A Batalha que Não é Sua
por T. Austin-Sparks

”Então, veio o Espírito do SENHOR no meio da congregação, sobre Jaaziel, filho de Zacarias, filho de Benaia, filho de Jeiel, filho de Matanias, levita, dos filhos de Asafe, e disse: Dai ouvidos, todo o Judá e vós, moradores de Jerusalém, e tu, ó rei Josafá, ao que vos diz o SENHOR. Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a peleja não é vossa, mas de Deus. Amanhã, descereis contra eles; eis que sobem pela ladeira de Ziz; encontrá-los-eis no fim do vale, defronte do deserto de Jeruel. Neste encontro, não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o SENHOR vos dará, ó Judá e Jerusalém. Não temais, nem vos assusteis; amanhã, saí-lhes ao encontro, porque o SENHOR é convosco" (2Cr 20:14-17).

”E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na Cruz" (Cl 2:15).

Pelo Novo Testamento, sabemos que os servos do Senhor são designados "soldados", que enfrentarão combates ao longo de sua jornada. Entretanto, existe uma grande batalha fundamental e todo-inclusiva, na qual o povo do Senhor não tem parte alguma. Se envolver nela equivale a escrever “Fracasso!” sobre a obra do nosso Senhor Jesus na Sua Cruz, pois isso seria considerá-la ineficiente. Existe uma batalha na qual nós não temos participação, pois foi a batalha do Senhor e não nossa. Não ter esse fato bem reconhecido e estabelecido é a raiz da maioria dos problemas que surgem na experiência do povo do Senhor. Existiu uma batalha que inclui todas as demais, e ela foi combatida pelo próprio Senhor a nosso favor. É importante sabermos desses fatos e compreendermos que batalha foi essa.

Uma Vitória A Ser Apropriada pela Fé que Louva

A história que lemos no Velho Testamento é uma ilustração disso. Não estou dizendo que se encaixa na doutrina de Colossenses 2:15, mas está relacionada ao princípio. Tanto em 1 Crônicas como em Colossenses, vemos o anúncio de uma batalha já vencida.

Depois, vemos que a vitória que já existe deve ser conquistada pela fé. Deve-se assumir uma posição em relação a ela, não uma luta. Se começarmos a assumir esse combate por nós mesmos, seremos destinados à derrota, porque nos afastaremos do terreno que Deus estabeleceu debaixo dos nossos pés. Veremos isso quando chegarmos à natureza da batalha. É muito importante reconhecer isso. Algo já foi trazido à existência, e devemos nos posicionar nessa esfera de hostilidades, assumindo pela fé que esse fato já foi realizado, não dando margem a nenhum conflito a esse respeito.

No caso do povo de Judá, a sua fé nas palavras "A batalha não é vossa, mas de Deus... nesta batalha não tereis que pelejar” foi demostrada por meio do cântico. Não preciso demonstrar como eles demandaram por fé genuína, e não mero otimismo, naquela ocasião. Não, era de fé que se precisava naquele momento. Aquela foi uma situação naturalmente desesperadora, mas a fé foi demostrada por meio do louvor. O cântico deles foi a evidência de que eles acreditaram em Deus e em Sua Palavra; creram naquilo que fora declarado, e o provaram por meio da canção. Eles não o fizeram como um menino que está passando por uma rua escura e canta para tentar se manter alegre em meio a terríveis pavores. Não existe dúvida de que aquele foi um cântico de certeza e confiança.

Josafá em pé e disse: Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém! Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis. Aconselhou-se com o povo e ordenou cantores para o SENHOR, que, vestidos de ornamentos sagrados e marchando à frente do exército, louvassem a Deus, dizendo: Rendei graças ao SENHOR, porque a sua misericórdia dura para sempre. Tendo eles começado a cantar e a dar louvores, pôs o SENHOR emboscadas contra os filhos de Amom e de Moabe e os do monte Seir que vieram contra Judá, e foram desbaratados." (2Cr 20:20-22).

