A Palavra, a Obra e o Mundo
por T. Austin-Sparks

Tenho me perguntado se poderia definir e resumir essa conferência em três palavras, e acredito ter conseguido: a Palavra, a Obra e o Mundo. Vamos falar um pouco sobre elas, mas primeiro leremos alguns fragmentos da Escritura.

“E a Palavra se fez carne e tabernaculou entre nós” (João 1:14). A palavra “tabernaculou”, que é usada na margem da Versão em Inglês E.R.V (English Revised Version), é a tradução correta aqui.

“E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mateus 24:14).

Vou traduzir novamente esse versículo, no que talvez seja uma tradução mais literal e verdadeira:

“Essas boas notícias do reino soberano devem ser pregadas em todo o mundo para estabelecer a evidência.” Voltaremos a isso mais à frente.

“Essa é a enumeração das coisas para o tabernáculo, a saber, o tabernáculo do Testemunho” (Êxodo 38:21).

1. A Palavra

Começaremos com a Palavra, porque ela é a base de tudo. Tudo deve estar de acordo com a Palavra, originado na Palavra, e governado pela Palavra. A Obra, que vem a seguir, é o propósito, ou expressão da Palavra. Então vem o Mundo, que é a esfera na qual a Palavra deve ter sua expressão.

Talvez deva dizer que estou tratando vocês como um grupo de estudantes e não estou pregando para uma congregação, assim espero que vocês sigam bem de perto cada palavra que digo, porque estou ponderando minhas palavras muito cuidadosamente, e existe muito mais por tráz delas do que parece haver na superfície.

No que diz respeito à Palavra – e estou agora me referindo às Escrituras – devemos sempre olhar para qualquer fragmento da Escritura no seu contexto mais amplo. Lembre que, ao se aproximar para ler qualquer parte, frase, e mesmo qualquer palavra das Escrituras, por ser a Palavra de Deus, elas têm um contexto muito mais amplo do que aquele fato em si. Não é apenas uma palavra, frase, versículo, ou uma porção da Escritura em si mesma. Ela tem um cenário muito mais amplo. Se você puder ver esse contexto mais amplo, isso terá uma consequência vital e você será grandemente ajudado. Em outras palavras, procure pelo conteúdo mais amplo de qualquer parte da Escritura, porque haverá muito mais ali do que se encontra na superfície. Existe uma profundidade inexaurível em qualquer coisa que procede de Deus. De fato, se é verdade que a Bíblia, as Escrituras, são sopradas, inspiradas por Deus, saíram de Deus, então elas são tão plenas como o Próprio Deus. Não existe uma mente pequena por trás daquela palavra, daquela sentença, daquela declaração ou daquele argumento. É a mente de Deus, e essa mente é inesgotável. Você nunca irá penetrar suas profundezas, mas ela está ali em cada fragmento.

Por favor, tente lembrar-se disso quando estiver lendo a Palavra de Deus. Não leia apenas continuamente, mas pegue fragmento por fragmento e procure ver tanto o contexto mais amplo quanto seu conteúdo mais completo.

Isso não é apenas técnico. Estou falando para vocês como alguém que tem estado com essa Palavra de Deus por mais de sessenta anos, e tenho descoberto que isso tem imenso valor. A Bíblia tem sido pregada e ensinada por uns dois mil anos até hoje, mas no final desse tempo ainda existe algo novo a ser encontrado em apenas um fragmento, no que diz respeito às suas palavras. Tome qualquer um desses textos, por assim dizer, sobre os quais as pessoas pregam. Você pode ter escutado centenas de mensagens sobre eles, e se você é tão velho quanto eu, terá escutado pregações sobre eles muitas vezes em muitas partes do mundo, mas, ele nunca estará esgotado. Existe sempre algo novo e fresco sobre aquela bem conhecida porção da Escritura. Quão frequentemente nós ouvimos alguém se levantar e anunciar seu texto, e nossa reação é: “Ah, conhecemos esse! Temos escutado pessoas falarem sobre ele frequentemente!” mas, se a pessoa falando está realmente debaixo da unção, antes de ele ou ela terminem, pegamos algo bem novo sobre aquela velha, bem conhecida porção da Escritura sobre a qual ouvimos tantas vezes anteriormente. Estou enunciando algo de tremenda importância. Aquilo que sai de Deus é tão grande quanto o Próprio Deus, e será que você pode esgotar Deus? Você pode realmente chegar ao fim da mente de Deus? Nunca! De fato, depois de todos os nossos anos, ainda que possam ser muitos, ainda estamos dizendo para nós mesmos: “Bem, quando chegar na glória pedirei uma explanação daquela porção da Escritura que tenho conhecido tão bem. Perguntarei a Paulo o que ele quis dizer com aquela declaração, e ao Senhor o que Ele quis dizer com aquela outra. Sei que existe algo mais ali que não fui capaz de sondar.”

