Cidades de Refúgio
por T. Austin-Sparks

Leitura: Deuteronômio 19:1-13

Consideremos as impressionantes características das cidades de refúgio, cujo aspecto exterior e literal está claramente descrito no texto Bíblico, não sendo difícil de entender. Entretanto, tais características representam também princípios espirituais de grande importância para nossa consideração.

Ao lermos a história, conseguimos saber exatamente a finalidade dessas cidades de refúgio, o que estava no pano de fundo no caso do assassino que cometeu um crime involuntariamente, e para quem o Senhor tinha feito tal provisão.

Então, somos conduzidos ao futuro, por meio desses tipos, ao grande Antítipo, o nosso Senhor Jesus, que foi a Própria Graça de Deus encarnada - essas cidades de refúgio eram uma prefiguração da graça de Deus em Cristo. Este é o antítipo! O que foi prefigurado é bem mais grandioso do que o tipo, indo muito além da ilustração - como sempre acontece. Isso pode ser visto quando chegamos ao Calvário e ouvimos o Senhor Jesus orando ao Pai da cruz: “Pai, perdoa-os; porque eles não sabem o que fazem” [Lc 23:34]. Em incredulidade, cegueira e ignorância, os judeus se tornaram culpados do sangue do Filho de Deus, se tornaram assassinos, e aquela oração do Senhor Jesus por eles os assegurou uma cidade de refúgio, um lugar que aqueles assassinos pudessem ser livres da vingança. O mesmo espírito é encontrado nas palavras de Estêvão: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” [At 7:60].

Como o antítipo vai muito além do tipo, é até difícil harmonizar as duas coisas: o fato de ter havido ódio, malícia, vingança, amargura e, ainda assim, ignorância. A graça de Deus foi tão longe, a ponto de ver aquele ódio cego e ignorância e, mesmo assim, fazer provisão por aquilo que eles fizeram naquele estado de incredulidade e ignorância. Aquela provisão foi feita por eles, mas apenas alguns poucos se aproveitaram dela. Entre aqueles poucos estava Saulo de Tarso, que falou depois a respeito de ter corrido para tomar refúgio nAquele que era poderoso. Ali estava uma pessoa amargurada, cheia de ódio, ira e rancor, mas sabemos como ele posteriormente confessou que fez aquilo em ignorância [1 Tm 1:13], que verdadeiramente acreditava que estava fazendo a coisa certa, e que deveria fazer muitas coisas contrárias ao Nome do Senhor Jesus. E o Senhor levou em consideração as trevas, a cegueira, a ignorância que se expressou, mesmo no mais amargo ódio por Ele. A oração do Senhor na cruz foi ouvida e Saulo de Tarso encontrou a Cidade de Refúgio, apesar de ter sido um assassino: uma Cidade de Refúgio no Senhor Jesus.

Fazemos bem em meditar a respeito da graça de Deus. Existem profundezas da nossa natureza que nunca perscrutamos ou compreendemos, mas, como o Senhor foi fundo nas maiores profundezas da nossa inconsciente necessidade! Existem profundidades de inconsciente necessidade, no que tange ao pecado na nossa natureza, grandes profundezas! Mas, bendito seja Deus, pois Ele fez provisão no Seu Filho por tudo, até o fundo do poço da nossa natureza pecaminosa. Além do alcance e esfera da nossa consciência, o Senhor proveu refúgio, um lugar de cobertura, um meio de graça.

Não sei por que o Senhor está trazendo isso à luz logo no início dessa mensagem, mas independente de ter uma aplicação específica e um objeto em Sua mente para alguns, certamente isso deve trazer a cada um de nós um frescor para louvar e magnificar a graça do Senhor. É simplesmente difícil chegar a uma correta estimativa do mal que fazemos ao Senhor (e um ao outro, que é ao Senhor) e o reconhecimento e compreensão de quão ruim aquilo foi. Se por um lado pode ter sido algo de mal, por outro lado pode não ter havido uma consciência tão real do mal cometido. Podemos até acordar para isso algum dia, e então vermos e reconhecermos a profundidade do erro, e quão grande foi a graça de Deus por não termos sido julgados de acordo com o que Deus viu. A graça de Deus é algo muito maior do que imaginamos, muito mais profunda. Nossa senso de pecado e mal é sempre menor do que de fato Deus vê, porque Ele vai até as profundezas do Seu próprio julgamento de pecado, diferente do julgamento do homem.

