O Escândalo da Cruz
por T. Austin-Sparks

“Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo, está desfeito o escândalo da cruz” (Gal. 5:11).

Fica perfeitamente obvio o fato de que onde quer que a Cruz do Senhor Jesus Cristo tenha sido mais fielmente pregada e apresentada (embora trazendo esperança e vida nova a muitos) tem sido quase invariavelmente a causa de problemas.

Onde quer que tenha ido tem despertado antagonismo. Como foi uma pedra de tropeço para os judeus e um ridículo para os gregos nos primeiros dias, assim, desde então, tem sido inaceitável, não somente para o homem do mundo como tal, mas para as comunidades religiosas também.

Isto nós, afirmamos resolutamente ser tão verdadeiro hoje como nunca, a despeito do fato de que é o simbolo mais popular no mundo. Dificilmente existe uma cidade na cristandade onde a arquitetura, galerias de arte, coleção de literatura, conservatórios de música e instituições religiosas, não declarem ao mundo uma certa consideração e honra por este sinal sagrado.

Até é achado necessário em certas fases de algumas empresas missionárias hoje, eliminar dos livros didáticos a menção da Cruz para que não ofendam.

Grande parte da pregação e ensino na igreja cristã ou é confinada ao “Jesus Histórico” que apresenta um Cristo sem Cruz, ou dá um significado extremamente modificado à Sua morte.

E todavia é certamente necessário se livrar da Bíblia antes de que possamos nos livrar do fato de que se une em todas suas partes para declarar que a Cruz é o caminho da salvação de Deus, o suficiente e único caminho de Deus.

Fica, ainda mais, certamente muito claro que a Cruz tem provado ser o meio pelo qual Deus fez depender todo o peso do Seu grande poder salvador. Foi dominante nos dias do Novo Testamento. A recuperação ou re-ênfase sobre algumas fases vitais e essenciais dessa Cruz deu lugar a semelhantes movimentos como são representados pelos nomes de Lutero, Moody, Finney, Jonathan Edwards, Withfield, os Wesleys, Spurgeon, e muitos outros homens especialmente honrados de Deus.

Agora perguntamos, por que a Cruz tem sido sempre semelhante criadora de problemas e semelhante causa de escândalo? E por que é que hoje está por trás de tanta reviravolta mesmo nas muitas das nossas instituições evangélicas professas, e denominações, lares cristãos, igrejas locais e vidas cristãs individuais?

Isto procuraremos responder, mas primeiro vamos discriminar. Não são os heroicos da Cruz ou estéticos que causam o problema.

Sacrifício, sofrimento, devoção altruísta, serviço modesto para o bem dos outros, suportando a pena de colocar a si mesmo contra o mal atual dos tempos, etc; estos são elementos românticos e são explorados como os temas pelos que multidões são capturados e cativados.

É o significado mais profundo que a Bíblia dá à Cruz que causa a agravação, isto pode ser visto em uma ou duas aplicações claramente definidas.

1. A Cruz condena o mundo.

Em Sua Cruz, Cristo criou uma grande divisão entre o mundo velho e o novo, uma divisão que não pode ser ultrapassada.

Dois distintos sistemas diferentes, escalas de valores, padrões de julgamento, conjuntos de leis, prevalecem nos dois lados da Cruz, o sistema de cada um não é somente inteiramente diferente mas irreconciliável e para sempre antagonístico o um ao outro.

A Cruz demanda uma absoluta distinção de interesses, e objetivos, relacionamentos e recursos.

Tira a distinção final dentre o salvo e o não salvo, dentre o vivente e o morto.

A Palavra de Deus enfaticamente declara que os tempos são maus, e que “o mundo inteiro jaz no maligno”, e que suas formas, motivos, propósitos, ideias, imaginações, são todas opostas às de Deus e que é também totalmente incapacitado de receber a revelação da mente divina, crescer por si mesmo até a imagem divina, desfrutar e apreciar comunhão real com Deus, ou ser confiado com o privilegio da cooperação com Deus.