Não preciso trabalhar isso, mas quero enfatizar, primeiro de tudo em relação à Palavra, que sua profundidade e plenitude são completamente inesgotáveis porque vêm de Deus, e portanto são tão plenas como o Próprio Deus.

Vamos tomar um exemplo. Nossa primeira passagem foi João 1:14: “E a Palavra se fez carne e tabernaculou entre nós.” A palavra grega “logos” é usada, então temos: “E a Palavra, o logos, se fez carne e tabernaculou entre nós.” Vamos quebrar isso. “A Palavra, a expressão pessoal de Deus, SE FEZ carne” – não “foi sempre”, mas SE FEZ, e isso é um ponto, um momento na eternidade. Não sabemos quando isso aconteceu exatamente na mente de Deus, mas, claro, sabemos a data na história. Entretanto existia uma conjuntura, uma crise, um ponto final entre a pré-existência da Palavra que era Deus no princípio e Seu tornar-se carne – “e tabernaculou entre nós.” Como havia dito, essa é a tradução correta, porque essa mesma palavra é usada muitas vezes nas Escrituras. A última vez que ela é usada é no livro de Apocalipse: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens” (21:3).

Agora começamos chegar ao ponto. João está escrevendo seu Evangelho com um completo pano de fundo Judeu, e sugiro que você vá àquele evangelho e procure cuidadosamente cada alusão à vida, história e constituição de Israel. Você terá que procurar muito de perto, mas verá que está tudo ali. Onde ele começa? “...e tabernaculou entre nós.” “Ele tomou sua residência em uma tenda.” A palavra grega não pode ser traduzida com precisão em inglês, porque soaria estranho dizer: “e entendou entre nós.” Veja, João está de volta com Israel no deserto, onde nós lemos sobre “o tabernáculo do testemunho.” O tabernáculo está na mente de João, porque é parte desse completo sistema judaico que está por trás de tudo o que ele está escrevendo. Ele tem muito a dizer sobre o sistema, e você vai perceber que ele fala do maná no deserto, e do poço de Jacó. Sim, está tudo ali.

João tem toda essa vida e estrutura judaica em mente enquanto está escrevendo, e ele começa com o tabernáculo. De fato, o que ele está dizendo, ou querendo dizer, é que o que o tabernáculo no deserto foi há muito tempo, Jesus é agora. Ele suplantou aquele tabernáculo. O primeiro foi dispensado e Ele tomou o seu lugar. A grande transição aconteceu. Logo o templo entrará em cena da mesma maneira com a mulher de Samaria: “Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” (João 4:20). Jesus disse: “Mulher, acredite em mim, vem a hora, quando nem nessa montanha, nem em Jerusalém adoraremos o Pai.” O que aconteceu? Monte Gerizim, o tempo dos Samaritanos foi dispensado, e o grande templo em Jerusalém foi dispensado. Alguém tomou o seu lugar. Bem, como tenho sugerido, leia esse Evangelho novamente e marque quantas as alusões à vida e história de Israel você puder.

Voltamos ao tabernáculo. Primeiramente, Deus ordenou: “E me farão um santuário, para que Eu possa habitar no meio deles” (Êxodo 25:8), então o objetivo era: “para que Eu possa HABITAR no meio deles.” Essa é a mesma palavra de novo, embora esteja em hebraico. Deus estava realmente dizendo: “para que Eu possa tabernacular entre eles.”

Então vamos olhar para a edificação desse tabernáculo. É fruto de uma revelação do céu, e nenhum detalhe é deixado à inventividade, julgamento, pensamento ou imaginação do homem. O padrão é dado no Monte, e você percebe a meticulosidade e exatidão escrupulosa de Deus sobre isso. “Segundo tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis” (Êxodo 25:9). Nada foi deixado para o homem. O homem, com todas as suas capacidades imaginativas, emocionais, intelectuais, é descartado, deixado de lado. Ele não tem lugar na edificação desse tabernáculo. Deus é muito particular, tanto que quando dois dos filhos de Arão fizeram incenso que não era de acordo com a prescrição, foi chamado “fogo estranho”. Não era de acordo com a prescrição dada por Deus, então Ele veio e vocês sabem o que aconteceu. Aquilo significou completa destruição, a obliteração de tudo nessa conexão, que não estava de acordo com o pensamento ou mente de Deus, mas era do HOMEM.

