A Cruz de Cristo
por T. Austin-Sparks

Zero. O dicionário nos diz que

(a) Zero é o ponto na escala do termômetro em que a quantidade positiva e negativa é calculada.

(b) Em operações militares, o momento em que o inicio de cada movimento num tempo programado está num intervalo específico.

A combinação destas duas definições é o que queremos dizer quando falamos da Cruz de Cristo como a hora zero da Criação. A partir desse momento todos os valores positivos e negativos são determinados, e todos os movimentos são fixados.

Ao longo dos séculos precedendo a Cruz de Cristo tem havido um movimento duplo. Um sendo de expansão e alargamento; o outro de contração.

O primeiro movimento de desenvolvimento se deu no lado do homem, e em princípio tinha a ver com três coisas,

1 O próprio homem.
2 O pecado.
3 O reino do diabo.

O movimento de contração se deu no lado de Deus, e representava a Sua atitude para com as três coisas.

Olhemos para estes pontos mais plenamente.

1. O próprio homem.

O homem foi feito num nível muito elevado e foi investido com grandes capacidades. O destino fixado para ele era nada menos que domínio mundial. Mas ele foi colocado em provação, natureza da qual era total confiança e obediência a Deus. Fazer desta confiança e obediência algo prático e não meramente teórico. Ele estava preso a Deus numa lei de dependência. A tentação que lhe veio era para que ele pudesse - se ele escolhesse - ver o seu destino à parte da dependência; ele poderia ficar independente de Deus, e em vez de perder, ele poderia ganhar. Era um assunto de autorrealização sem estar preso a Deus. Ele caiu na tentação e iniciou o percurso da independência para realizar o seu próprio destino. Bem, ele tem certamente desenvolvido muita coisa; ele tem inventado, descoberto, adaptado, expandido, explorado, e explotado numa imensa escala. Deus deixou ele continuar no seu caminho escolhido por si próprio, mas existe um empecilho nisso tudo. Todo o seu desenvolvimento está conduzindo ele cada vez mais perto da perdição do que do destino divinamente intencionado. Ele inventa, e as suas invenções são empregadas para o maior grau possível de destruição humana. A sua maquinaria tem resultado num desemprego que tem gerado declínio moral, revolução, e muitos outros problemas. Tem resultado também na estranha contradição de haver uma sobreprodução das necessidades da vida, e escassez terrível nos suprimentos efetivos para o povo. Tudo isto poderia ser provado em numerosos sentidos, mas é suficiente salientar que nesta hora na história mundial todos os imensos desenvolvimentos do homem estão sendo direcionados, como nunca antes, para a destruição de tudo que ele tem construído e apreciado. No momento, as maiores mentes estão ocupadas com a questão de como, por meio de um raio - pelo apertar de um botão, o maior número de homens e equipamentos podem ser paralisados e apagados da existência. Se esse raio for descoberto ou inventado o homem terá feito deste mundo um lugar impossível de viver. Isto não é ficção. Existem muitas coisas em uso agora que teriam sido inacreditáveis apenas há pouco tempo atrás. Esse tem sido o curso do homem ao se separar de Deus, e esse é o précio que está pagando.

Mas Deus sabia de tudo isto desde o princípio, e Ele nunca tem aceito essa situação, de verdade.

Desde o inicio Deus disse Não, e Ele fixou um ponto no qual Ele registraria esse Não plenamente e finalmente. A Cruz de Cristo foi a maneira de Deus dizer ao universo - não aceito essa raça adâmica do homem, para sempre Eu viro as costas para ele. Quando Jesus exclamou "Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?"

Um dos grandes significados da Cruz, como é mostrado pelo Novo Testamento, é que lá na pessoa representativa do Filho de Deus, o homem por natureza foi posto de lado. Uma ordem inteira de criação foi cortada, no que respeita à mente de Deus. Na sua ressurreição, Cristo representa uma nova ordem, e "se alguém está em Cristo é uma nova criação". Nessa união com Cristo pela fé, quando aceitamos a Sua morte como a nossa morte, a vida de uma nova natureza é transmitida, uma espécie diferente. O desenvolvimento disso não verá nenhuma destruição, mas será percebido o destino originalmente intencionado.

