Complementar, Não Contraditório
por T. Austin-Sparks

"Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés". (Atos 2:34,35).

"Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; E disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus". (Atos 7:55,56).

"Se Cristo está em vocês; ...o Espírito... habita em vós" (Romanos 8:10,11).

É importante que seja entendido claramente por todos os cristãos, que confundir as verdades de Deus significa muitas vezes anular os seus valores na vida de um crente, e pior do que isso, causar uma condição positivamente contraditória do que é fundamental para um Cristianismo verdadeiro. Com grande seriedade, então, procuremos discriminar entre os diferentes aspectos essenciais da verdade, e as passagens acima representam uma das instâncias de imensa importância. Embora hajam três citações dadas, existem realmente apenas dois assuntos separados exprimidos. As duas primeiras só são dois lados de uma coisa, mas enquanto essas duas e a terceira constituam uma vida cristã completa, e são essenciais para a plenitude espiritual, elas são duas coisas distintamente diferentes, que não devem em caso algum deixarem sobrepor-se.

Cristo no Céu: (a) 'Assentado'

Nas duas primeiras citações Cristo é representado como estando no céu à direita de Deus, porém em dois posturas, 'assentado' e 'em pé'. Não existe contradição aqui. Devemos lembrar que estamos na presença de uma linguagem que é figurativa. No Seu 'assentar' - 'fez assentar' (Efésios 1:20): "Assenta-te" (Atos 2:34) - existe a Divina atestação que a Sua obra foi completa e perfeita, e que como Filho do Homem ganhou e herdou o lugar de absoluta honra e glória. "Nós vemos Jesus... coroado de glória e honra" (Hebreus 2:9). A destra é primeiramente o lugar de honra. É de tremendo significado que a nova dispensação começando com o Pentecostes iniciasse com Cristo se assentando à destra de Deus. Tudo começa com a obra concluída! O sétimo dia, o dia do descanso - se torna o primeiro dia. As cores do arco iris acabam onde elas começam! É a lei da oitava, o oitavo é como o primeiro e marca um novo começo. A nossa vida cristã começa no momento em que a obra está já concluída no nosso Representativo Filho do Homem. Não existe nada a acrescentar, nem em necessidade ou possibilidade. Logo que tentamos contribuir com algo, nós com efeito, para nós mesmos, anulamos tudo, e Deus se afasta. Voltaremos novamente em breve.

Cristo no Céu: (b) 'Em Pé'

Com relação à segunda postura de Cristo como estando no céu - "em pé à destra de Deus" - isto é visto quando a Igreja está em conflito, ou quando as coisas precisam ser feitas para ela, não no sentido da justificação dela, mas para a sua defesa e apoio na adversidade. Graças a Deus, existe Um na glória em pé por nós, e Ele velará caso o inimigo se exceda, como no caso de Estevão. Muito poderia se dizer sobre isso, mas não é o nosso assunto logo agora.

Passamos diretamente para a terceira posição de Cristo:

"Cristo em Você"

Qualquer dificuldade mental quanto às duas localizações tão amplamente separadas de Cristo ao mesmo tempo é superado pelas seguintes palavras "Pelo Espírito que habita em você". Cristo e o Espírito Santo são um.

Aqui atravessamos inteiramente para uma outra fase das coisas, e a única ligação entre as duas é que a segunda é a operação da primeira.

"Cristo em você", é para nós sermos "conformados à imagem do seu Filho (de Deus)" (Romanos 8:29). É para operar em nós aquilo que tem sido aperfeiçoado por Ele. É toda a esfera de sermos feitos à semelhança de Cristo; tendo todas as faculdades e características de Cristo, que residem na nova vida recebida no novo nascimento, levada à maturidade. Toda virtude espiritual e de Cristo tem de ser levada ao pleno crescimento; amor, mansidão, bondade, gentileza, inteligência, etc.; de maneira que não sejamos meramente teóricos e cristãos doutrinários, mas reais, espiritualmente responsáveis e indesculpáveis, com a raiz do assunto dentro. Isto, no entanto, requer muita disciplina; o que é chamado 'correção'. Esta disciplina, que emprega muitas formas de adversidade e provas, tem o efeito de trazer à luz o que realmente nós somos em nós mesmos, e é uma imagem feia. As nossas próprias características não melhoram enquanto prosseguimos. Nós sabemos cada vez mais o pobre, miserável, e deplorável que somos, e - se não fosse pela graça de Deus - sem esperança. Mas algo está sendo feito lá no fundo que irá se revelar no devido tempo para a glória de Deus.