Um dia nós veremos como o pecado é pecaminoso, e quão horroroso é o mal no seu princípio e natureza, e então veremos quão grandiosa foi a graça de Deus. Se compreendemos qualquer coisa sobre aquilo que incita o cântico dos redimidos, é porque estes foram levados a ver quão grandiosa foi a sua redenção, quão profunda foi a necessidade dela, e como foi maravilhosa a graça de Deus [pelo contexto, o autor provavelmente se refere a Ap 14:3,4]. Nós então cantaremos do nosso Redentor e de Seu extraordinário amor por nós, como não podemos cantar agora, porque ainda não chegamos ao lugar onde podemos reconhecer a pecaminosidade do pecado como Deus o vê, mas quando estivermos ao Seu lado, veremos como Ele vê, e então não saberemos como expressar nossa apreciação pela graça de Deus. Isso significa que o curso da vida do crente deveria ser de um aumento da apreciação da graça de Deus, e esse é o teste. Se estamos fazendo qualquer tipo de progresso espiritual, mas este falha em nos trazer sob uma forte e cada vez mais poderosa percepção da pecaminosidade do pecado e, consequentemente, da grandeza da graça de Deus, este não é um verdadeiro progresso espiritual. Se o progresso espiritual não representar para nós que o pecado se tornou mais hediondo, mais terrível, então este é um progresso falso. O verdadeiro avanço para a luz é reconhecer quão negra é a escuridão, e esse reconhecimento deve estar se aprofundando em nossos corações. A graça de Deus – ou as cidades de refúgio - deve se tornar muito preciosa para nós. Colocando isso em termos do Novo Testamento, o Senhor Jesus, em Sua obra universal para nós, deve se tornar mais e mais precioso, pelo refúgio que Ele proporcionou, pela graça de Deus demonstrada naquelas cidades de refúgio.

Outro fator a ser levado em consideração, além do fato de ser o Senhor Jesus, Ele próprio, a cidade de refúgio no sentido máximo, é que tais cidades me parecem representar algo da natureza corporativa do Senhor Jesus em Sua igreja. É verdade que Saulo de Tarso encontrou seu refúgio em Cristo. Aquele assassino, aquele que consentiu na morte daqueles que eram de Cristo, e se opunha ao Senhor Jesus até a morte, encontrou refúgio Nele. Mas, podemos notar que o Senhor Jesus não deu a ele nenhuma resposta completa e plena satisfação, até que ele foi até a assembleia em Damasco: “Vá para Damasco, onde te dirão todas as coisas que será indicado a fazer”. E quando ele foi à Damasco, em meio ao povo do Senhor, a palavra do Senhor o encontrou e ele se levantou e foi batizado, seus pecados foram lavados e o Senhor selou a paz e perdão ali. O que quero dizer com isso é seguido no livro de Josué, onde os Levitas estão na posse das cidades de refúgio. Isso indica que o Senhor proveria, em meio ao Seu povo, um ministério sacerdotal, por meio do qual haveria uma cobertura, um refúgio, libertação e segurança. O Senhor estaria no meio do Seu povo para libertar do acusador o assediado, pressionado e fugitivo.

Isso funciona de duas formas: para tal pessoa, o Senhor proveria, entre o Seu verdadeiro povo espiritual, um ministério de intercessão, um ministério sacerdotal. Ali o homicida poderia ser liberto do opressor, perseguidor, da condenação e do acusador, que é aquele que assedia e persegue até trazer ao julgamento, condenação e morte. O Senhor proveria para tal pessoa, entre o Seu próprio povo, meios de graça para o seu socorro e proteção. “Vá para Damasco”, busque aquele ministério sacerdotal, busque aquele socorro entre o povo do Senhor. Se você se sentar lá fora e se afastar, o perseguidor o perseguirá e o acusará. Mas, venha para o meio e busque o ministério Levítico entre o povo de Deus, na virtude do sangue derramado, porque os Levitas têm aquele ministério designado a eles, na virtude do sangue derramado pelos seus pecados, para orar por você.