A Batalha Já vencida na Cruz

Então começamos a nos aproximar do cerne da natureza desta batalha: o louvor foi dirigido pelos sacerdotes e levitas. No final do capítulo anterior vemos como o governo foi entregue nas mãos dos sacerdotes, e depois a narrativa no capítulo 20 nos mostra que foram os Levitas que se dispuseram espontaneamente a louvar (vs 19). O louvor que expressava fé era governado por aquilo que era sacerdotal e levítico - o que imediatamente demonstra a natureza do combate. Aquela foi a questão: de que lado estava Deus? Deus não têm favoritos. Ele não adota um lado só por Se sentir inclinado a favorecê-lo. Deus se posiciona somente pelo lado da justiça, da santidade - "na beleza da Sua santidade". Deus está onde a salvação está implícita, devido ao governo sacerdotal, ou por meio dos princípios sacerdotais, quais sejam: o Sangue, a Cruz e tudo o que a redenção representa através da obra do Senhor Jesus. Portanto, a resposta à pergunta ‘de que lado está Deus?’ é esta: Ele está do lado onde a obra do Seu Filho no Calvário está representada e implícita. Essa é a natureza da batalha, a qual não é nossa, mas foi de Deus!

Assim chegamos a esta passagem maravilhosa e bem conhecida da Carta aos Colossenses. Observei várias versões diferentes e, embora quase não tenha o hábito de discorrer sobre a técnica de diversas traduções, acho que vale a pena citar duas ou três:

"Tendo despojado os principados e potestades, Ele os expôs publicamente, triunfando sobre eles (na Sua cruz)".

“Os domínios e potestades foram por Ele despojados, envergonhados publicamente, expulsos em triunfo na Sua cruz".

"Ele desarmou os principados e potestades e fez deles um exemplo público, triunfando sobre eles na Sua cruz".

Observe que tudo está no passado, se refere a algo já realizado. A base do inimigo foi retirada - esse é o primeiro fato. Quando a base de um inimigo é retirada, ele fica em total confusão. Observe a confusão descrita em 2 Crônicas 20 - eles se mataram entre si. Por quê? O terreno em que confiavam lhes foi retirado. Em Colossenses vemos a mesma confusão: "os envergonhou". O que é envergonhar, senão confundir? Se alguém está confundido, fica praticamente envergonhado. Em confusão ficamos impotentes, e é fácil ser despojado. Foi isso que Judá fez na história que lemos. Por isso citei essas diferentes versões de Colossenses. Ele despojou os principados e potestades. Por quê? Porque o seu terreno foi retirado.

O Único Terreno de Esperança do Inimigo

Mas qual era a base sobre a qual os principados e potestades apoiavam sua confiança e encontravam sua força? Veja:

"E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na Cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir". [Cl 2:13-17]

A questão eram as ordenanças e demandas legais. "Faça!", "Não faça!”. Nesse ponto se apoia a totalidade da lei escrita por meio de ordenanças que testificam contra nós. Onde estava e está a força e a solidez dos principados e potestades? Está primeiramente em todo esse conjunto de demandas legais e, então, na fraqueza do homem. Todo o poder de Satanás contra nós é sustentado sobre a base dessas duas coisas: "Faça!”, "Não consigo!”, "Não faça!”, "Mas sempre faço, não consigo evitar!”. A demanda da lei e a nossa fraqueza. Que parque de diversões para o diabo! Ali reside toda a sua força, confiança e solidez. Retire essa base dele, retire as ordenanças contra nós, as demandas legais, e ele não terá nada para se apoiar, ficando em confusão. Ele se tornará um espetáculo público, será envergonhado, sendo colocado em confusão. Nesse ponto o inimigo é destroçado e desamparado.

Se você, um crente em Jesus Cristo, admitir a menor sugestão no seu coração ou mente de um questionamento acerca da sua salvação, terá se rendido ao diabo e desfeito a obra de Jesus Cristo na Sua Cruz. Você reforçará o poder do diabo para te arruinar, se admitir qualquer coisa dessas. Satanás deverá recuperar terreno para obter poder. Mas que terreno é esse? Nossa fraqueza em relação às demandas legais. Esse é o seu terreno, e ele nunca, até o nosso último suspiro, deixará de tentar recuperá-lo.

