O Descanso e a Coragem da Fé
por T. Austin-Sparks

“Portanto, resta um repouso para o povo de Deus” (Hebreus 4:9).

“Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade” (Hebreus 3:19).

“Chegaram os filhos de Judá a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o Senhor falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, a respeito de mim e de ti. Tinha eu quarenta anos quando Moisés, servo do Senhor, me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra; e eu lhe relatei como sentia no coração.

Mas meus irmãos que subiram comigo desesperaram o povo; eu, porém, perseverei em seguir o Senhor, meu Deus. Então, Moisés, naquele dia, jurou, dizendo: Certamente, a terra em que puseste o pé será tua e de teus filhos, em herança perpetuamente, pois perseveraste em seguir o Senhor, meu Deus.

Eis, agora, o Senhor me conservou em vida, como prometeu; quarenta e cinco anos há desde que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e, já agora, sou de oitenta e cinco anos. Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar. Agora, pois, dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia, pois, naquele dia, ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades; o Senhor, porventura, será comigo, para os desapossar, como prometeu.

Josué o abençoou e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança. Portanto, Hebrom passou a ser de Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, em herança até ao dia de hoje, visto que perseverara em seguir o Senhor, Deus de Israel” (Josué 14:6-14).


Nós, Cristãos, estamos sendo constantemente confrontados e provados pelo nosso Cristianismo, ou talvez muitos de nós ainda nem tenham entrado nele. O que quero dizer com isso? A porta do verdadeiro Cristianismo é a porta do descanso, o descanso da fé. A maneira simples que o Senhor o estabeleceu em Seu apelo foi: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28). Essa mensagem foi entregue para a multidão, e essas palavras geralmente são usadas em mensagens evangelísticas aos não salvos. O sentido mais profundo e amplo das palavras do Senhor “Venham a mim.... e eu vos darei descanso” nos é dado na carta aos Hebreus. Algo deve ser ouvido e detectado na afirmação: “Portanto, resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4:9).

Uma Entrada no Descanso Hoje

Pelo contexto, descobrimos que esse repouso representa algo em que o povo de Deus não havia entrado. “Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade” (Hb 3:19). Eles não puderam entrar. Mas quem foram eles? O povo de Deus. É para o povo de Deus que ainda resta um descanso. Não vamos estabelecer isso no futuro, pois o sentido não é de que no futuro, quando chegarmos em Casa na glória, então entraremos no descanso Sabático, repousaremos. Essa não é uma inscrição para a nossa lápide – Ele ou ela entrou no descanso. É algo presente na vida do povo de Deus, não na morte, mas na vida. O descanso permanece.

Sabemos que essa questão de descanso no coração, do descanso da fé, é uma questão viva e contínua, que sempre é trazida à tona diante de nós. Essa é uma das coisas que tanto carecemos. Colocando em outras palavras, diria que as coisas que mais caracterizam muitos de nós são: aflições, ansiedade, incerteza, tudo que se opõe à calma confiança, silente certeza, aquele espírito, atitude e atmosfera que sempre diz: Não se preocupe! Não se aflija, está tudo bem. Uma coisa que nosso inimigo sempre está tentando fazer é destruir isso, perturbar, roubar, nos agitar, nos afligir, nos importunar, fazendo qualquer coisa para roubar o nosso descanso ou nos impedir de entrar nele.

Este é o descanso da , não o descanso da passividade, indiferença e falta de interesse. Existe uma grande diferença entre estar despreocupado e estar descuidado. Ainda existe, deve ser obtido, e está ainda preservado um descanso para o povo de Deus – para o povo de Deus. Nós não temos o direito de dizer aos não salvos para vir a Jesus e encontrar descanso, enquanto nós mesmos não o conhecermos. Nosso testemunho e ministério são comprometidos, enfraquecidos, limitados e desacreditados se nós não descansarmos, e esse é o objetivo da atividade do inimigo. Ele quer nos desacreditar tirando de nós nosso direito de nascimento, que é essa união com Aquele que nunca é perturbado, não fica ansioso e nem duvida, mas é Aquele Que Reina. Descanso é a atitude prática da nossa fé de que Ele é o Senhor. Entretanto, o Senhorio de Cristo é golpeado pela falta de descanso do povo de Deus.

