Guerra Espiritual (1951)
por T. Austin-Sparks

“O que não tem espada, venda a sua capa e compre-a” Lucas 22:36.

Mais tarde Jesus disse a esses mesmos discípulos, “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” Mateus 26:52. deve haver uma boa explicação pelo comando anterior de que Seus discípulos tivessem certeza de estarem armados, e dentre outras possíveis razões para esta aparente contradição proponho me concentrar neste ponto de que a batalha espiritual Cristã não é física porém espiritual. Isto fica muito claro a partir de todo o ensino subsequente do Novo Testamento, notavelmente da declaração de Paulo que “as armas de nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus (2 Corintios 10:4). Além disso nós em nenhuma parte encontramos os apóstolos – para quem estas palavras foram direcionadas – carregando espadas enquanto eles iam trás seus ministérios, portanto presumimos que quando o Senhor disse: “Embainha a tua espada”, Ele quis dizer que devemos repudiar a ideia de lutar contra homens e dirigirmos para uma participação ativa na batalha espiritual.

A Realidade da Batalha Espiritual

Embora sabemos que o ensino Bíblico nos lembra que somos soldados de Cristo, esquecemos que estamos numa batalha. Atribuímos nossos problemas a outras causas. Existem momentos em que entramos em conflitos por causa de nossas próprias falhas ou relacionamentos tensos – então não adianta culpar o Diabo pelo que realmente é nossa responsabilidade. Por outro lado não devemos ficar obcecados com causas secundárias, pessoas e circunstâncias, quando a questão real é esse extra elemento do mal espiritual que é o real inimigo. Existe uma batalha no céu, e disto, circunstâncias podem ser criadas, e pessoas afetadas.

Quando na linguagem do Novo Testamento falamos do céu, não pensemos daquilo que é remoto e distante, em algum lugar ou além das nuvens. Não, batalha celestial é na atmosfera ao redor de nós. O Diabo é chamado “o príncipe das potestades do ar” ( Efésios 2:2). Ora, o ar não está tudo acima das nuvens, mas está onde nós estamos enquanto o respiramos agora. Os celestiais nos estão envolvendo todo o tempo e o conflito espiritual está na mesma atmosfera. Existe uma ilustração disto na história do Velho Testamento, quando Eliseu orou: “Senhor, abre seus olhos para que veja” (2 Reis 6:17), e o moço teve seus olhos abertos para ver quão perto e também quão real eram os exércitos invisíveis de Deus. Porque temos um espírito, o qual é o médium de conexão com o que é espiritual, esta atmosfera malvada não está sempre fora de nós mas às vezes parece fazer guerra no interior. De uma forma ou outra, o conflito espiritual é muito real e para isso precisamos a espada do Espírito.

O Campo de Batalha da Igreja

A ocasião deste conflito é o destino da Igreja. Todos os departamentos e esferas realmente de obra espiritual parecem provocar a oposição de forças espirituais, mas quanto mais perto ficamos da grande, eterna concepção do destino de Deus para a Igreja de Cristo, a Igreja que é Seu Corpo, mais acentuado o antagonismo do inimigo se torna.

Enfrentamos antagonismo espiritual na procura de ganhar almas para Cristo, porque é somente desta maneira que a Igreja nasce. Quando, entretanto, o pleno pensamento de Deus é trazido à vista, então o maior desafio das forças do mal é registrado. Isto é porque é na Igreja e em relação ao destino da Igreja que todo o reino de Satanás é para ser enfrentado e derrubado. Daí, é claro, o tremendo significado da vida corporativa. Mesmo por pequenos e aparentemente meios insignificantes, mau humor ou desacordos banais, Satanás quebra o fluir da comunhão entre os santos. Parece estranho que o poder vital do povo de Deus seja enfraquecido pelos maus humores e temperamentos do povo de Deus, mas assim pode acontecer. Se o Diabo não pode ter sucesso por semelhantes métodos simples ele tem muitos outros estratagemas e estrategias complexas, todas visando a destruição da relação do povo de Deus. De modo que a comunhão espiritual se torna um verdadeiro campo de batalha.

