A Multiforme Graça de Deus
por T. Austin-Sparks

“GRAÇA e paz vos sejam multiplicadas” (I Pedro 1:2).

“Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da GRAÇA a vós outros destinada” (I Pedro 1:10).

“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na GRAÇA que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (I Pedro 1:13).

“Porque isto é grato (GRAÇA), que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato (GRAÇA) a Deus” (I Pedro 2:19-20).

“...cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme GRAÇA de Deus” (I Pedro 4:10).

“Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingindo-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua GRAÇA” (I Pedro 5:5).

“Ora, o Deus de toda a GRAÇA, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar” (I Pedro 5:10).

Deste modo temos a tônica de toda a carta encontrada na palavra graça. É uma palavra que tem diversas facetas diferentes. Algumas vezes é usada no sentido de graciosidade – graciosidade de maneira e atitude, um senso de beleza, causando prazer a outros. Algumas vezes, como na grande doutrina da graça de Deus, é aquele favor que é demonstrado onde não há nada que o justifique – derramada sobre uma situação que é completamente indigna de qualquer bondade ou benevolência; a graça de Deus como favor imerecido em perdoar a dívida vigente. Essa é a grande doutrina da graça.

Então algumas vezes ela é usada, numa forma muito simples, como estando num estado de graça. E então, finalmente, é usada no senso de força e suporte – “Minha graça te basta: porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Cor 12:9). Assim esta é uma palavra usada no Novo Testamento nessas diferentes maneiras, e aqui nessa breve carta de Pedro que nós podemos ler inteira do começo ao fim em poucos minutos, temos todos esses aspectos da graça trazidos diante de nós.

Graça é o grande tema de Pedro, e isso por si mesmo é significativo, quando você pensa sobre Pedro. Se existe alguém que deveria ter escrito sobre graça, é Pedro. Ele escreve de coração. A primeira palavra no segundo verso do primeiro capítulo é como um manancial. É o manancial da graça surgindo. Está lá inclusive. “Graça a vocês e paz sejam multiplicadas”. Isso é geral. Como o manancial se torna uma corrente através da carta, parece dividir-se nesses vários aspectos, tendo esses diferentes significados.

Graça como um Fundamento de Confiança e Certeza

Assim você chega às duas passagens no décimo e décimo terceiro versículos daquele primeiro capítulo. “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada”. “Esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo”. Aqui temos a graça como um grande fundamento de expectativa, de confiança, de certeza. É sobre nós que a grande graça de Deus é trazida à luz nessa dispensação, em seu pleno conteúdo e pleno significado e pleno propósito. Os profetas sabiam que havia algo tremendo reservado para alguém. Estava determinado por Deus que algum povo deveria chegar a algo muito grande; e aqui é dito que nós somos esse povo, nós somos as pessoas nos eternos conselhos de Deus. Um povo nessa dispensação estava para chegar ao pleno significado da graça Divina, e o pleno significado é apenas vislumbrado com o aparecimento do Senhor Jesus.

Aqui está a graça como uma grande base de confiança e segurança de que a coisa está determinada em sua plenitude na dispensação em que vivemos, e os profetas estavam em um estado de antecipação e não realização. Eles não tinham a certeza de que isso era para o tempo deles, mas isso era para alguém em algum momento. Nós temos essa certeza. A graça de Deus tem chegado e está chegando a nós em Seus conselhos determinados, e em toda a plenitude do seu significado.

Graça na Conduta

Então você passa ao capítulo dois, versos 19 e 20. Aqui nós temos algo estranho feito pelos tradutores. É muito difícil saber porque eles fizeram isso. Eles traduziram exatamente a mesma palavra grega duas vezes como a palavra “aceitável” [“grato”, na versão em português]. Adequadamente lido, deveria ser – “Porque isso é graça, se por consciência diante de Deus um homem suporta aflições, sofrendo injustamente. Porque que glória é essa, quando pecamos, e somos esbofeteados por isso, o suportemos pacientemente? Mas se, quando procedemos bem, e sofremos por isso, devemos suportar com paciência, isso é graça diante de Deus”. Suponho que os tradutores pensaram que isso soava um pouco estranho, e assim eles fizeram a mudança. Mas ali está a palavra. Assim aqui graça se torna uma questão da nossa conduta. Um dos fluíres dessa graça é expresso em como nos comportamos sobre provação, sobre adversidade. A graça de Deus é para expressar a si mesma dessa maneira. Quão facilmente nos ofendemos, ficamos chateados, retaliamos, queremos nossos direitos estabelecidos, nos sentimos mal quando somos mal compreendidos, quando nossos motivos são mal interpretados – quando tínhamos boas intenções mas foi conjecturado que tínhamos outro motivo – quando algo é trazido sobre nós sem qualquer fundamento. Podemos desanimar com isso, ou podemos nos encolerizar com isso, pagar com a mesma moeda e nos estabelecermos; ou nós podemos quieta e humildemente sofrer internamente e seguir sem mostrar qualquer indisposição – apenas seguir em frente. Isso é graça. E o grande exemplo é o próprio Senhor Jesus – “...deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos... pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje...” (I Pedro 2:21,23). Ele não mostrou retaliação no espírito. Essa é a graça de Deus. Isso é graça na questão da conduta.

Graça no Caráter

Passamos para as próximas duas referências. “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”. “Cingindo-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça”. Aqui graça toca nas profundezas – mais profundo do que nossa conduta. Ela se aprofunda no nosso caráter; e aqui os opostos são o orgulhoso e o humilde. Orgulho e humildade são fatores do caráter. Talvez tenhamos uma humildade fingida que não é verdadeira humildade. Humildade é realmente algo que é a própria natureza de Cristo em nós, e assim graça aqui, torna-se uma questão de caráter, mostrando a si mesma na humildade. Ele dá graça aos humildes e resiste aos soberbos.

A Fonte de Toda Graça

Então finalmente, capítulo 5, verso 10: “O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar”. “O Deus de toda graça”. Na luz de tudo o que o Apóstolo tem dito, o resumo está nessa frase, “o Deus de toda a graça”, pretende, penso eu, encorajar. Deus é o Deus de toda a graça. Existe graça em Deus para tudo. Não desista, não desanime. Existe graça para toda situação. Tende bom ânimo – Ele é o Deus de toda graça.

Aquela afirmação no capítulo 2:12 – “mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.” – está na luz das várias dificuldades e provações que esses crentes e nós mesmos estávamos e estamos sujeitos. É quando a fé é provada, quando as circunstâncias são difíceis – eles falam mal contra você falsamente, e outras coisas são apresentadas que criam um conjunto de circunstâncias difíceis – quando você está sofrendo por motivo de consciência, e quando é assaltado pelo inimigo que anda ao derredor como um leão que ruge procurando quem ele possa devorar (v. 8); então lembre-se de que o Deus de toda graça chamou você, e assim existe graça para todas as coisas, para todas as situações e todas as demandas. Parece como que 1:2 é o manancial, então existe a corrente se dividindo nas suas variadas aplicações e significados e valores, e então parece como que tudo converge no mar – o Deus de toda graça; o manancial, a distribuição sobre toda a terra para alcançar toda situação, e então o retorno e fluir para o grande oceano – o Deus de toda graça para todas as situações.

Primeiramente publicado na revista “Uma Testemunha e Um Testemunho”, em Nov-Dez 1948, Vol. 26-6.

Origem: The Manifold Grace of God