Conhecemos alguns dos filhos de Deus que estão debaixo de acusação, e a tendência é se afastar e ficar vagando sozinhos. Eles têm ficado assim um mês após o outro, em um interminável curso de acusação, condenação, opressão e morte, mas se eles apenas tivessem entrado e deixado os santos ajudá-los, isso teria sido sua libertação. Entretanto, lembre-se disso, se você for tentado dessa maneira, e se essa for a atitude de qualquer um dentre o povo do Senhor, essa é a provisão do Senhor: “Vá para Damasco”. O Senhor cumpre Seu ministério sacerdotal por meio dos Seus santos, a fim de os libertar do acusador. E isso, amado, funciona no outro sentido também: deve haver o sustento de um ministério forte em favor de tais pessoas. Devemos reconhecer isso. A nós é dado sermos, como foi o Senhor, uma cidade de refúgio para o oprimido, e a nós é confiado o ministério de libertação dos assediados, em cujos calcanhares o acusador tem pressionado com força, para recebe-los em nossa habitação espiritual, socorrê-los e orientá-los ao Senhor. Lembre-se de que esse ministério, tendo sido entregue a nós, está no Senhor, está em nosso poder salvar muitos de serem dragados pela morte devido a alguma acusação, algo que eles nunca desejaram, não premeditaram, mas no qual eles caíram e imediatamente o acusador saltou sobre esse território para o destruir. É dado a nós exercitar o ministério em favor de tais pessoas. O Senhor dá a nós a graça para cumprir e manter tal ministério, porque tais cidades de refugio são Levíticas. Elas pertencem aos sacerdotes do Senhor.

Temos, na mesma conexão, tal verdade e tal palavra de exortação tão profundas, que a graça de Deus, que está em Cristo Jesus, deveria estar em nós operando da mesma forma: “Pai, perdoa-os”. Fico muito feliz ao ver que houve pelo menos um homem no Novo Testamento que teve a mesma graça em seu coração, assim como estava no coração do Senhor Jesus: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” [Estêvão - At 7:60]. O apóstolo [Paulo], que tinha boas razões para se lembrar dessa verdade [At 7:58], escrevendo para os crentes Romanos, disse: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça” [Rm 12:19-20]. Isso é um eco da graça de Deus em Cristo nos nossos corações.

Não sei quão necessária é uma palavra como essa. Não sei se você já foi levado a devolver algo na mesma moeda em que recebeu, ou dar uma resposta no mesmo tom e no mesmo espírito, e adotar armas carnais. Eu estava hoje pensando em um homem muito prezado que conheci anos atrás na América, a quem o Senhor falou muito e de forma muito real, levando-o a um conhecimento mais abundante Dele e a uma vida espiritual mais elevada. Sei que aquele homem era um objeto especial da palavra e atividade do Senhor naquele país anos atrás. No ano passado, quando eu estive lá, o encontrei e percebi que ele não havia prosseguido espiritualmente com o Senhor, e fiquei entristecido ao saber que ele havia assumido a causa de outro homem que, independente de ter sido mal ou corretamente exposto (não cabe a mim dizer), estava diante da lei contra os Cristãos, lutando furiosamente com armas carnais. Ele então tentou me arrastar para essa briga. Tive que dizer: “Meu irmão, as armas da nossa milícia não são carnais, mas são poderosas em Deus”. E quais são elas? Elas não são as cortes legais, nem os caminhos humanos de vindicação. Entre elas, temos o amor – será que existe uma arma mais poderosa no universo do que essa? O que conquistou a mim e a você? O amor de Deus, que conquistou os maiores triunfos que esse mundo nunca viu? Não a espada, mas o amor de Deus. Estas armas são poderosas no Senhor: longanimidade, paciência... são armas difíceis até nos acostumarmos a manejá-las, mas são poderosas. “Todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” [Mt 26:52], disse o Senhor Jesus. Amado, esteja certo de que se tomarmos as armas carnais, seremos feridos por elas, e por meio delas cairemos.

Por que o Senhor está dizendo isso? Não sei! Isso tem estado em meu coração. Tenho pensado em Nabal, Abigail e Davi [1 Sm 25:2-38]. Nabal foi uma pessoa a quem Davi havia sido muito bom e amável. Em uma hora de necessidade, Davi lhe pediu ajuda. Nabal, sendo o homem que era – sua mulher disse “ele é homem de Belial, não fale com ele”- se voltou a Davi, recusou seu pedido e repudiou qualquer obrigação para com ele. Davi então pegou sua espada, chamou seus homens e se posicionou para se vingar de Nabal. Mas a mulher de Nabal, Abigail, ouviu tudo isso e buscou todas as provisões que podia, colocando-as sobre os animais, e então partindo ao encontro de Davi que vinha abordar seu marido. Ela admitiu todo o mal relativo a Nabal e ainda assim (que sabedoria a dela!) disse a Davi as seguintes palavras de efeito: “Davi, você fará mais mal a si mesmo do a Nabal se tomar esse curso. Se você colher sua vingança em Nabal, você será aquele que mais se lamentará, isso te fará mais mal do que a ele. Isso porque todos os dias da sua vida serão infelizes por ter agido por meio de sua ira. Você tem uma boa razão para estar irado, isso é verdade, cada coisa ruim que você falar do meu marido, é verdade, e ainda assim você tem interesses mais elevados a servir do que gratificar sua própria vingança, você é chamado para algo superior a isso, Davi”. E a sabedoria daquela mulher prevaleceu com Davi. Ele disse: “Se você não tivesse falado isso comigo, não teria sobrado nada de Nabal”, e então Davi agradeceu ao Senhor pela sabedoria de Abigail. Ele agradeceu ao Senhor, porque foi livrado daquilo.