O descanso da fé deve ser nossa posição, e não apenas na questão da justificação, apesar de que se não estivermos fundamentados nela, não teremos fundamento algum. O inimigo investe contra isso, até mesmo em relação ao povo de Deus, e está sempre tentando desvalorizar isso, tentando levantar de novo a questão da justificação, de sermos justos com Deus na nossa posição e aceitação – mesmo que não plenamente perfeitos em nosso estado atual, apenas em Cristo, com base nesse terreno de união com o que Ele é. O inimigo nunca pára de tentar desvalorizar isso, e seus métodos são incontáveis, muito persistentes, e muito fortes. O descanso da fé nisso, e em tantos milhares de pontos práticos do nosso dia a dia, coisas que não estão em nosso poder para organizar, assegurar, resolver e fazer acontecer. O nosso dia traz centenas de oportunidades para nos posicionarmos no descanso da fé, naquela fé no Senhor que traz descanso. O inimigo é tão astuto que ele vai tentar até nos dizer que essas coisas são muito pequenas para perturbar o Senhor, que é apenas um incidente, por que levar isso até o Senhor? O Senhor tem coisas maiores e mais importantes para fazer! Por que fazer dEle um menino de recados (digo isso com toda reverência) para fazer essas pequenas coisas? Se nessas pequenas coisas o testemunho de descanso for preservado, então tudo será grande para o Senhor, e não serão pequenas coisas. Se neste assunto existe risco da glória de Deus sofrer dano, então é uma grande coisa. Pode ser um incidente da nossa vida diária, sim, em muitas coisas todos os dias, e poderemos perder a nossa estabilidade espiritual, nosso descanso, confiança tranquila, e o Senhor pode perder muito, se for provado que, em algum lugar, a fé se perdeu e o descanso se foi. Esse é um desafio para nós, um desafio real.

A Necessidade de Fé

“Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade”. Não puderam – ficaram paralisados, desqualificados, foram incapacitados pela incredulidade. Isso representa que o quanto antes nós encararmos essa questão e nos posicionarmos em relação a ela, melhor. Por trinta e oito anos, Israel ficou travado, amarrado, andando em círculos, simplesmente por causa desse ponto: eles iriam ou não crer em Deus? Isso resultou em toda a sorte de questões. Como viver em um deserto era um grande desafio, houve questões físicas. O Senhor não mudou as condições físicas. Ele chamou o povo a mudar primeiro, e as condições exteriores foram acertadas quando Ele conseguiu a mudança no interior deles. Quando a questão da fé nEle foi resolvida, o Senhor lidou com as situações físicas. A questão foi levada nos domínios circunstancial, emocional, intelectual e da vontade. O desafio foi levado a todas essas áreas de numerosas formas. Podemos tomar todas essas experiências e ver como cada uma era uma forma peculiar de desafiar a fé, e esse desafio era modificado praticamente todo o dia no aspecto, na forma, ainda assim continuava o mesmo. O Senhor não mudou a situação, nem permitiu que todas aquelas condições fossem alteradas, mas sempre focou nesse ponto. O que importa é o homem interior, e até que esse ponto esteja acertado, o Senhor não tocou em nenhuma outra coisa.

Bem, isso é bastante compreensível. Não pense que existem fatores específicos responsáveis por essa condição. Eles podem cooperar, nos provar e pesar muito sobre nós. Questões exteriores – sim, elas pressionam, tornando a situação extremamente difícil, fazendo diferença. As circunstâncias em que vivemos pesam muito, tornando a situação excessivamente difícil. Nós dizemos: ‘se o Senhor pelo menos resolvesse essa questão, ou mudasse essas circunstâncias!’ Mas essa é a razão delas existirem, a sua causa e razão. Essa é a nossa maneira de arrazoar, mas não é a de Deus. A questão é mais profunda do que isso, e é simplesmente uma questão de crer em Deus; uma fé resoluta, uma confiança no Senhor.

O Senhor está tentando nos tirar dos altos e baixos, oscilações da nossa vida da alma, quando estamos à mercê dos nossos sentimentos, pensamentos e raciocínios, para um terreno onde, em espírito, somos constantes. Esse é o ponto referido no Salmo: “Porque o coração deles não era firme para com ele” (Sl 78:37). Considerando isso, temos a chave para os quarenta anos. A chave é espiritual, mesmo tendo sido testados por diferentes meios e formas, a questão, em última análise, era espiritual. Ser fortalecido no homem interior pelo Seu Espírito (Efésios 3:16) é a resposta a tudo. Se o problema não sair, nós teremos ascendência sobre ele, ainda que não seja removido.

Fé em Deus, o Segredo da Coragem

Voltemos para a palavra em Josué. Daquela primeira geração, apenas dois homens saíram do governo da alma: Josué e Calebe. Eles triunfaram primeiro na esfera da alma, e então o Senhor os tirou das circunstâncias. Mas o quarto capítulo do livro de Josué nos indica que o segredo do seu triunfo foi o descanso da fé. Acho que isso está claro. Calebe vem até Josué. Ele é um homem velho agora, mas ainda vivendo pela fé na posição que assumiu com o Senhor anos atrás. Ele tomou aquela posição quando foi um dos espias em Canaã e a grande maioria trouxe um relatório ruim da terra. Eles olharam para Deus através das circunstâncias, enquanto esses dois homens olharam para as circunstâncias através de Deus, o que fez toda a diferença. Calebe preservou a mesma posição até aqueles dias. Agora, como um homem mais velho, ele veio até Josué, e, enquanto todas as outras pessoas estavam recebendo sua herança em possessões tranquilas, acessíveis e prósperas, “com perspectivas agradáveis”, Calebe disse: “Dê-me essa montanha onde estão os gigantes, e as cidades fortificadas. Dê-me essa montanha!”

