As Coisas serão Abaladas
por T. Austin-Sparks

Nesta última edição do jornal deste ano (e ela não vai chegar a muitos de vocês até muito perto do final do ano), eu sinto um forte desejo e vontade de olhar para trás com você. No que cabe a mim, tem sido um ano muito cheio. Naquilo que diz respeito a movimento, este foi o ano mais cheio da minha vida. Viajei 26.000 milhas pelo ar, e um pouco mais de outras maneiras. Isto envolveu muitas conferências, reuniões, etc., de modo que muito foi compartilhado. Além disso, devemos acrescentar todos os ministérios e trabalhos de meus colegas e companheiros. Isto não é mencionado apenas a título de notícia ou informação, embora evidencie que "uma grande e eficaz porta" foi aberta a nós. Mas digo isto para indicar que não estamos gastando nosso tempo em algum canto, imaginando coisas e ministrando sobre situações hipotéticas. Estamos em contato direto e imediato, e abrangente com a situação espiritual atual. Nós não temos nenhuma hesitação, apesar de muita tristeza, em dizer que a situação é espiritualmente muito, muito triste e deplorável. É nossa convicção bem ponderada e profundamente enraizada de que um grande e drástico julgamento do céu contra a cristandade é absolutamente imperativo. Estamos igualmente convencidos de que ele já começou e está se movendo obstinadamente, de forma inflexível por todo o mundo. Assim como os Assírios foram o instrumento sob a soberania de Deus usado para peneirar Israel na última dispensação, é bem provável que o poder que se move sobre a terra hoje - uma combinação de forças satânicas com instrumentos humanos - vai testar toda a cristandade quanto à sua real medida espiritual. Isso pode muito bem ser a contrapartida do que aconteceu é o ano 70 D.C., quando o judaísmo foi abalado em seus alicerces e caiu. As Escrituras predizem definitivamente sobre a tribulação que vem sobre "o mundo inteiro para tentar os que estão sobre a terra". Isso é algo muito maior do que o judaísmo.

As palavras citadas pelo profeta ainda parecem ter um cumprimento mais completo do que o “abalo” mencionado acima. "Agora, porém, ele promete, dizendo: Ainda uma vez por todas, farei abalar não só a terra, mas também o céu." (Hebreus 12: 26,27).

Não há dúvida de que a Carta aos Hebreus foi um supremo esforço para desligar os crentes cristãos de um apego a uma forma terrena de cristianismo e conecta-los a Cristo no céu. Esse esforço teve como uma de suas fortes razões o fato de um grande abalo ter sido predito, previsto, e iminente. Esse abalo iria acontecer em duas partes, uma inicial e uma posterior; uma inteiramente terrena, e mais tarde uma combinação de um abalo terreno com um celeste. O efeito do abalo, e, sua finalidade, seria testar tudo em relação aos seus valores permanentes. O primeiro abalo foi judeu, mas tinha todos os elementos do último como princípio e tipo.

Na destruição de Jerusalém – para qual a Carta apontou - toda a terra foi abalada, considerando aquilo que dizia respeito ao judaísmo. O templo, como o ponto focal de todo esse mundo chegou a ser derrubado. O sacerdócio, agregado a ordem sacerdotal, se foi. O serviço do templo terminou, e a nação deixou de ser uma integração e unificação de pessoas.

Estas eram coisas capazes de serem removidas. E por quanto tempo elas permaneceram firmes! A que forças elas haviam resistido! Que confiança houve que nunca deixariam de existir! Que certeza de que Deus estava tão ligado àquelas coisas e que elas nunca poderiam ser destruídas! Como eles lutaram e se agarram a elas até os últimos extremos! Mas foi em vão. Deus não desejava mais o sistema e formato terrenos, que tinham tomado tanto espaço, energia e esforços, antes do sistema realmente espiritual ser alcançado. A percentagem de valor espiritual era tão pequena afinal de contas, e os interesses espirituais estavam tão distantes através dos caminhos labirínticos da máquina religiosa e a tradição, que não valia a pena. Os meios para o fim não foram imediatos, ou seja, não havia uma distância muito grande entre o meio e o fim. Não houve contato imediato com a real exigência divina, e muitas foram as coisas intermediárias. E assim aquelas coisas tinham que ir, e, ao invés de Deus preservá-las, Ele mesmo as abalou.

O que restou após o abalo foi apenas o que era Cristo de uma maneira espiritual e celestial: Cristo no céu, e aqui, pelo Seu Espírito, como ponto de encontro ou ocasião para congregar; Cristo no céu, o Sumo Sacerdote e Sacrifício; a ordem da casa de Deus aqui puramente espiritual e celestial – nada formal, arranjado, imposto, imitado ou material. A ordem crescendo da vida, e sendo a vida Divina liberada, a ordem Divina será espontânea.