Por que esse ciúme tão rigoroso de Deus sobre esse tabernáculo? Porque Seu pensamento não começa e termina com essa coisa chamada o tabernáculo. Seu pensamento é muito maior, mais completo e grandioso do que qualquer coisa que possa ser medida. E qual é o pensamento de Deus? Nada menos do que Seu próprio Filho, Jesus Cristo. Cada detalhe desse tabernáculo no deserto simbolicamente e da Pessoa verdadeiramente encarnada, é meticulosamente de acordo com a mente de Deus. Esse é Aquele que veio e tabernaculou. Existe uma correspondência detalhada, escrupulosa entre a mente de Deus, e aquilo que estava governando o tabernáculo no deserto. Na intenção, mente e pensamento de Deus, aquele tabernáculo era uma expressão, uma representação do Senhor Jesus em Seu caráter e natureza.

Esse é o conteúdo mais completo de: “A Palavra se fez carne e tabernaculou entre nós.” Assim, podemos ver que não podemos apenas seguir lendo a Bíblia e assim por diante! Precisamos pegar esse contexto mais completo, mais amplo, e o grande quadro de cada fragmento.

Bem, essa é a Palavra, e lembre-se que não pode seguir com a Obra até ter compreendido isso, porque existe tanto que é fruto de concepção, talento, ideia, imaginação e atividade humana nas coisas de Deus, mas Deus não está habitando em nada daquilo. Ele não está ali, porque o próprio objetivo foi perdido ou errado. Colocando isso de outra maneira: Se Deus irá entrar, tabernacular, residir, estar presente, tudo deve estar de acordo com Cristo. Quão meticuloso foi o próprio Cristo sobre isso! Ele tinha a mente do Seu Pai, e aqui em João 5 você O escutará dizendo: “O Filho nada pode fazer A PARTIR DE si mesmo”. Isso é o que o grego diz, não “de si mesmo”. Você vê como deve pesar cada pequena palavra! O que está saindo de nós? “O Filho nada pode fazer a partir de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz” (verso 19). “As obras que faço, não faço a partir de mim mesmo. As palavras que falo, não falo a partir de mim mesmo. É o Pai que fala, e é o Pai que faz as obras.” Ele está em contato com o pensamento definitivo de Deus em cada detalhe. Estava Deus em Cristo? A história provou que Deus veio por meio Daquele? Bem, você precisa responder isso.

Essa é a Palavra, que governa e é a base de tudo, mas precisamos seguir.

2. A Obra

Qual é a obra de Deus? Você, é claro, está muito preocupado com a obra de Deus. Agora, por favor, não me cite fora de contexto. Você está preocupado com a salvação das almas, e isso está muito correto, MAS..., e quando coloco um “mas” nisso significa que existe uma questão. Você está preocupado com o avanço do Evangelho. Muito correto, MAS... Com o que você está preocupado? Estou certo de que você pode fazer uma lista de respostas a essa pergunta. Por que você está aqui, afinal? Por que você é um cristão? Por que você está indo nos diversos lugares onde vai? Talvez você resuma tudo isso nessa sentença: “Estou indo fazer a obra de Deus. Tenho comprometido a mim mesmo e minha vida com a obra do Senhor”. Por favor, o que você quer dizer? Essas respostas que você dá talvez estejam muito corretas até certo ponto, entretanto esse “mas” está ali, e esse é um “mas” muito desafiador. Pode ser um “mas” muito devastador, porque pode nos colocar direto para fora do nosso trabalho. Esse pode ser um “mas” que faz o Senhor nos colocar de lado da Sua obra por um tempo. Esse “mas” pode ser a causa de muitas coisas.

Qual é a obra do Senhor, queridos amigos? Você tomará isso no seu coração? Novamente, por favor não diga que eu disse: “A obra do Senhor não é pregar o Evangelho, e não é a salvação das almas”, porque eu disse: “É sim” para essas coisas. Esses são meios, mas eles não são o fim. Elas são os meios para um fim. Qual é a obra do Senhor? O que nossa passagem da Escritura indica?

“A Palavra se fez carne e tabernaculou entre nós.” Por que Jesus veio ao mundo em carne? Para salvar o homem? Sim. Para levar o homem a Deus? Sim. Para fazer conhecido o Reino de Deus? Sim. Mas isso é tudo? Esses são caminhos, ou são o fim? De novo, faço a pergunta: Qual é a obra de Deus?

