O Silêncio da Soberania e a Ação da Fé
por T. Austin-Sparks

“Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR. Eis que passava o SENHOR; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do SENHOR, porém o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave” (1 Reis 19:11,12).

“Este disse: Assim diz o SENHOR: Fazei, neste vale, covas e covas… Não sentireis vento, nem vereis chuva; todavia, este vale se encherá de tanta água, que bebereis vós, e o vosso gado, e os vossos animais. Isto é ainda pouco aos olhos do SENHOR; de maneira que também entregará Moabe nas vossas mãos” (2 Reis 3:16-18).

Esses extratos se relacionam a dois incidentes bem conhecidos, sobre os quais foram baseadas muitas mensagens da parte do Senhor. Verdadeiramente existem muitas coisas neles de considerável valor espiritual. Entretanto, desejo me concentrar apenas em um detalhe nesse momento que, apesar de não ser algo novo para vocês, é aquilo que está provocando uma nova e forte ênfase em meu próprio coração nesses dias. Acredito se tratar de algo de grande valor e preciosidade.

Uma Crise Resultante do Fracasso Humano Recebida pela Graça Divina

Havia uma crise em cada uma das instâncias mencionadas. Na primeira foi uma crise na vida do profeta, e na segunda havia uma crise na vida de um rei. Em ambos os casos, a crise foi trazida pela fraqueza e fracasso humano. Elias havia sofrido um colapso interior e pediu para o Senhor tirar sua vida. No segundo caso, Josafá tinha feito uma aliança com um filho de Acabe. Enquanto o próprio Josafá era um homem quase que inocente em seu próprio caráter, um dos mais impressionantes homens de Deus nos difíceis anos do reino dividido, ainda assim, ele fez algumas coisas insensatas, e uma delas foi o de se permitir ser arrastado a esse acordo para ir em uma campanha contra os Moabitas. Foi o fracasso humano que trouxe aquela imensa dificuldade, resultando naquilo que trouxe a ameaça do desastre absoluto.

Mas enquanto isso é verdade, e enquanto a crise em ambos os casos foi trazida pela fraqueza da humanidade, temos o triunfo da graça de Deus - a questão mais gloriosa de todas, o triunfo foi apenas pela graça divina.

O Silêncio da Soberania

O ponto sobre o qual desejo focar nesse momento é o silêncio da soberania - a soberania no silêncio Divino - quando isso envolve o povo de Deus. Existem momentos, é claro, que o Senhor quebra o silêncio e surge em uma tremenda manifestação de majestade e poder até a destruição. Mas esse não é o Seu caminho normal, particularmente quando o assunto envolve Seu povo e Seus servos. Seu caminho normal é silêncio. Nas duas instâncias, como vemos, houve um grande silêncio que encarnou um tremendo poder e no qual a poderosa soberania de Deus estava atrelada. Realmente é tudo uma questão do Espírito Santo em relação ao propósito da aliança de Deus e à Sua honra; pois entendo que aquela voz mansa e suave (ou, como na margem, aquela voz de suave quietude) é muito típica do Espírito Santo, se não fosse o próprio Espírito Santo. Então aquelas águas que vieram para salvar a situação naquela crise terrível na vida de Josafá também são típicas do Espírito Santo. Mas perceba quão silenciosamente elas vieram. Não foi um vento, nem um terremoto, nem fogo, mas a voz de uma gentil quietude. “Não sentireis vento, nem vereis chuva”; verdadeiramente, eles não veriam nada até que o evento acontecesse.

Quão típico isso é da mui poderosa ação soberana do Espírito Santo! Considere cada uma dessas instâncias. No caso de Elias, a situação parecia demandar alguma demonstração tremenda do poder Divino. Apesar de ter havido uma maravilhosa manifestação no Monte Carmelo, parecia que Jezabel estava no lugar de maior poder do que Elias naquele momento. Mas como é estranha a natureza humana, e como nosso coração é enganoso e desesperadamente corrupto! Quando já vimos muito das poderosas obras de Deus, como podemos ficar completamente desanimados depois de tudo! E é verdade que “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos”, conforme citou Tiago (Tg 5:17). O contrário também é verdade - somos pessoas com as mesmas debilidades de Elias. A natureza humana é a mesma em qualquer lugar, e nesse ponto parecia que uma poderosa demonstração do poder Divino era a única coisa que poderia resultar na sobrevivência do servo de Deus e do que ele representava, o propósito da aliança do Senhor. Sim, algum ato soberano, inconfundível em sua clareza de definição, algo que ninguém poderia deixar de reconhecer como um ato de Deus que salvou a situação. Algumas vezes parece que algo assim é uma necessidade indispensável e um mínimo irredutível. Deus precisa fazer algo agora, que talvez Ele nunca tenha feito antes. Isso pode ser verdade em nossa experiência pessoal, ou na obra de Deus em que estamos envolvidos, ou ainda quanto ao todo testemunho do Senhor envolvido no mundo. Pode ser que agora aconteça algo assim com muitas pessoas nessa terra, que tudo esteja indo para o inimigo, ou sendo perdido, e um poderoso abalo de Deus pareça ser a única esperança.