O surpreendente é como as pessoas cristãs são cegas e incrédulas, e, portanto, indispostas a buscar conhecer o caminho do "inabalável". Em uma parte muito pequena da nossa existência a frase "evangelização do mundo" (de um lado para o outro) foi declarada inutilizada, e toda a máquina poderosa teve que ser revista. Países que até muito recentemente eram as maiores esferas de atividade "missionária" estão agora fechados para tal. Há uma corrida febril para tentar passar à frente da inundação em outros países que já estão cercados e minados. Naqueles países, nada além de um vivo e verdadeiro conhecimento do Senhor pode deter a maré. A estrutura do sistema e organização do cristianismo desapareceu. De maneira profunda, furtiva irresistível este trabalho sinistro está pavimentando o caminho para movimentos rápidos e paralisantes em todo o resto do mundo, tanto no Ocidente como no Oriente. O resultado será o mesmo em todos os lugares, o mínimo dentro do possível por causa de longas tradições e fortes organizações. Parece uma coisa terrível, mesmo para pensar, mas como temos tocado muito, muito do que é chamado de "cristianismo" somos obrigados a acreditar que, porque um grande número dos que se chamam cristãos estão em uma posição totalmente falsa, e como o próprio sistema se tornou em tão grande parte, uma coisa terrena, tradicional, formal, e não espiritual, é absolutamente necessário este abalo mundial e ele será eventualmente justificado. Se estivéssemos escrevendo um tratado, poderíamos mostrar que o que é chamado de "cristianismo" é realmente o maior inimigo de Cristo.

Será visto que não é uma questão de substituir o sistema velho, pobre e mau por um sistema melhor. Algumas pessoas parecem pensar que a questão toda, ou grande parte dela, é uma questão de ordem, técnica e forma, e se voltássemos para a forma e a ordem das igrejas o 'Novo Testamento' tudo estaria bem. O fato é que, embora certas coisas caracterizassem as igrejas do Novo Testamento, o Novo Testamento não nos dá um padrão completo de como as igrejas devem ser criadas ou formadas! Não uma planta para as igrejas no Novo Testamento, e tentar formar igrejas do Novo Testamento resulta apenas em criar outro sistema que pode ser tão legal, sectário e morto como os outros. Igrejas, como a Igreja, são organismos que brotam da vida, e essa vida brota da Cruz de Cristo forjada no interior dos crentes. A menos que os crentes sejam pessoas crucificadas, não pode haver verdadeira expressão da Igreja.

Isso nos leva ao nosso ponto particular. Qual é o ponto imperativo, tendo em vista esta inundação de provas que se aproxima, e que já carregou muitos dos que foram chamados de cristãos, até mesmo os cristãos evangélicos?

Certamente há uma só resposta: - Por um lado, um ministério que tem como substância e objeto o "enraizamento e aterramento", o estabelecimento, a edificação, de crentes, o aumento real da "medida de Cristo". Isso deve estar por atrás do evangelismo, para que o trabalho seja profundo, não superficial; duradouro, e não transitório; intrínseco, não geral! Por outro lado, os crentes devem realmente fazer um balanço de seu Cristianismo. É apenas uma tradição, uma suposição, um sistema externo, uma coisa comumente aceita - mais ou menos? Ou é realmente "por revelação de Jesus Cristo" no coração? Uma verdadeira caminhada com Deus, e um crescente conhecimento de Cristo, uma vida no Espírito? Deus disse isso: as coisas que podem ser abaladas serão. Temos isto, que sendo inabalável, permanecerá?

Assim, com a nossa análise e perspectiva, nós, cingindo os lombos de nossos entendimentos, e sentimos que esse pequeno pedaço de ministério “de edificação” que foi comissionado a nós deve ser perseguido com maior devoção. Como gostaríamos que fosse possível reunir o povo de Deus de maneira conjunta em todos os países e ministrar Cristo a eles, e que tivéssemos feito mais!

Queridos amigos, vamos acabar com as suspeitas, preconceitos, incompreensões e medos; essas coisas são meios e métodos bem sucedidos de Satanás para derrotar o propósito de Deus em muitas vidas – o Seu propósito da plenitude de Cristo. E oremos muito - como Paulo rogava os santos para orar – para que "a porta pudesse ser aberta para falar do mistério"; que um novo movimento poderoso do Espírito de Deus tenha efeito no sentido da pureza força e realidade espiritual. Oh, que tal movimento possa começar antes do final deste ano, e que ano crítico - 1953 – e que ele seja marcado por um profundo movimento de pessoas do Senhor em direção a Ele mesmo!

Faça disso uma questão de oração para si mesmo, e, em seguida, por todos os Seus.

Ore também por nós para que possamos ser levados de maneira verdadeira e fiel a conhecer o que o Senhor deseja para nós e onde Ele nos quer. Os chamados e as necessidades são tantas; nossa carga é tão grande! Nós queremos fazer aquilo que terá a maior medida intrínseca de valor espiritual. Você sabe que não estamos interessados ou preocupados com um "ensino", um "movimento", ou qualquer "coisa". É verdadeiramente "a medida de Cristo" nos Seus membros e Corpo.

O Senhor continue a fazer este ministério eficaz ao Seu propósito.

Publicado pela primeira vez como um editorial na revista "Uma testemunha e Um testemunho", em Nov-Dez 1952, Vol 30-6.

Origem: "Things Which Will Be Shaken"