As Sugestões do Inimigo a Ser Repudiadas

Ouça mais uma vez: Não devemos lutar nessa batalha. Essa é a questão: não devemos lutar nessa batalha. Devemos tomar a atitude de quem sabe que a batalha já aconteceu e terminou - isso é tudo. Deixe que a sugestão de dúvida seja apresentada - nossa atitude deve ser de não dar espaço para tais sugestões, uma vez que isso absolutamente não nos interessa, pois Deus já assumiu isso e, em Cristo, assumiu a responsabilidade e resolveu tudo de uma vez por todas! Admita alguma sugestão a esse respeito, e verá a bagunça que o diabo fará da sua vida! Sabemos que o cântico flui imediatamente. O que então devemos fazer a esse respeito? Devemos permanecer em fé e nos regozijar - isso é tudo. Se um cristão, mesmo que seja um servo de Deus com longa experiência, disser qualquer coisa a você, indicando que tem algum questionamento ou dúvida a respeito da sua salvação, diga-lhe logo: “você está devolvendo o terreno ao diabo e ele está te roubando sua vida”. Não consigo ser forte o suficientemente quanto a isto. Conheço o inimigo neste assunto, o que ele está tentando fazer, e sei quantas pessoas que, por causa dele, estão se voltando para si mesmas, se revolvendo em dúvidas sobre a presença de Deus com elas, questionando a própria salvação. Elas estão sempre levantando de novo esta questão básica do pecado, olhando para ele, falando dele. As suas consciências parecem estar obcecadas com este assunto do pecado.

Se há uma controvérsia específica entre você e o Senhor, sua atitude deve ser de voltar à base fundamental e inclusiva, colocando tudo aquilo lá, e nunca de questionar todo o imenso triunfo do Calvário. "Se confessarmos os nossos pecados" - não uns aos outros, não é sair por aí confessando os pecados às pessoas - "Se confessarmos os nossos pecados" - a Ele - “Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1Jo 1:9). Por quê? Porque Ele já assegurou plenamente o terreno para o fazer.

Confiança, Essencial Para a Vitória

Não existe nenhuma contradição aqui. "Neste encontro, não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o SENHOR vos dará"; "amanhã, saí-lhes ao encontro". Será que isso parece uma contradição? Não há contradição. Devemos expressar nossa fé. Sim, há um combate, mas existe uma grande diferença entre lutar numa vitória e lutar por uma vitória, quando tratamos da nossa salvação. Por favor, queridos amigos, não estejam entre aqueles que falam muito sobre o diabo e a vitória do Senhor sobre ele, e ainda assim que têm uma sombra negra em seus próprios corações sobre esse assunto. As únicas pessoas que ousam encarar o inimigo e tomar uma atitude contra os poderes malignos são aquelas que estão alegres por ter segurança em seus corações sobre esse assunto fundamental. Não vamos contra o inimigo com uma nuvem de dúvida em nossos corações. Este inimigo não pode ser encarado assim. Devemos assumir uma posição celestial, baseada em um fato estabelecido. Logo que descermos para a posição da natureza - considerando o que nós encontramos aqui na terra e em nós mesmos - seremos destruídos.

Para manter a nossa posição celestial, precisamos reconhecer que toda a questão da santificação progressiva é outra coisa totalmente diferente, e não existe esperança para nós. Não faremos progresso na santificação e conformidade à imagem de Cristo se esta questão fundamental não for plenamente resolvida. Devemos ter um terreno de vantagem para nos mover. Devemos ter uma posição na qual permaneceremos completamente seguros em toda a vontade de Deus.

