O Valor da Fraqueza
por T. Austin-Sparks

2 Cr.26:15; 1 Co.1:27; 2 Co.12:9; Ef.6:10, 3:16; Cl.1:11

A grande importância e valor da fraqueza e dependência consciente é o que se encontra nestas passagens quando você as traz juntas. Parece até uma contradição: “Deus escolheu as coisas fracas...” – “Sede fortalecidos...” “fortalecidos com poder...”. É sempre possível colocar Escritura sobre Escritura e fazer parecer uma contradição, mas as Escrituras nunca realmente se contradizem. Isso tem que ser resolvido de uma vez por todas. O sentido das aparentes contradições deve ser visto mais profundamente, e quando o real significado é encontrado, as Escrituras aparentemente contraditórias serão colocadas em perfeito acordo. Este é um dentre uma boa quantidade de aparentes paradoxos. Se eu colocasse os de certa forma os paradoxos apareceriam ainda mais agudos. Se eu fosse falar, fraqueza é certo, e força é certo, e que ambas devem existir juntas ao mesmo tempo, você poderia ver quão agudo o aparente paradoxo se tornaria. Fraqueza e força, não obstante, são ambas claramente representadas de acordo com a mente de Deus, e devem estar no mesmo indivíduo exatamente ao mesmo tempo. Fraco, tão fraco que não pode fazer nada! Forte, fortalecido com poder tão maravilhoso que as coisas são realizadas. Uma simultânea consciência, uma simultânea experiência, uma simultânea realidade, e não há contradição nelas. Você diz, como pode ser assim? Isto é simplesmente confuso! Deve ser tornado claro.

Algumas vezes nos são ditas coisas sobre fraqueza, da necessidade da fraqueza, da importância de um tipo de fraqueza, dependência, consciência de desamparo, e nós temos imediatamente lançados sobre nós aquelas Escrituras sobre ser forte, com o intento de desfazer o argumento, de destruir a afirmação, mi8nas sua afirmação, como se as duas coisas não pudessem caminhar juntas em harmonia. Pessoas tem uma maneira estranha de se tornar mentalmente presas com as Escrituras nessas aparentes contradições, e portanto se torna necessário e de grande ajuda se podemos entender o significado desses aparentes estados contraditórios como demandados pelo Senhor para coexistir ao mesmo tempo no mesmo objeto.

Deus Esvazia para Encher

A necessidade de fraqueza é perfeitamente normal. Através do conjunto das Escrituras, Antigo Testamento e Novo, é perfeitamente claro que Deus começa desfazendo os homens e levando-os até um lugar de fraqueza e de vazio, Ele realmente esvazia Seus vasos antes de enchê-los. O Senhor realmente quebra antes de construir. O Senhor tira a força antes Ele faça a sua força perfeita no mesmo objeto. Não há dúvida sobre isto na leitura da Palavra de Deus e no estudo da história de qualquer instrumentalidade que serviu o propósito do Senhor de qualquer maneira vital. A necessidade de fraqueza e dependência consciente é muito real quando entramos na esfera do valor divino e de um grande valor e importância para nós e para o Senhor.
A Razão do Enfraquecimento

Onde, então, que essa necessidade começa? De onde vem sua ascensão? Ela tem sua origem a partir do desejo da natureza pelo poder e força. Universalmente o homem, por natureza, deseja força, e diremos não gosta (que é uma palavra fraca) fraqueza, revolta-se contra a fraqueza, deseja o poder. Esse desejo está em nós por natureza. Seria difícil encontrar a pessoa, por mais insignificante que possa parecer, entre homens e mulheres, que realmente, naturalmente, se deleita em estar em desvantagem, tem prazer em ser aviltado, incapaz de levantar-se diante dos outros, de se garantir em si mesmo, possuir uma medida de dignidade. Não, isso não é da natureza humana, e muitas vezes até mesmo uma humildade falsa é apenas uma maneira sutil de tentar chamar a atenção para si mesmo, e, assim, ganhar uma vantagem. Ouvimos as pessoas dizerem jactanciosamente que eles eram as pessoas mais humildes do mundo, e que isso foi simplesmente saindo em uma forma de orgulho, sob o pretexto de uma falsa humildade. Nós nunca seremos capazes de rastrear todas as formas de vida do nosso ego, que de alguma forma ou de outra se manifesta no sentido de querer ser forte, visando um tipo de poder, influência, permanência, se garantir em si mesmo, mantendo a cabeça erquida, e assim por diante. Essa é a natureza humana.