Temos muito a dizer a esse respeito, mas vou abordar o assunto como um desafio para o nosso coração. O que estamos buscando? Uma herança fácil, agradável e viável que corresponde às nossas expectativas e nos satisfaz? Estamos buscando uma terra próspera? A fé que demandou: ‘Dê-me uma posição difícil!’, foi a fé que trouxe Josué e Calebe ao descanso de coração, antes mesmo que eles chegassem ao descanso na terra.

Aquela era uma situação cheia de dificuldades, oposições, adversidades, e por isso, traduzia uma perspectiva terrível. Ainda assim, Calebe desejou uma chance ali! Veja o desafio. As dificuldades te intimidam ou representam uma grande oportunidade para o Senhor? Ele lembrava o “que o Senhor falou naquele dia...”, por isso disse: “o Senhor, porventura, será comigo... como prometeu”. Como estamos enfrentando as grandes dificuldades? E como existem dificuldades! Quantos problemas! E essas montanhas parecem se empilhar uma sobre a outra à medida que prosseguimos. Algumas vezes, as situações têm uma perspectiva impossível, são desesperadoras. Talvez envolva as nossas próprias vidas, interior ou exteriormente, ou envolva o serviço para o qual fomos chamados, o ministério, nosso testemunho, tudo parece tão sem esperança, a montanha é impossível. O que fazer? Sim - dê-me essa montanha! Só a verdadeira fé em Deus pode encarar esse tipo de situação, dizendo: ‘Tudo bem, isso é difícil, não tenho dúvida quanto a isso, é um prospecto amedrontador, desesperado, mas vamos levar essa situação adiante no Nome do Senhor, pode ser que o Senhor... O Senhor...’ – ver a montanha através do Senhor, e não o Senhor através da montanha.

Acredito que é desse tipo de fé que precisamos. É isso que nos conduz ao descanso. A montanha – sim, é uma montanha de verdade, física, circunstancial, um panorama em nosso serviço. Naturalmente seria prudente e de bom senso, dizer: ‘Não, não vamos tocar nisso!’ Mas a fé diz: ‘Não voltarei as costas e rodearei esta montanha, não fugirei, dê-me essa montanha!’ Quero aquela fé, você a quer também? Essa não é apenas uma coragem da nossa natureza. Nossa capacidade de combate e ferocidade não nos levarão a isso. Sabemos muito bem que não temos nada em nós mesmos, e que deveríamos desistir. Mas o Senhor está nos desafiando, e Calebe vem e nos repreende. No final de uma longa vida, quando podemos pensar que agora seria o tempo para Calebe estar em um jardim tranquilo, onde o serviço fosse fácil, a fim de descansar – não, Calebe diz: ‘Dê-me o monte onde tem gigantes, cidades fortificadas, dê-me essa montanha!’ Sua escolha foi pela dificuldade, porque era uma oportunidade para o Senhor.

Provavelmente nós seremos rapidamente conduzidos, de maneira prática, a situações como essa da qual nos referimos, mas vamos nos deixar ser trabalhados pelo Senhor nisso. Precisaremos encarar as dificuldades que serão terríveis sob a ótica natural, interior e exteriormente, levando o nosso coração a derreter dentro de nós. Mas isso para entrarmos num descanso de confiança e certeza no nosso Deus, dizendo: Dê-me essa montanha como uma oportunidade de provar o Senhor!

Foi isso que Calebe obteve – Hebrom. Essa é outra história, pois a história de Hebrom é longa. Que você possa buscar mais sobre isso, porque Hebrom tem um maravilhoso lugar no propósito de Deus. Davi foi coroado primeiramente em Hebrom, antes de ser coroado em Jerusalém. Hebrom significa ‘comunhão’. Existe uma grande herança atrelada a Hebrom, que é assegurada àquele que tem o tipo de fé que diz: ‘Não desejo escapar da minha dificuldade e sair do caminho difícil. Deixe-me enfrentar isso na força do Senhor, dando a Ele a oportunidade de mostrar que pode fazer aquilo que é naturalmente impossível’. Que o Senhor nos dê essa fé!

Publicado pela primeira vez na revista "A Testemunha e um testemunho", em nov-dez de 1946, vol. 24-6, e novamente em maio-junho 1971, vol. 49-3.

Origem "The Rest and The Courage of Faith"