2. O Pecado.

O que se aplica ao homem se aplica também ao pecado. Nós não podemos realmente dizer que o homem tem subido e subido moralmente. Enquanto nós admiramos coragem, heroísmo, perseverança e autossacrifício, ficamos horrorizados com a terrível imundície e vileza que existe na natureza humana. O padrão é tal que se alguém protestasse contra as suas dissoluções e baixeza é considerado como sendo retrógrado, ou uma ofensa. O pecado não mudou nem diminuiu durante os séculos, e os sofrimentos e misérias colossais atuais do mundo são uma terrível declaração do ódio, homicídio, orgulho, avareza, egoísmo, paixão, luxuria, crueldade, insensibilidade, etc., que ainda estão aqui. Mas Deus nunca aceitou isto, e na Cruz de Cristo o Seu zero foi registrado.

"Aquele que não tinha pecado foi feito pecado por nós" (no nosso lugar) - assim flui a Palavra Divina.

O pecado de todo o mundo foi colocado sobre Ele e Ele sofreu o seu juízo. Do ponto zero, Deus considera o pecado como tendo sido posto de lado. A aceitação de Cristo como aquele que carrega os pecados determina a nossa aceitação de Deus. Não é agora uma questão de se somos mais ou menos pecadores, maiores ou menores, mas se "O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" foi apropriado por nós pela fé, e levado a Deus como a nossa oferta pelo pecado.

Na ressurreição de Cristo, a nova ordem é aquela em que o pecado foi deixado de lado, e a justiça prevalece. Nossa união com Cristo pela fé indica uma vida dentro da qual está a própria vida da vitória de Cristo sobre o pecado e separação do mesmo.

3. O Reino de Satanás.

Por trás da tentação para se afastar de Deus, por trás do curso da independência e autorrealização com todos os seus resultados trágicos, por trás do pecado e todas as suas misérias, está Satanás. O homem não está apenas tomando o seu próprio caminho livre no ego e pecado. De depender de Deus e do laço de amor e bondade, o homem passou a se tornar vitima de uma terrível e poderosa escravidão. O fato é que o homem não pode mudar o seu curso ou a sua vida mesmo se ele quisesse. É quando ele tenta mudar que percebe que ele é um prisioneiro. O objetivo de Satanás na tentação não era garantir a liberdade ao homem para ele, embora fosse isso o que ele procurou que o homem achasse. Jesus disse a Satanás que "Ele era um mentiroso desde o princípio", e este pobre mundo e raça em Adão está enganada e ludibriada. O objetivo de Satanás era obter o domínio no seu próprio poder e suplantar o homem - para quem o domínio fora intencionado. Assim, ó, pobre mundo e todos os homens, foram enganados, ludibriados, roubados, arruinados, e aprisionados!

Mas Deus tinha a Sua hora zero para Satanás também. A Cruz de Cristo viu o reino sendo arrancado das mãos do diabo e tomado nas mãos do Filho de Deus. Dessa hora, o Filho de Deus disse, "Agora o príncipe deste mundo será expulso".

Na nossa fé da união com Cristo ressurreto e exaltado somos libertos da escravidão de Satanás; "Transladados da autoridade das trevas, para o Reino do Filho do Seu (Deus) amor". É por isso que os cristãos são tão odiados e perseguidos por todos os que ainda estão sob a influência de Satanás. Mas Cristo está fazendo com que até a própria obra do diabo Lhe sirva para os Seus fins, desta forma, expressando a Sua soberania. Faz parte da experiência espiritual do cristão aprender através da fé que Jesus Cristo é Senhor.

De modo que o Calvário foi o ponto determinante quanto a todos os valores positivos e negativos, e a crise de todos os movimentos. Tem você chegado pela aceitação e consentimento do zero de Deus, e achado que é um novo ponto para todas as coisas?

Primeiramente publicado pela Editora Testemunha e Testemunho em 1950 como livreto.

Origem: "The Cross of Christ"