Uma Coisa Certa Feita Errado

O ponto é este, que na natureza humana como ela é agora, o que chamamos humanidade caída, toda a questão de poder tem sido subvertida para que isto se torne uma coisa pessoal, e, assim, tornou-se uma coisa má. Deus nunca quis que o homem fosse um verme indigno rastejando sobre a terra. Ele desejava que ele fosse nobre, magnífico, o maior produto de Sua mão, dotado de uma grande dignidade, possuidor de maravilhoso poder e força e influência. Mas Deus planejou tudo isso para Sua satisfação, a Sua glória, Sua honra, para Si mesmo. A coisa toda se tornou pervertida, e tomou uma natureza de interesses pessoais de alguma forma ou de outra, e isto é a natureza humana como nós encontramos agora. É apenas quando o princípio do eu é quebrado que podemos aceitar de bom grado uma posição de ser nada por causa do Senhor.

A Busca de Satanás pelo Poder

Aqui reside o segredo da necessidade da fraqueza, que o homem como ele é tem nele uma força subvertida ou busca por força. Lá reside o supremo objetivo Satânico. O único objetivo dominante de Satanás é poder, força, domínio, e ele colocou essa ideia, essa sugestão, dentro do homem, para ser como Deus, isto é, de ter poder em si mesmo afastado de Deus. Homem e Satanás, assim, entraram na terrível fraternidade de buscadores de poder para fins pessoais, e se temos isso em nossas mentes como nosso objetivo ou não, nossas naturezas têm isso como um objetivo, independente de nós mesmos. Mesmo os santos descobrem que em suas naturezas há essa tendência, e que quando Deus abençoa, e abençoa maravilhosamente, há um inimigo na velha natureza que pode tomar posse da própria bênção de Deus e usá-la para sua própria glória; “porque foi maravilhosamente ajudado, até que se tornou forte" (2 Crônicas 26:15), e tomou as bênçãos maravilhosas de Deus como um meio de poder, trazendo-o em destaque e levando-o até mesmo em territórios proibidos; esse inimigo mal que está dentro, que mesmo em santos maravilhosamente ajudados e abençoados por Deus, de quando em quando se levanta e se torna sua ruína. É a velha coisa de novo. O supremo objeto de Satanás, trazidos na própria constituição do homem caído e manifestando-se sempre e sempre naquele terreno para poder pessoal, a força para nós mesmos em interesse próprio.

Essa coisa é tão profunda, tão sutil e tão secreta, que eu e você nunca vamos chegar ao fundo da questão. Você e eu nunca vamos chegar, como se diz, até o fim disso. Nós nunca seremos capazes de colocar a mão sobre isto, para agarrar, compreender. É muito profundo para nós, é muito sutil para nós. As formas em que o desejo de força mostra-se muitas vezes são tão profundamente sutis que é pensado ser bom e justo ou é totalmente invisível. Encontra-se mais a volta do mal, destruição, ruína, limitação do povo do Senhor do que somos conscientes. Oh, o tremendo antagonismo com os interesses do Senhor encontrado nesta natureza nossa através de um desejo de força, força de vários tipos, mas força.