Você e eu seremos os sofredores se deixarmos que nosso espírito de vingança nos conduza em qualquer caminho que leve a essa gratificação. Iremos sofrer se adotarmos métodos carnais. É bem verdade que, se tomarmos a espada para viver por ela, iremos perecer por ela também. Davi deu lugar à ira. “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”. Isso é vitória. Isso é triunfo. Isso coloca o Espírito do Senhor Jesus dentro de nossos corações, e qual é o resultado? Frequentemente, simplesmente algo maravilhoso acontece, e aquele a quem iriamos colhido vingança é salvo, e ao invés de sermos vingadores de sangue, nós nos tornamos uma cidade de refúgio. É bem melhor ser uma cidade de refúgio do que um vingador de sangue. Em que posição estamos? Somos aqueles que perseguem, ou somos uma cidade de refúgio? Se o Senhor Jesus tivesse exercitado Seus poderes de julgamento contra Seus inimigos, teria sido um vingador de sangue, mas Ele escolheu, ao contrário, orar pelo perdão daqueles que o feriram, Se tornando uma Cidade de Refúgio. O que somos nós?

Não vou dizer mais do que apenas isso. Mas o que sinto que eu mesmo preciso, sinto ser a necessidade de forma muito maior para os filhos do Senhor, especialmente grupos distintos dos filhos do Senhor reunidos em comunhão e companheirismo, assembleias aqui e ali, de forma que possam aproximar-se mais plenamente da semelhança do Senhor Jesus. A grande necessidade é de mais amor. Você não sente essa necessidade? Falo por mim mesmo e isso também cobiço pelo povo do Senhor acima de tudo, um maravilhoso espírito de amor.

Crítica, suspeita, questionamentos, dúvidas, distância, indiferença, todas essas e muitas outras coisas simplesmente destroem nossa utilidade para o Senhor, roubando de nós muitas preciosas oportunidades, que ficam completamente no caminho de nosso progresso espiritual. Podemos ter uma grande quantidade de conhecimento, mas o conhecimento ensoberbece. Amor edifica, e se realmente desejamos ser edificados, não seremos edificados pelo conhecimento apenas, mas pelo amor. Isso significa que o Senhor pode nos dar tanto mais de Seu precioso descortinar. Se tivermos mais amor, tenha certeza que revelação virá lado a lado com essa linha do amor, e o Senhor poderá nos capacitar a cumprir um ministério muito mais poderoso e potente a favor dessas almas a quem amamos. Existe toda a diferença entre ter a verdade sobre libertação de almas e tentar exercitar aquela verdade não chegando a lugar nenhum, e ter um amor que consegue realizar tudo isso. Não significa ficar de joelhos com um caso difícil no meio, e começar a nos exercitar em muitas doutrinas sobre libertar almas do diabo. O Senhor não opera assim. Uma cidade de refúgio é uma cidade de graça, um lugar para pessoas obterem a libertação. Não é um lugar para eles chegarem onde há muitos ensinamentos maravilhosos; é entrar em um lugar onde há muita graça maravilhosa. Oh, que possamos ser uma verdadeira cidade de refúgio! Isto é, aqueles que realmente estão assediados precisam saber que este é o lugar para o socorro deles e sua libertação, não porque temos luz, mas porque temos graça. Que o que é verdade para o grupo seja verdade para nós individualmente.

Que o Senhor possa conduzir essas coisas em nossos corações, e se vamos clamar por qualquer coisa, que seja por mais amor e por graça. Graça é o ingrediente pelo qual o Senhor cumpriu Seus propósitos, e é assim que sempre será.

Editado e suprido por Golden Candlestick Trust.

Origem: “Cities of Refuge”