Sofrimento e Glória
por T. Austin-Sparks

Leitura: Hebreus 11:32-40, 2 Corintios 11:23-33; Colossenses 1:24; 2 Timóteo 2-3

É uma combinação extraordinária a que achamos nesses primeiros povos de Deus - a combinação do sofrimento e alegria. Não é fácil para nós colocarmos na atmosfera e condições em Jerusalém naqueles dias, mas não há duvida de que foi um tempo perigoso. A crucificação do Senhor Jesus não tinha de nenhuma maneira saciado o desejo dos Seus inimigos. Sabemos muito bem pela história de Saulo, um pouco mais tarde, que todos que eram do “Caminho” eram um objeto desse desejo de sangue, e havia uma forte hostilidade violenta nos corações desses inimigos de Cristo. Sabemos que Seus seguidores tinham que às vezes se encontrar trás as portas fechadas e trancadas. E mesmo assim descobrimos que a palavra “louvor” abundava no meio deles. “com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus” (Atos 2:46-47) é a frase. Sim, mesmo quando tinham sido arrastados diante de magistrados, ameaçados e feitos entenderem muito claramente quais seriam as consequências para eles se persistissem nos seus cursos, eles se regozijavam, diz, “de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus” (Atos 5:41); uma grande mistura de alegria com sofrimento.

A noite na qual o Senhor foi traído foi uma noite de solenidade e peso, e houveram profundas sombras naquele cenáculo; contudo havia Um que podia tomar o cálice, sabendo tudo o que o cálice significava, e dar graças, e, como última coisa antes deles saírem, sugerir que eles cantassem um hino. assim você vai pelo Novo Testamento e chega até maravilhosas passagens como essas que temos acabado de ler. Aqui está Paulo narrando seus sofrimentos, a maiorias dos quais não conhecemos nada no que a um registro detalhado diz respeito – uma longa lista de sofrimentos intensos; porém deixando claro que ele se gloriava, regozijava, nos seus sofrimentos. E esse undécimo capítulo de Hebreus, também, não conclui com uma lamentação, mas em triunfo; e você não pode falhar em sentir à medida que você lê versículo após versículo que aqui há força, aqui há triunfo, aqui há ascendência, não há nada pesaroso aqui.

O que nos diz tudo isto? É tudo reunido na Mesa do Senhor. Aos Seus discípulos Ele disse, “Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? (Mat. 20:22-23); e isso para eles foi o cálice da paixão, o cálice do sofrimento. Era o cumprimento do resto das aflições de Cristo, dado à Igreja (Col. 1:24); e foi sofrimento. Eles estavam bebendo o cálice mesmo até a morte.

Mas tome qualquer um desses homens que você quiser. Se houve um homem em todo o circulo que nunca devia ter cantado ou se regozijado novamente, nunca ter ido pelo mundo com sua cabeça erguida novamente, que devia ter tido a voz e olhar mais melancólico, sempre tentando deixar que as pessoas soubessem que bagunça miserável das coisas ele tinha feito, foi Pedro. Mas ouça Pedro - “Bendito seja o Deus Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Pedro 1:3). “A palavra “bendito” lá está a palavra que significa “louvado”). “Louvado seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que segundo a Sua grande misericórdia (Pedro sabia do que ele estava falando) nos gerou de novo (para o desespero mais terrível?) Não! Para uma vívida esperança” (não “uma viva esperança”; a palavra é muito mais enfática do que essa. Você pode estar vivendo sem estar vívido. Existem muitas pessoas que estão vivendo, porém não estão nem um pouco vívidas) - “para uma esperança vívida pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Existe algo de tremenda esperança, e optimismo nisso. E isso foi o mesmo com os outros Apóstolos.