A obra de Deus é trazer Deus ao Seu lugar nesse mundo. Isso é tudo. Estsando onde você está, em sendo um cristão e um servo do Senhor, pregando o Evangelho ou fazendo alguma dessas coisas que compõem a soma do seu trabalho, o desafio, o teste é esse: Deus está presente? Quando encontramos uns aos outros, encontramos o Senhor, ou encontramos uma iniciativa, um empreendimento, uma parte da obra, uma organização, ou um monte de pessoas interessadas em ALGO? É a presença e o impacto da nossa vida causado pelo impacto de Deus sobre uma situação?

Vamos para a nossa passagem em Mateus 24: “Essas boas notícias do reino soberano serão proclamadas em todas as nações para ESTABELECER A EVIDÊNCIA”. No grego, a palavra é “prova”, ou “testemunho”, e você sabe o que é uma testemunha – alguém que tem um testemunho. Em nenhuma côrte da lei em qualquer lugar, o juiz lhe permitirá dizer: “Eu OUVI isso. Me CONTARAM aquilo. ACREDITO que isso foi assim e assim. Eu LI isso.” Para isso o juiz dirá: “Meu caro, não quero ouvir o que você ouviu, o que você pensa, o que você acredita ou o que você leu. Quero evidência de primeira mão. Ler e ouvir é algo de segunda mão e eu não aceito isso como evidência”. Você não acha que isso é desafiador no que tange onde nossa evidência, nosso testemunho, está firmado? O fato de você estar em uma situação é evidência do quê? “Essas boas notícias do reino soberano serão proclamadas em todas as nações para estabelecer a evidência” – e a evidência é de quê? Que essa terra é de Deus por direito. “Essa terra, e esse chão sobre o qual estão ambos os meus pés, pertence a Deus, e não ao diabo, nem ao homem. Pertence a Deus por direito de criação e por direito de redenção”. Se você tomar essa posição, você tem Deus do seu lado.

Essa tem sido a batalha ao longo de todo o percurso. Tudo começou quando Abel tomou a posição com um altar, testemunhando que essa terra é do Senhor por direito, não apenas de criação (Caim chegou tão longe quanto isso!), mas de redenção, pelo direito do sangue precioso. E o diabo veio e o matou – mas, será mesmo? “Ele estando morto ainda fala” (Hebreus 11:4).

Vamos a Noé. Naquele tempo toda a criação havia sido destruída, exceto por aqueles poucos na arca. Eles sobreviveram, emergindo do julgamento, morte e destruição, e a primeira coisa que Noé fez foi erguer um altar sobre a terra regenerada, renovada. Fazendo assim, ele disse: “A terra é do Senhor.” O homem havia roubado Deus do Seu lugar. A imaginação de cada coração era má e o homem não tinha Deus em seus pensamentos, então Ele disse: “Não foi para isso que Eu criei o mundo. Eu criei o mundo para Mim, para MINHA habitação e tabernaculação.” Assim, Noé ergueu um altar e ali o lugar do Senhor foi reconhecido.
Abraão andou para cima e para baixo na terra, e onde quer que ele colocasse seus pés ele construía um altar, e fazendo assim ele estava dizendo: “Isso pertence a Deus. Seus direitos de criação e redenção são representados aqui.”

Pensamos sobre Moisés. Israel saiu para ser constituída uma nação pelo caminho de um altar, que foi construído na entrada de cada habitação, porque era ali onde o cordeiro seria imolado. Da bacia que recolheu o sangue do cordeiro um círculo foi feito, que significou que aquela casa e família foram cercados com sangue, e por aquele círculo de sangue eles emergiram como nação de Deus. Foi pelo caminho de um altar. Talvez eles não compreendessem tudo isso, mas o significado era: “Nós PRETENCEMOS AO SENHOR! Nós somos redimidos por um sangue precioso. Os direitos do Senhor são identificados e reconhecidos por nossa própria existência, porque todos os primogênitos dos egípcios morreram. Nossa sobrevivência está baseada na base do sangue redentor, porque pertencemos ao Senhor”.