Alguns pensam que a comunhão é um tipo de piquenique, um festival religioso. Louvamos a Deus por todas as alegrias da comunhão, mas o assunto é mais sério do que isso, e é tão importante que pode se tornar um assunto de verdadeira batalha. O exercício e preservação do coração verdadeiro com todos os outros Cristãos – não apenas com os que gostamos mas com todos – é um campo de conflito constante. Comunhão não é só alguma coisa que acontece. Devemos lutar por ela. É um grande fator na batalha espiritual.

Conflito em Oração Corporativa

Uma das principais funções de tal comunhão é a grande atividade de oração unida. Precisamos ser lembrados de tempo em tempo que nossos períodos de virmos juntos para a oração são mais do que ocasiões para trazer ao Senhor uma lista de itens. Temos, é claro, que ser definitivos com o Senhor e temos que pedir a Ele coisas. O verdadeiro alvo de nossa oração, contudo, não deve ser meramente bençãos pessoais mas o triunfo da vontade de Deus. Daniel nos dá um excelente exemplo de tal oração. Ele foi alongado por três semanas inteiras, jejuando e orando, enquanto se entregava à oração para o cumprimento dos grandes propósitos de Deus. Sua oração foi baseada no que ele “entendeu pelos livros” (Daniel 9:2). ele sabia o que os outros servos de Deus tinham escrito sobre os propósitos divinos e tinha esses propósitos no seu coração. Porque esses propósitos estavam em aparente suspensão, porque havia uma contradição neles, visto que os inimigos do Senhor tinham estado dando uma vantagem pela infidelidade do povo de Deus – esta foi a razão pela que Daniel foi tão prolongado na sua oração. Somos informados de que o resultado foi de grande batalha no céu. Durante os vinte e um dias deste período particular de oração, um conflito terrível estava tendo lugar sem ele estar consciente disso. Os próprios principados e poderes tinham ficado tão agitados e despertados por este tipo de oração que eles tinham resistido os mensageiros de Deus. Uma luta tinha estado acontecendo, e um grande anjo precisou vir à ajuda de outro, como se um ser angelical não fosse suficiente e precisasse ajuda para atravessar. O valor da oração não é decidida pela petição de coisas mas pela natureza das coisas pedidas.

O que Deus precisa é um povo que têm visto Suas intenções e propósito, visto o destino do Seu Filho e da Igreja que é o Seu Corpo, e se dedicarem ao cumprimento da Sua vontade. Tal oração nos atrai para um conflito espiritual, para o qual o Senhor nos informou de termos a certeza e termos uma espada. É demasiado fácil ficar desencorajado, tão fácil ficar desanimado ou silenciado. Com nossa espada na nossa mão devemos encará-lo e pressionar na batalha até a vitória.

O Terreno do Triunfo

Para esta batalha na oração somos aconselhados a “tomar toda a armadura de Deus” (Efésios 6:11). não é que entramos num período de oração por algum processo mental pensando na armadura. Não serve de nada quando você sente que a batalha está em operação que você tente concentrar seus pensamentos nos vários itens da armadura. Fazer isso seria achar a si mesmo demasiado tarde. Você somente pode começar a resistir se você já se cingiu antecipadamente. Isto não é um equipamento de emergência para ocasiões especiais, mas um modo de vida para o cristão guerreiro.

1. A importância da verdade. Começamos com o assunto de estarmos cingidos com a verdade. Isto significa que as coisas devem ser reais nas nossas vidas. Se existir algo falso acerca de nossa posição, algo artificial ou irreal sobre nossa profissão, então seremos inefetivos na batalha espiritual. Devemos estar livres de erros na doutrina, isso é muito importante. Mais do que isso, devemos estar vivendo no benefício do que cremos, não apenas mantendo alguma ideia mental sem conhecimento da verdade real de coração. O guerreiro espiritual precisa estar cingido com a verdade se é para ele triunfar.