A Cruz e a Natureza Humana

Aqui reside a necessidade, então, para a fraqueza, enfraquecimento, de quebra, de esvaziamento. Apenas alguém com o pleno entendimento sobre a profundidade e amplitude dessa coisa poderia lidar com isso, e você e eu não temos isso. O Senhor conhece toda a gama, e compreende as dimensões absolutas disso na humanidade, e foi Ele próprio que foi para a Cruz para levar a humanidade caída à morte. A cruz do Senhor Jesus é algo muito maior do que nunca descobriremos, muito mais do que possamos imaginar. As profundezas de nossa natureza têm sido vistas como nunca vimos antes, e tratadas através da Cruz. Todas as forças sutis que tanto nos enganam fazendo-nos pensar que são boas, Deus tem visto a sua verdadeira natureza tomou aquilo do qual somos ignorantes a respeito à Cruze lidou com isso, raiz e ramos, do centro para a circunferência. Mas sabemos que isso tem uma aplicação prática, e é aí que é há a necessidade de fraqueza nesse terreno, mesmo até mesmo um poderoso apóstolo, com o céu aberto e uma voz vinda do Filho de Deus glorificado, um vaso escolhido antes que o mundo existisse, e tudo o que ele representava de soberania e graça, deve necessariamente ter um espinho plantado na sua carne para que ele não se exaltasse, isto é uma indicação da mente divina quanto ao dano de uma busca por poder, que se encontra secretamente dentro da velha criação, e que iria mostrar-se, apesar da consagração, apesar do abandono ao Senhor, apesar de estar disposto a morrer, e morrer, e morrer de novo, no interesse do Senhor. Você não tem homem mais absoluto para Deus do que o apóstolo Paulo, um homem que demonstrou que ele morreria pelos interesses do Senhor, e ainda há o perigo nele do velho homem, que Deus reconhece. Foi uma grande surpresa para ele quando o Senhor deixou claro para ele por que ele colocou um espinho em sua carne. A coisa é tão sutil, que funciona tão secretamente e funciona apesar de tudo o que deveria ser de Deus. Ele trabalha no escuro onde não podemos reconhecê-lo. Portanto, há uma tremenda necessidade de Deus de tornar a cruz uma coisa real continuamente para o final dessa coisa, para quebrar, esvaziar e nos trazer a um estado de fraqueza e dependência consciente por causa do enorme valor desse estado para o Senhor, diante do enorme prejuízo para os interesses do Senhor ligado a essa tendência, com tal traço no nosso caráter.

A Verdadeira Natureza e Terreno da Força

Deve haver uma palavra dita pelo outro lado. Assim como verdadeira e igualmente existe a necessidade de fraqueza existe a necessidade de força, ao mesmo tempo. Assim como enfaticamente as palavras declaram: "Seja forte ...", mas qual é a natureza dessa força? Qual é o terreno dessa força? "Seja forte no Senhor e na força do seu poder" (Ef 6:10). Essa força nunca será em nós como de nós mesmos. Nunca será uma parte de nós. Ela vai sempre ser mantida e preservada no Senhor, para que a nossa relação seja sempre com base na dependência da fé. Nós nunca seremos capazes de ir em frente com a força do Senhor, como se fosse nossa, e usá-la. "Seja forte no Senhor...".

A Escolha do Homem de Deus

O ponto é este, que existe um Homem em quem todo o poder de Deus pode habitar sem qualquer perigo. Há um Homem em quem o poder de Deus pode habitar em plenitude, sem qualquer perigo. Este Homem está no céu. Este Homem não está aqui. O poder de Deus não pode habitar em nós sem perigo. "...Porque ele foi maravilhosamente ajudado, até se tornar forte. " Oh , que pena que a palavra "até " tinha surgir. Ela indica terríveis possibilidades. A questão, no caso de Uzias, foi que o Senhor feriu. Uma mudança terrível na história. Isso mostra que não é seguro para nós, para tomar posse para nós mesmos da força de Deus, e Deus colocou a cruz lá, onde nunca pode ser feito. Ele não pode permitir isso. Se tentarmos isso vamos ser quebrados. Vamos nos levantar contra a grande proibição da Cruz. Mas Deus encontrou um Homem. Sim, eu sei que Ele é mais do que um Homem, Ele é Deus, Ele é o Filho de Deus. Esse é um lado. Nós nunca vamos confundir esses dois lados. Mas há o outro lado. Ele é o Filho do Homem, e ele é um Homem em quem o poder de Deus pode habitar em plenitude, sem qualquer perigo. Este Homem nunca vai usar esse poder para seus próprios interesses à parte do Pai. Nele você nunca terá aquela obra súbita do eu, que inconscientemente, usa o poder Divino como e bênção Divina para si mesmo. Não está em Sua natureza. É a nossa. O homem mais santo na terra tem isso dentro dele. Ele pode ser, inconscientemente, satisfeito que as pessoas consideram-no como bom, ou como tendo experiência. Oh, sim, ele trabalha ali naquele terreno. Mas existe Um que pode ter todo o poder divino, e não há o menor vestígio nele de qualquer coisa que possa converter esse poder para interesses pessoais, portanto, o poder pode habitar nEle plenamente.