Aceitando A Comunhão Dos Seus Sofrimentos

Agora, qual é o ponto de novo: Bem, primeiramente, devemos encarar o fato e devemos sempre procurar ajuda de Deus para ter em mente que vamos ter um trajeto de sofrimento se estamos em comunhão com o Senhor Jesus. Isso é um lado. Talvez é por causa de que não temos calculado do inicio com isso que temos esses prolongados períodos sem alegria e derrota. Tem que chegar um ponto em que nos assentamos e fazemos alguns cálculos e chegarmos a uma conclusão definitiva neste assunto – que, embora muitas vezes não sejamos capazes de ver que nosso sofrimento é por causa de nosso relacionamento com Ele (os sofrimentos são bem múltiplos e diversos, e muitas vezes parecem como se não tivessem nenhum relacionamento algum com nossa vida cristã) ao mesmo tempo, se podemos discerni-lo ou não; o fato permanece de que a trajetória do filho de Deus, do companheiro de Jesus Cristo, é o caminho do sofrimento. Digo, adiamento ou atraso em estabelecer esse assunto nos mantém todo o tempo nesse estado de ter a expectativa e esperar para que seja diferente, e, por causa de que a diferença não chega, ficamos abatidos e sentimos que tudo está errado, e que o Senhor está contra nós e todo esse tipo de coisa, dando assim todo o terreno que o inimigo quer para destruir nosso testemunho. A primeiríssima coisa para lembrar quando tomamos este cálice é que enquanto estamos tomando-o como o cálice da salvação, enquanto que estamos lembrando da expiação que está no Sangue, e toda a maravilhosa redenção que é nossa por causa desse Sangue, o cálice também fala para nós da comunhão com Seu sofrimento. É o Seu cálice, é cumprir o que resta – o remanescente – das aflições de Cristo por causa do Seu Corpo que é a Igreja. Não somos capazes de ver os valores disso em nós mesmos – ficamos demasiadamente ocupados com o custo, o sofrimento e a provação – mas oh, alguns olhando são capazes de ver um crescimento espiritual maravilhoso, um maravilhoso requinte de espírito, o embelezamento da vida. Sim, há algo que está subindo para Seu louvor e glória enquanto Cristo está sendo formado pelos fogos de adversidade e sofrimento. É comunhão com Ele nos Seus sofrimentos, afinal, estará produzindo mais semelhança a Cristo. Portanto nossa primeira coisa é contar com isto e tê-lo resolvido.

O que você está esperando, pelo que você está à espera, pelo que você está preocupado, pelo que você está suplicando e orando? Se você está orando por libertação total e final de adversidade e sofrimento e dificuldade e todo esse tipo de coisa, me deixe lhe dizer que sua oração nunca será respondida. Formas de sofrimento podem mudar, mas de uma forma ou outra estamos avançando até o fim numa maneira de adversidade. Satanás não vai se tornar nosso amigo enquanto sejamos amigos de Jesus Cristo. O reino de Satanás não vai se mobilizar para nossa ajuda enquanto pertençamos ao reino que é oposto ao dele. Vamos resolver isso. Irá nos livrar, possivelmente, deste emaranhamento.

Libertação Sem Libertação

E a seguinte coisa é que há libertação enquanto não haja libertação. Existe uma passagem da Escritura que provavelmente tem muitas vezes confundido você. Parece ser algo que recua sobre si mesmo e diz que não é verdade. “Deus é fiel, não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (1 Cor. 10:13). o que você acha disso - “escape para que a possais suportar?” Isso não é ficar longe dela, isso é ficar no topo dela. Paulo implorou pelo aguilhão na sua carne, para que fosse removido; três vezes ele buscou ao Senhor a respeito disso, mas o Senhor disse, “Minha graça te basta: Pois meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. E a reação de Paulo foi - “de boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo... pois quando sou fraco, então sou forte” (2 Cor. 12:8-10). Paulo não foi liberto desse “mensageiro de Satanás”. Essa é a maneira descarada de descrever sua provação. Pode ser tomado para cobrir sua provação particular – essa pessoa difícil com quem você tem que viver, ou seja mais o que for. Acheguemo-nos diretamente ao ponto, e dizer, “é algo que o diabo quer usar para minha desgraça, para a ruína do meu testemunho, e o Senhor tinha definitivamente e deliberadamente permitido isso”. Paulo não foi liberto desse aguilhão na carne, esse mensageiro de Satanás que constantemente esbofeteava ele; e contudo ele era liberto! “De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas”; como esse antigo guerreio no Velho Testamento, que disse, “Me dê essa montanha” (Josué 14:12); “não remova esta montanha, não a tire fora do caminho, me dê a chance de dominá-la, levá-la a baixo, ganhar ascendência!”

