que ser! Isto é parte de Deus, é o próprio Deus. Não faz nenhuma diferença para a fé se vou viver ou não para ver isso. Assim será! Vivo agora, não para ver isto durante minha vida, mas vivo hoje em relação ao que espero, sabendo que será realizado em algum tempo dentro do propósito e intenção e Deus”.

Então, mais adiante vemos uma maravilhosa declaração. Eles não receberam as promessas, morreram na fé, mas olharam adiante, olharam para nós. A fé os levou além de suas próprias vidas, e o texto bíblico nos diz que se não fosse assim, eles não “seriam aperfeiçoados”. A palavra “aperfeiçoado” é muito interessante. Ela simplesmente significa que eles não poderiam chegar à consumação, à medida completa de sua fé. A fé não poderia alcançar seu fim até que nós entrássemos em cena. Ela demandava por nós.

Eles, sem nós, não chegariam à consumação de sua fé. A fé segue em frente e vê que ainda existem coisas que devem ser trazidas à realidade por Deus, aquilo que está em nosso coração, pelo qual estamos vivendo, trabalhando, sofrendo e pacientemente aguardando.

A fé vai direto ao fim e diz: ainda pode não ser o tempo; podem haver mais coisas que devem ser trazidas à luz para que a consumação seja possível, mas eventualmente, minha fé em Deus será justificada, e aquilo se realizará!

A fé é algo grande, é algo abrangente, e a verdadeira pureza de fé significa que nós não vivemos apenas para ver as coisas no nosso tempo. Se assim fosse, se houvesse qualquer dúvida quanto à possibilidade de vermos algo em nosso tempo, a fé se perderia. Essa não é a essência da fé de jeito nenhum. Precisamos ter uma fé além da vida, uma fé com ampla visão, que não se torna menos ativa porque a possibilidade de plena realização em nosso tempo começa a se obscurecer. Não, a fé deles nasceu no terreno no qual eles sabiam que Deus planejava algo e o iria realizar cedo ou tarde; mas Ele deveria trazer muito mais à luz do que eles poderiam imaginar naquele momento. Além do mais, eles estavam junto com Deus nesse propósito, de todo o coração. Ainda que eles não pudessem ver, iria acontecer. Essa é a base e natureza da fé.

O Resultado da Fé

Então qual é o resultado? Por duas vezes nos é dito que, por este tipo de fé, eles receberam um bom testemunho. Os anciãos receberam um bom testemunho (vs.2) e, então, quase no final, todos eles receberam um bom testemunho (vs.39). É isso que eles receberam – um bom testemunho.

O que é um bom testemunho? No próximo capítulo, o Capítulo 12, somos como crianças na escola, crianças de uma família. O Pai está lidando conosco como filhos, e isto é tudo parte deste argumento: ‘Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor’, e por aí vai. Isto tudo se relaciona a esse bom testemunho.

Não acredito que seja verdade - no caso daquelas pessoas referidas no Capítulo 11 - que o bom testemunho relatado seja relacionado ao que eles conquistaram, o quão espertos foram, e do que foram capazes de fazer em suas vidas. Isso não foi um bom testemunho. Deus está escrevendo o testemunho de suas vidas.

Para que serve esse testemunho? Não foi porque eles alcançaram tantas coisas maravilhosas. O bom testemunho foi este: eles confiaram no Senhor e fizeram o seu máximo através da fé. Eles não disseram: “oh, bem, isso nunca vai se realizar em nossa vida e nunca poderemos ver isso acontecer; não tem utilidade! Isso demanda por pessoas melhores do que nós!”

Não, eles olharam para o todo, e viram que, no geral, aquilo era humanamente impossível, apenas Deus poderia fazê-lo. Mas isso não os fez voltar atrás e dizer: “oh, nunca posso ser parte disso, nunca poderei ter nenhuma utilidade nisso!” Não, eles creram em Deus, confiaram no Senhor, então, se incluíram nisso de todo o coração e viveram em uma confiança positiva em Deus. Eles fizeram tudo o que a fé os guiou e os levou a fazer. A fé é sempre algo ativo. O bom testemunho foi que eles creram no Senhor e se lançaram nisso, se entregaram, não importando quão difíceis as coisas fossem.