Duas coisas são claras, se essa é a posição. Você pode ler, se quiser, e isso vai estabelecer para você o que Deus tem feito. Volte-se para Atos 17:31 - "porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos..." Quem é esse homem? Volte-se para 2 Tm. 4:8 - "Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia..." Agora voltemos para Romanos 2:16 - "no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho".

O Homem a quem Ele que destinou para o julgamento do mundo em justiça, é o Senhor, o justo Juiz, naquele dia. Quem é o Senhor, o justo juiz? Jesus Cristo, o Homem a quem Deus ordenou! Se você quiser mais provas, leia todo o quinto capítulo do Evangelho de João. "E lhe deu autoridade para julgar, porque é Filho do Homem" (versículo 27, RVM). Existe um Homem em quem todo o poder repousa sem qualquer perigo.

As duas coisas são estas. Temos de ser fortes na força que há em Cristo Jesus. Ele é a nossa força. Nós nunca teremos essa força em nós mesmos. Nunca será a nossa força intrínseca, não aqui em nenhum nível, é a Sua força e, portanto, deve ser, por um lado, na medida em estamos em fraqueza contínua, dependência contínua. Medida em que diz respeito a Ele, Ele é a nossa força. O que Paulo quer dizer quando ele diz: "Quando sou fraco, então é que sou forte"? Isso é uma contradição, certamente. Em outras palavras, ele dizia, quando sou fraco, o Senhor tem a oportunidade de mostrar Sua força em mim! Esse é o tipo de força que queremos, é a força do Senhor só pode ser perfeita quando estamos fracos. Se formos fortes, o Senhor recua e nos permite seguir em frente, e nós usamos a nossa força e em breve chegamos a um fim doloroso. "Quando sou fraco, então é que sou forte." A coisa toda é reconciliada quando você chegar lá no fundo. Fraco e forte ao mesmo tempo? Sim, mas nunca forte em nós mesmos, apenas forte no Senhor.

Não existe outra coisa. Há a conformidade com o Filho de Deus, abrindo todo o processo e progresso por meio da fé, através da dependência, pela fraqueza, pela qual chegamos lentamente - oh, muito lentamente - ao lugar onde o Senhor pode depender de nós, onde o Senhor sabe que não vamos tomar a Sua bênção, Sua força, Seu uso de nós e revertê-las para nosso benefício, onde ele sabe que estamos nos tornando confiáveis, com a confiabilidade de seu Filho, conformados à Sua imagem. E assim, o poder é mais abundantemente dispensado sobre nós. É para aqueles que, mais conscientes de sua própria fraqueza, exercitam a maior fé no Senhor como sua força, abrindo um caminho para o Senhor, fazendo com que a maior medida de força se manifeste neles. O obstáculo para a força do Senhor em nós é, frequentemente, a nossa própria força. O caminho para a Sua força é a nossa fraqueza. Assim, o apóstolo disse que iria se gloriar nas fraquezas para que o poder de Cristo pudesse habitar nele, pudesse acampar sobre dele.

Que o Senhor nos traga para a realidade deste glorioso paradoxo.

Publicado pela primeira vez em 1935 pela publicação "Testemunha e Testemunho "

"The Value of Weakness"