Introspecção Leva à Derrota

Queridos amigos, se qualquer verdade tiver o efeito de voltar você para si mesmo, tornando você introspectivo, ocupado consigo mesmo de maneira espiritual, essa verdade foi compreendida de maneira errada. Mesmo assumindo a posição mais espiritual, ainda assim estará tudo errado em sua compreensão. Esta grande obra que Cristo realizou na Sua Cruz nunca pretendeu tornar ninguém miserável. É claro que isso é algo desnecessário de dizer; contudo existem multidões de pessoas que se tornam miseráveis depois de terem confiado no Senhor, miseráveis sobre a questão do pecado nas suas vidas; e esse número, temo eu, está aumentando. Sempre mantenha uma linha muito distinta e ampla entre revelação mais completa, verdade mais profunda (denomine como desejar - toda essa esfera de avanço para o pleno crescimento) e toda essa questão da introspecção. Algumas pessoas parecem acreditar que para se tornar mais espirituais precisam se tornar mais intensas, presas e ocupadas com toda esta questão da vida espiritual. Realmente essas são as pessoas mais insuportáveis, pois a alegria desapareceu de suas vidas. Tenho certeza de uma coisa, que nenhuma revelação do Espírito Santo, por mais profunda, poderosa e tremenda que seja, tornará você miserável. A revelação de Jesus Cristo pelo Espírito Santo - e não existe outra revelação - nunca tornará uma alma miserável. Existe algo de errado num cristão ser miserável em assuntos espirituais. Ou isso reflete uma falha em compreender a única grande realidade absoluta, que a vitória foi de Deus e que Ele a ganhou em Cristo, completa e definitivamente, e não somos chamados para participar de modo algum nessa batalha; ou a verdade que veio posteriormente foi mal entendida e se tornou num fardo penoso para suportar. O Senhor Jesus disse: “O Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve" (Mt 11:30).

E qual era o jugo a que Ele se referia? Bem, ouça novamente, iremos encontrá-lo em diversos lugares no Novo Testamento onde a mesma palavra é usada. "Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mt 23:4). Qual então era o jugo, o fardo? Baseava-se na lei, nas ordenanças, na imposição do “faça" e "não faça”. "O Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve". Ele "despojou os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na Cruz". Como? Ele cravou na Sua Cruz toda a lista de ordenanças que era contra nós e tomou do inimigo o terreno da sua força e segurança. Você sabe muito bem que o inimigo não tem nenhum poder abstrato sobre ninguém. Seu poder é sempre baseado em algo concreto e positivo. O diabo precisa de algo para fazer sentir o seu poder. Isso não existirá, na realidade, a menos que ele obtenha terreno moral, e aquilo que ele usa para nos açoitar, impelir e assediar é esta lei de ordenanças carnais que eram contra nós, contra nós, contra nós!

Ouça! O inimigo está sempre dizendo que Deus está contra você, que a Sua Palavra está contra você, que as coisas estão contra você. Esse é o seu terreno e força. Mas "Se Deus é por nós... (Rm 8:31). Ó, isso é o outro lado - "por nós!" Mas como isso é possível? Isso não é abstrato. “Ele despojou", "Ele fez um espetáculo", "Ele triunfou". Não foi apenas um confronto entre forças espirituais na esfera invisível; mas uma questão moral estava envolvida. Um terreno foi conquistado e o inimigo foi roubado de sua força, sua coesão. Tudo resultou em confusão. De fato, eles dizem: ‘O que podemos fazer agora? Todas as nossas armas se foram’. Então começam a se culpar entre si, se matando. Não existe amor entre as forças malignas. Eles não têm coesão de amor. É tudo ódio lá, e logo que eles percebem que o terreno foi tomado deles, se voltam um contra o outro.

Tenhamos este assunto bem estabelecido. Qualquer cristão introspectivo é inútil como servo do Senhor. Os seus dias, semanas, meses e anos se vão, e tudo que poderia ser útil para o Senhor é devorado pelo gafanhoto da incerteza quanto à sua própria vida espiritual. A vida é jogada fora, o diabo triunfa, destruindo tudo. Se você deseja conhecer eficácia, então não lute nessa batalha. O verdadeiro poder que vence neste assunto é a fé. Então creia em Deus, e se quiser, creia nos Seus profetas - aquilo que foi declarado para você, que é a própria verdade de Deus.

Primeiramente publicado na revista "Uma Testemunha e Um Testemunho" Jul-Ago 1948, Vol 26-4.

Origem: The Battle Which Is Not Yours"