A fé vai determinar qual das duas coisas nos caracterizará. Esse é o verdadeiro ponto. Podemos viver sob uma terrível paralisia, totalmente petrificados através de confusão, perplexidade e falta de capacidade de entender as circunstâncias à nossa volta, sendo incapazes de nos desembaraçar, de separar as coisas, de ver claramente e adiante, de poder entender o que significam os acontecimentos. Isso significa total paralisia, simplesmente parar com as mãos na cintura, desamparado e sem esperança. Esse é o efeito da falta da fé positiva.

O único caminho de vida e libertação dessa paralisia é a deliberada fé em Deus, que nos leva a tomar uma atitude de seguirmos em frente com Ele, entendendo ou não, com ou sem explicação, com ou sem luz; vamos adiante com Deus na base do que Ele fez e tornou real em nós, do que o próprio Deus é para nós e por meio do que Ele fez em nós. Nós seguimos adiante!

Nós, amados, podemos chegar a esse ponto mais de uma vez no curso de nossas vidas; e devemos chegar ao ponto de perceber que, de fato, enfrentaremos novamente outra situação de escuridão, desespero e paralisia, sendo regidos completamente fora de qualquer efetividade, infrutíferos, sem qualquer valor, a menos que nos recomponhamos e digamos para nós mesmos: “Tudo isso é é uma inexplicável e desconcertante confusão, entrelaçado ao nosso ponto de vista humano; mas Deus é, Deus é fiel. Isto é o que Ele diz de Si mesmo”.

Então, sem questionar Deus, vamos em frente crendo Nele, até mesmo ao ponto de Lhe entregar as nossas derrotas e erros. Mas isso, à medida em que colocamos nossas vidas à Sua disposição de forma real e honesta, e depois de termos nos rendido absolutamente a Ele, estando livres de interesses pessoais e mundanos. Estamos aqui apenas para Ele. Nós devemos deixar diante do Senhor nossos erros e falhas, confiando Nele e seguindo adiante.

Qual é a alternativa? Este é sempre o ponto. Desistir e irmos embora, abandonando completamente tudo o que que já foi conquistado. E então, quando no final das contas, colocarmos tudo na balança e questionarmos, por quê? Bem, a resposta é porque não confiamos no Senhor. Deus não está requerendo que sejamos perfeitos como Ele – muitas vezes esse é o padrão que queremos alcançar, de que nunca cometeremos erros, nunca teremos questionamentos, que nosso caminho será tão absolutamente perfeito, que teremos confiança em nós mesmos em todos os passos que tomarmos.

Não, nós nunca chegaremos a esse ponto. Abraão e Moisés cometeram erros. Todas essas pessoas cometeram erros. Elias foi um homem com paixões como nós, a ponto de se colocar sob um junípero, pedindo que o Senhor o deixasse morrer. Todos esses passaram por esse caminho, mas vemos que aqui há um registro – eles todos obtiveram um bom testemunho.

Oh! Elias obteve um bom testemunho. Moisés se irou e perdeu a terra prometida, mas obteve um bom testemunho. Abraão foi ao Egito, teve Ismael, mas também obteve um bom testemunho. Não vamos tentar ser perfeitos como o Senhor. O que o Senhor deseja é um coração perfeito diante Dele; não que tenhamos realizado obras perfeitas, mas que tenhamos confiado no Senhor. Nós devemos sempre nos lembrar de que existe uma grande diferença entre fé e presunção. A fé é muito diferente da vontade própria e da força de vontade. Fé é baseada em abnegação, e os homens de fé sempre foram muito humildes, marcados e ajustáveis quando cometeram erros. Não vamos buscar ser infalíveis, mas fiéis.

Primeiramente publicado na revista “Uma testemunha e o Testemunho”, Maio-Junho 1942, Vol.20-3

Origem: “By Faith…”