Agora, isto não é fácil, fútil conversa. É o resultado de uma boa quantia de exercício pessoal. Deus sabe como temos clamado e procurado por libertações que não têm chegado. Me perdoe por esta palavra pessoal para respaldar o que tenho estado dizendo. Durante uma ou duas semanas atrás tenho estado orando bastante sobre esse aguilhão na carne, esse mensageiro de Satanás, e não vi o Senhor respondendo absolutamente de maneira alguma. E durante o mesmo tempo tenho ficado lendo alguns livros. Tenho ficado lendo de novo a vida de Wesley, e de Whitfield, e a história dos Covenanters Escoceses; e então achei a mim mesmo lendo 2 Coríntios 11; e de repente ajuntei todo o quebra-cabeças. Oh, estes sofrimentos terríveis de John Wesley! Sobe e desce o país, frequentemente prostrado deitado com fraqueza física e sofrimento; em cada povoado perseguido, ridicularizado, apedrejado, ou arrastado pelos cabelos; que tempo esse homem teve! E seu irmão Charles participava. Os Covenanters Escoceses – por que, um é feito corar de vergonha ao ler os sofrimentos horríveis, os martírios, as torturas dessas pessoas; perseguidos, sem comida, sem casas, tendo que viver na encosta aberta, em cavernas, em qualquer lugar. E aqui está Paulo nos dando sua lista. Oh, será que devemos estar todo o tempo estipulando que nosso destino deve ser muito mais fácil? E no entanto eles triunfaram. Que triunfo foi o dos Wesley! Nós cantamos, “Oh, mil vozes eu quisera ter para cantar o louvor do meu grande Redentor”. Você sabe que Wesley não quis dizer o que usualmente achamos que ele quis dizer quando ele escreveu essas palavras? Nós achamos que ele quis dizer, “Oh, mil vozes eu quisera ter!” Ele e se seu irmão tinham ficado num povoado para algumas reuniões. Apenas umas poucas pessoas vieram e eles derramaram seus corações ao Senhor. Então eles saíram e viram uma grande aglomeração na rua, vindo de um evento esportivo, e John Wesley disse ao seu irmão, “Oh, quisera mil línguas que cantem os louvores do meu grande Redentor”. É com efeito a mesma coisa. “Oh, quisera que mil vozes que há lá fora cantassem o louvor do meu grande Redentor!” Esses eram seus sentimentos. Isso é triunfo!

A Mesa do Senhor é uma mistura de alegria com sofrimento, porém não creio que o Senhor irá fazer alguma mudança nas nossas circunstâncias até que tenhamos ficado no topo delas. Seja a mudança de situação e condições que forem na Sua vontade, libertação real esperará até que sejamos libertos desta forma interna de nosso espírito estipular que não podemos continuar a menos que o Senhor forneça melhores condições para nós. Tal espírito é uma negação da graça, isso é uma negação de Sua suficiência. “Minha graça te basta... De boa vontade, pois...” Não, a saída está acima; o caminho da vitória está sobre, não de. Portanto, antes mesmo de alguma coisa mudar, temos de algum modo que achar a graça que resultará em nós sermos cheios de alegria. Às vezes, com Pedro, “estejais contristados com várias provações”; às vezes, com Paulo, somos “abatidos”; mas se darmos uma chance à graça de Deus lá estará a antiga alegria de volta! Dê-lhe uma chance! Está lá, não está extinguida, não está morta. O ponto é, que é o normal? É o normal – a miséria, depressão, melancolia? Ou será que isso nos marca somente por enquanto, às vezes? É o normal – a alegria, esperança, optimismo? Algumas pessoas, temo, têm a ideia de que vão denunciar alguma coisa se eles sorrirem. Isso é inaceitável. Deve haver em nós, depois de tudo, algo borbulhando que não é só nós mesmos. É o Senhor.

Portanto, chegamos à Mesa do Senhor. Ao tomarmos o cálice, por um lado, teremos esse reconhecimento - “Sei o que isto significa: a comunhão dos Seus sofrimentos: tomar a minha parte de dureza com os apóstolos e os profetas; pela graça de Deus, tomo o cálice”. Mas tem também o outro lado – regozijando-me de ter sido julgado ser digno de padecer pelo Seu nome, e percebendo isso através do Seu Sangue temos novamente a geração para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.

Tenhamos a graça para buscar ao Senhor com esta resolução, que pela Sua graça não vamos nos render mas triunfar, mesmo na hora da provação e sofrimento, e encontrar nossa libertação dessa forma. “Deus... dará... o escape, para que a possais suportar”.

Primeiramente publicado na revista “Uma Testemunha e Um Testemunho” Nov-Dez 1949, Vol 27-6

Origem: "Suffering and Glory"