Uma Crise de Alargamento

Aquilo parecia o fim para Elias - não gostaria de ter sido o homem a discutir com ele naquele momento; estou perfeitamente certo de que não o moveria nem o persuadiria de que as coisas não estavam tão ruins quanto ele acreditava estar. Não, estava assegurado para ele que aquilo era o fim: a melhor coisa a fazer para ele era morrer. Mas o que parecia tão forte e desesperadamente ser um fim foi, na verdade, uma crise de alargamento, como representado na emergência de Eliseu. Não temos dúvidas de que Eliseu foi um alargamento sobre Elias, recebendo a porção dupla de seu espírito e levando sua obra a um poderoso alargamento, e tudo aquilo surgiu desse exato ponto de aparente desespero.

Como isso foi realmente uma crise de alargamento? Não foi por um furacão; Deus não varreu simplesmente nesse ponto com o seu vento irresistível, carregando tudo diante de si. Não foi um terremoto, erguendo e revolvendo tudo, quebrando e estilhaçando. Não foi um fogo, consumindo, queimando e destruindo. A crise do alargamento não veio por meio de nenhum desses caminhos, ou em nada como essas coisas. Ela veio por meio de uma suave tranquilidade, um cicio manso e tranquilo.

Passe para o outro incidente na vida de Eliseu. Temos a emergência que surgiu pela razão daqueles que eram do Senhor terem embarcado em uma campanha contra os Moabitas, por meio da insensatez de um jugo desigual, uma associação proibida, uma aliança com a casa de Acabe e Samaria. Josafá e Jorão foram para a batalha e, no deserto, seu suprimento de água acabou e o desastre era iminente. Todo o seu exército - e parece que Israel e Judá haviam colocado todos os seus recursos disponíveis no campo - estava envolvido nessa ameaça terrível. Sabemos o que aconteceu. Jorão exclamou: ‘Deus nos trouxe aqui para nos destruir’. Essa é a reação da incredulidade. Quando chegamos a situações como essas, sempre existe isso dentro de nós que dirá, ‘O Senhor está contra nós, Ele deseja acabar conosco agora’. Jorão tomou aquela atitude, mas Josafá, o homem de Deus, se voltou para o Senhor. Ele buscou um profeta e, por meio do profeta o Senhor deu Suas instruções relacionadas a escavação das valas e a promessa de libertação.

O Chamado À Fé para Agir

Em tal situação o chamado é para a fé agir. Fé é chamada a agir quando tudo parece desesperado. Aqui Deus não está aceitando a “fé” passiva. Ele chama por ação, a ação da fé. Mas o vale estava lá, e o que você quer mais do que um vale quando espera por um rio? A situação natural parecia ser suficiente para prover a Deus um canal. Mas não, Deus não está apenas aceitando isso assim. Ele diz, “Cave, mesmo estando no vale. Existe algo extra demandado para você. Faça covas no vale”. Isso parece supérfluo e desnecessário - a situação por si é certamente suficiente para que o Senhor possa prover o terreno necessário para agir. Não, essa é a atitude passiva. Você deve fazer algo em fé nessa situação. Veja o ponto. Frequentemente estamos numa situação que parece prover a mais perfeita oportunidade para o Senhor fazer qualquer coisa e que, por si mesma, constitui um terreno para Sua intervenção. O que mais o Senhor deseja? Ele deseja alguma ação de nossa parte em meio à isso tudo - a ação da fé.

Quantas vezes um novo compromisso prático tem sido o caminho de Deus quando tudo parecia perdido. Alguns de nós se lembra da primeira Guerra Mundial, quando toda a situação era desesperadora, quando os franceses estavam quase superados, quando o inimigo estava levando tudo diante de si e a matança era terrível. Perguntaram a Field-Marshal Haig [Oficial militar britânico e comandante durante a Primeira Guerra Mundial], ‘O que você irá fazer?’ Sua resposta foi: ‘irei tomar a ofensiva’. Ele assim o fez e reverteu todo o curso da batalha. Quando tudo parecia desesperado, ele tomou a ofensiva. Muito freqüentemente é isso o que o Senhor demanda, quando as coisas estão nessa condição. Ele demanda que façamos algo, não apenas levantar nossas mãos para o alto e dizer que o dia está perdido, mas em fé fazer algo. Eles precisaram fazer covas no vale.