Estas são somente a consciência, capacidades, relacionamentos, do recentemente nascido ou alma regenerada. É este veredito, condenação, e demanda da Cruz que é inaceitável e irritante para uma maioria muito grande de até mesmo cristãos professos. Além do mais, é a presencia em grande parte do que é chamado “mundanismo” tanto na vida cristã individual e na igreja que absolutamente neutralizam suas eficácias na realização dos propósitos essenciais da Cruz.

2. A Cruz condena a carne.

A Palavra de Deus declara que “nosso velho homem tem sido crucificado com Cristo”. “Um morreu por todos, logo todos morreram Nele, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos mas para Ele”. Temos tentado trazer um pouco da vida da velha criação para a nova criação e Deus não a terá. A história da raça caída foi concluída tanto quanto se referiu a Deus no Calvário. A partir desse momento em diante, o inteiro interesse de Deus foi a nova criação, mas tanto nossas capacidades humanas como nossas enfermidades, o que chamamos nosso melhor lado humano, como nosso pior, nossa bondade e nossa maldade, têm sido inclusas nessa morte. Doravante somos chamados a viver não num nível humano mas num divino. Humanamente não possuímos nada que seja aceitável para Deus. É sempre a asserção de algum elemento humano, algum gosto ou desgosto, modismo ou capricho, alguma ambição, algum interesse pessoal, que paralisa a real obra espiritual de Deus. Considerar não somente nossos pecados mas nós mesmos como tendo sido levados à Cruz por Cristo é a única maneira pela qual os propósitos de Deus podem ser operados através de nossas vidas. É estranho que embora nós mesmos sejamos a ruína de nossa própria existência, o problema de nossas próprias vidas, sejamos tão lentos para aceitar nossa crucificação com Cristo, ter a Cruz forjada para nossa morte a fim de que a vida de Cristo seja manifesta em nós. Aqui contido jaz o escândalo da Cruz, não somente para o mundano mas também para o cristão.

3. A Cruz expulsa o diabo.

Talvez, aqui tocamos a mais profunda causa do escândalo, pois o mundo e a carne são apenas instrumentos e armas pelas que a grande jerarquia de Satanás mantém seu domínio e sua existência como a força controladora. Cristo disse, enquanto Ele se aproximava à Cruz, “agora é o príncipe deste mundo expulso”, Paulo refletindo sobre essa Cruz disse que por ela “Cristo despojou principados e potestades, publicamente os expondo ao desprezo, triunfando deles na cruz”. É perfeitamente natural, então, que a grande jerarquia, por todos os meios e recursos, procure fazer a Cruz sem efeito nenhum. Pelo “tom pálido” irá diluir a mensagem da Cruz; empurrando os métodos do mundo dentro, seus meios, seu espírito. Irá tocar a vitalidade espiritual da Igreja; ao instigar a carne, o ego e o velho Adão, irá causar separação, tensão e desintegração; ou ao dar muita importância ao elemento humano em seu lado artístico, estético, heroico, humanitário, ficará cego para a necessidade da regeneração. Reputação, popularidade, grandeza, o padrão de sucesso do mundo, são todos contrários ao espírito de Cristo, mas eles são os brinquedos com os que o inimigo absorve a mente de muitos, mesmo de ministros cristãos. Se, portanto, a Cruz é pregada em sua vitória total e emancipação do mundo, a carne e o diabo, é de se esperar que de um jeito ou de outro as forças inteligentes do mal utilizem todos os meios para pará-la, e provocar toda causa de escândalo para o colocar na conta da Cruz.

Para concluir não esqueçamos que o gozo da vida plena de Deus, a experiência da vitória, e cooperação excecutiva com Ele que se assenta no Trono na certa realização de que Seus propósitos eternos são nossos apenas na medida em que somos um com o completo e essencial significado da Cruz como apresentada na palavra de Deus. “tenho sido crucificado com Cristo, doravante... não mais eu mas Cristo”. “Eles venceram por causa do sangue do Cordeiro, e por causa da palavra dos seus testemunhos, e mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”.

Primeiramente publicado na revista “Uma Testemunha e Um Testemunho” Jan-Fev 1932 Vol. 10-1

Origem:"The Offence of the Cross"