Confusão leva a Paralisia

Mas aqui está o nosso perigo. Que nenhum filho de Deus cujo coração é voltado para o Senhor, que não tenha deliberadamente, intencionalmente e conscientemente resistido o Espírito Santo, jamais por um só instante confunda 'correção' e seus acompanhamentos da descoberta de si próprio com juízo. Isto põe em perigo a alegria da sua salvação. Se um filho de Deus que ama ao Senhor e quer nada mais do que ser agradável para Ele, pensasse que está sob o juízo e condenação de Deus porque ele está descobrindo quão mau é o seu próprio coração, esse pensamento carrega consigo a sugestão de que Cristo não morreu pelos nossos pecados; que a ira de Deus não foi exausta Nele e por Ele, quando Ele foi feito pecado por nós. Isto remonta atrás de uma obra completa e de Cristo se assentando à destra de Deus, e contradiz e nega a própria fundação de nossa salvação - justificação pela fé. A Satanás lhe é dado outra vez o lugar de poder no que respeita à pessoa com esse pensamento. Não, mil vezes Não! Embora descobra profundezas inimagináveis de iniquidade no meu próprio coração, se eu tenho fé em Jesus Cristo como o portador que levou o meu pecado e eu mesmo, as Suas perfeições são colocadas na minha conta e Deus passa a me ver Nele. Isto nunca, nunca se tornará para mim uma ocasião para viver complacentemente na base do que eu sou em mim mesmo. Sem tratar de todas as razões e natureza do crescimento cristão, com todos os valores no serviço que decorre disso, me permita continuar nesta ênfase. Existem muitos filhos queridos de Deus que têm confundido tanto as duas coisas mencionadas que chegam a ficar numa condição completamente negativa. Eles são paralisados pelo senso da pecaminosidade deles. Eles viram a necessidade para a aplicação subjetiva da Cruz de Cristo, e têm reconhecido que quando Cristo morreu, eles morreram Nele; mas a conscientização de que a obra ainda não está completa neles tem resultado em viver num mundo de morte, e sabendo pouco ou nada do fato que não pode realmente ser separado da união na morte com Cristo, isto é, união na ressurreição e exaltação. Se essa pessoa lesse isto, posso dizer-lhe que se você estiver infeliz, preocupado, depressivo, ou negativo, incerto, com falta de certeza absoluta, e portanto limitado na sua utilidade ao Senhor, você tem inteiramente mal interpretado e mal entendido a verdade da união com Cristo. Você é realmente uma contradição ao que você diz acreditar. Seria melhor que você adiasse a sua verdade subjetiva até que você tenha conseguido plenamente e firmemente se estabelecido nos gloriosos fatos do que Cristo se assentando à destra de Deus realmente significam para você. Contudo, é possível andar triunfantemente e fortemente no caminho de uma profunda obra interna do Espírito, embora conhecendo total dependência e fraqueza.

Me deixe apelar-lhe outra vez, que você não deixe que estas duas coisas fiquem confusas. Se você se deparar com novas conscientizações da sua própria inutilidade, diga, Sim, isso pertence à esfera da obra de Deus em mim, e Ele lidará com isso, mas não faz diferença nenhuma para a minha aceitação no Amado desde que não consinta o meu erro, o dispense, e o aceite. Lembre, querido amigo, que Deus demanda a primeira base, a base da fé estabelecida na obra consumada e aperfeiçoada de Cristo, a fim de fazer qualquer começo dentro de nós. Devemos ter cuidado para que não viremos a ordem de Deus e sejamos levados para uma base falsa. Isto somente pode resultar na destruição do testemunho e muita gratificação a Satanás em detrimento do Senhor em nós.

Primeiramente publicado na revista "Uma Testemunha e Um Testemunho" Jul-Ago 1965, Vol 43-4

Origem: "Complementary, Not Contradictory"