Fé não é Deixada de Lado pela Graça

A lição desses incidentes é bem patente. Estamos encarando uma situação aparentemente sem esperança? Essa situação pode até mesmo ser atribuída à nossa tolice, fraqueza ou fracasso, e nela há um bom motivo pelo qual podemos nos culpar se estivermos inclinados a isso? Bem, a graça de Deus abunda mesmo assim, dizendo: ‘Nada é sem esperança se você é Meu. Não importa o quão mal você se sinta a respeito de sua fraqueza e seus erros, e quão impossível e sem esperança você possa achar que a situação é, você é Meu, e o propósito da Minha aliança está atrelado a você, e assim nada é finalmente sem esperança’. Mas você precisa crer nisso e fazer alguma coisa a respeito. Você precisa se levantar e agir baseado nessa fé.

Assim, esses soldados se puseram a cavar, escavando covas em um vale, fazendo algo que parecia totalmente sem necessidade. O resultado foi que as águas vieram. De onde? Bem, as águas vieram e isso é tudo. Nenhum sinal de chuva, nem sinal de vento, nada para se ver ou ouvir, mas um movimento quieto, silencioso do Espírito de Deus. Apenas aconteceu, como costumamos dizer. Nossa história será muitas vezes assim.

Por que estou dizendo isso? Porque muitas vezes estamos buscando, orando, esperando por algo poderoso, uma intervenção destruidora de Deus em nossa situação, algo que seja uma evidência e prova que Deus está conosco, algo que nós possamos nos agarrar ou que possamos apontar e relatar. Mas isso não acontece. Repetidamente temos passado pelos pontos mais críticos de nossa história e passado pelas mais sérias esquinas, e precisamos dizer: ‘como fizemos isso, ou como conseguimos passar por isso?’ Bem, apenas aconteceu. Sem dúvida envolveu um grande poder da parte de Deus, e não tenho dúvida de que, se Deus não tivesse feito, teria acontecido um desastre, mas assim foi feito. Mas como? Achamos que o Senhor deveria vir por esse ou aquele caminho, e estávamos dizendo a Ele o que deveria fazer, mas Ele nunca veio pelo nosso caminho, nunca fez nada assim. Apenas aconteceu. Estamos seguindo em frente assim. Pode ser que de tempos em tempos o Senhor nos mostre Sua mão. Ele é o Deus do salto súbito, assim como é o Deus do processo longo, mas normalmente o caminho de fé é assim - silencioso, quase imperceptível, sem nenhum poder para detectar que Ele está operando, mas aquilo que é necessário está sendo feito.

Não é só o fato de superarmos um degrau e continuarmos em outro campo até chegarmos a outra dificuldade; este é um caminho de alargamento. Deus está nos alargando assim, silenciosa e imperceptivelmente. Deus está indo adiante com o propósito de Sua aliança. Essa é a parte maior da história da Igreja. Se pudéssemos ler toda a história da Igreja agora, poderíamos descobrir que, enquanto houveram tempos em que Deus interviu de maneiras maravilhosas, esses períodos foram muito mais escassos do que os tempos nos quais Ele silenciosa e ocultamente trabalhou e fez coisas maravilhosas, tanto guardando Sua Igreja da destruição, como a mantendo no caminho do alargamento. Essa é a história das nossas experiências interiores também.

Se você está esperando que o Senhor faça algo extraordinário, miraculoso em sua situação, pode ser que isso nunca aconteça. Mas o que Deus deseja acontecerá, se crermos Nele e agirmos dentro dessa fé. Algumas vezes isso significa nos lançarmos na água onde é fácil afundar se não for pelo Senhor. “Não sentireis vento, nem vereis chuva; todavia, este vale se encherá de tanta água, que bebereis vós”. Isso é tudo. Não está no vento, não está no terremoto, nem no fogo, mas na tranquilidade da voz gentil. Ao virarem a esquina, entraram na crise. “Vai, volta…ungirás… também Eliseu” (1 Reis 19:15,16). A resposta de Deus para tal situação de crise não é menos, mas mais.

Primeiramente publicado na revista “Um Testemunho e Uma Testemunha”, em Nov-Dez 1951, Vol 29-6.

Origem: The Silence of Sovereignty and the Action of Faith