2. Justiça prática. “vestida a couraça da justiça”. O que importa é o que satisfaz Deus, pois isso é a Sua justiça. Toda a questão da justiça é a dos direitos de Deus, pelo que Ele tem direito; e pelo que Deus tem direito deve concordar com Sua própria natureza. Deus sempre está certo, Ele é justo e verdadeiro. Ele portanto deve ter aquilo que satisfaz Ele, e Ele tem encontrado isto no Seu Filho, cuja justiça é imputada a nós. As ciladas do Diabo são sempre dirigidas contra isso, tentando nos tirar do terreno onde estamos na absoluta satisfação de Deus pela fé. O inimigo fica dizendo “Deus está insatisfeito com você, Ele tem isto e aquilo contra você” de modo que para combater suas acusações devemos nos agarrar ao fato de que a justiça completa nos é suprida através da fé em Jesus Cristo. É Sua justiça que somente pode proteger essa parte mais vital. Sem dúvida que isto faz referencia à necessidade para essa justiça surtir efeito nas nossas vidas numa maneira prática, pois qualquer coisa injusta nos nossos tratos ou comportamentos significará que não podemos fazer frente a Satanás.

3. As Boas Novas da paz. “Calçados os pés na pregação do evangelho da paz”. Não precisamos ficar demasiado envolvidos com a referência a nossos pés, mas antes sublinhar o ponto de que a mensagem de Deus são as boas novas da paz. Qualquer um com essa mensagem é uma ameaça para o reino das trevas, pois o inimigo está sempre se esforçando para nos oprimir com más notícias. Devemos ir ao mundo com as boas novas de que Deus oferece paz perfeita para o coração e mente perturbada. Satanás nunca se importa em irmos para as pessoas com más notícias, ou com uma face que sugere pessimismo, mas ele odeia ter Cristãos espalhando as notícias felizes da paz. Paulo e Silas foram para Filipo com boas novas, o evangelho da paz, e o inimigo fez seu melhor para tirar aquilo de suas faces e de suas vozes (Atos 16:11-34). Ele não teve sucesso. Eles triunfaram sobre ele porque o mesmo espírito das boas novas estava nos seus corações. É uma força tremenda contra o Diabo estarmos firmes no benefício das notícias felizes da paz. Cristo “fez a paz pelo sangue da Sua cruz” (Colossenses 1:20). Não existe agora necessidade para alienação ou depressão. Deus é por você. Ele mostrou isso em Cristo. levante e ande no poder da Sua paz.

4. O escudo da fé. Devemos tomar e fazer bom uso deste grande – ou global – escudo da fé. A fé é toda abrangente e se relaciona com cada possível aspecto do conflito. Não pode haver triunfo na vida espiritual sem o pleno exercício da fé vital.

5. A certeza da salvação. Clara certeza sobre a salvação precisa se cobrir a cabeça como um capacete. Quantos argumentos, debates, medos e incertezas estão prontas para invadir nossas mentes e paralisar nosso valor ao Senhor. A salvação do Senhor é poderosa, e devemos usá-la para proteger nossas mentes de sucumbir a ataques satânicos. Sua forte salvação é a única cobertura que pode fazer isto.

6. A Palavra de Deus. Finalmente lá está “a espada do Espírito que é a Palavra de Deus”. Sabemos como o Senhor Jesus enfrentou o inimigo no deserto com cotações adequadas da Palavra de Deus. Ele se encharcou tanto no Velho Testamento que a ênfase correto vinha até Ele no momento certo. Nós, também, somos informados para deixar que a palavra de Cristo habite ricamente em nós (Colossenses 3:16). Não permita que nenhum de nós pense que vamos triunfar na batalha espiritual se negligenciamos nossas Bíblias, não mais do que podemos fazer se negligenciamos a oração. Tente fazer sem oração e a Palavra e você se dará mal na luta. Você será um soldado sem uma espada!

Originalmente publicado na Revista “Uma Testemunha e um Testemunho” Jan-Fev 1951, Vol. 29-1.
Republicado na Revista “Para o Alvo” Nov-Dec 1980, Vol. 9-6.

Origem: "Spiritual Warfare 1951"