Seguindo pelo Novo Testamento, todos esses altares estavam apontando para o grande altar da Cruz que incluía e compreendia todos eles em um significado inclusivo, completo. Qual era a batalha do Calvário? Bem, você pode dizer muitas coisas sobre isso – expiação pelos nossos pecados, e assim por diante – mas tudo isso está incluído em uma coisa: os direitos de Deus nesse mundo estavam sendo defendidos na Cruz. Você não fica surpreso, então, que depois que aquela batalha foi travada, as forças cósmicas contra Deus tomando Seu lugar terem sido despojadas e a batalha pelos direitos de Deus ter sido definida por sangue redentor, que o próximo grande evento na história desse mundo fosse aquele céu aberto e a descida do Espírito Santo para tabernacular na igreja, o novo tabernáculo de Deus, o Corpo de Cristo corporativo. Deus está aqui, e agora a obra de Deus é estabelecer a prova, isto é, trazer o Senhor ao Seu lugar.

Algumas vezes você não pode fazer nada mais além de permanecer de pé. Muitos dos servos de Deus foram capazes de apenas permanecer onde o Senhor os colocou e nada mais, “resistir, e tendo feito tudo, permanecer”. Algumas vezes eles não são capazes de pregar, não são capazes de fazer o que chamam a obra de Deus. Vamos deixar isso claro, porque algumas vezes permanecer firme e defender os direitos de Deus em um lugar é o maior serviço que nós podemos fazer pelo Senhor.

Bem, isso deveria revolucionar nossa ideia da obra de Deus! O que é isso? Muito mais deve ser dito, mas é simplesmente trazer o Senhor aonde estamos.

Espero que vocês tenham os princípios que tem enunciado nessa conferência e em outros momentos, mas esse é um sobre o qual quero colocar ênfase. O princípio dessa obra de Deus é um princípio corporativo, e nenhum obreiro deve ser deixado sozinho. O requisito mínimo do Novo Testamento na obra de Deus é dois. Seja cuidadoso sobre se isolar, separando-se. O diabo confundirá você e o testemunho, se ele puder te pegar isolado. Esse permanecer junto é uma representação do princípio do Corpo de Cristo, e Paulo disse que o corpo não é apenas um membro. Sempre observe esse princípio corporativo, porque algumas vezes, se não temos outra pessoa junto para permanecer conosco, afundaremos. Precisamos uns dos outros para permanecer juntos.

Isso é devastador e desafiador. Falo a mim mesmo continuamente: “Será que o resultado de estar aqui, como cristão, como assim chamados servo de Deus, resulta em mais do Senhor? Porque você veio por esse caminho, e esteve aqui, será que significa que existe mais de Deus?” Oh, o quanto nós podemos ser absorvidos com aquilo que chamamos a obra, e o Senhor acaba se expressando tão pouco! É por isso que digo que o Senhor Jesus foi tão meticuloso e escrupuloso em cuidar para que tudo estivesse de acordo com a mente de Deus. Guarde isso no coração!

3. O Mundo

O testemunho de Deus e Seus direitos soberanos – que é apenas outra maneira de falar do Reino – devem ser plantados em cada nação. Não é que cada nação deve ser totalmente salva nessa dispensação, mas o testemunho está ali para estabelecer a evidência em todo o mundo.

Isso, é claro, abrirá a porta para muito mais ser dito – e meu tempo acabou! Mas porque aquele tabernáculo estava no deserto bem no centro de uma nação? Para que? E se você olhar para a terrível tragédia de Israel, porque eles foram deixados de lado, porque houve esses dois mil anos em que eles tem estado naquilo que o Novo Testamento chama “as trevas exteriores”? Isso aconteceu porque o testemunho deles nas nações desmoronou. Eles foram erguidos, constituídos e governados por Deus e pelo céu, de forma que nas nações deveria se saber que Deus tem os direitos nesse mundo, por criação e redenção. A presença de Israel deveria ser, de fato, a presença de Deus. Assim, quando o propósito foi perdido o vaso foi destituído. Deus não terá mais uso para um empreendimento quando seu propósito foi perdido e Ele o dispensou. E o propósito é introduzir Cristo. Essa foi a história de Israel, e é a história de muitas coisas nas quais o Senhor Se manifestou, mas eventualmente perderam o propósito de sua existência. Elas foram por outras linhas e outras coisas, e foram destituídas por Deus, como o tabernáculo em Siló, que se tornou uma concha vazia, e como o templo em Jerusalém, destruído e arruinado, e destituído do propósito de Deus, porque seu objetivo foi perdido.

Vamos orar: “Senhor, não deixe isso acontecer comigo! Não deixe que aquilo para o que aproximaste-me de Ti perca seu propósito e eu não mais Te traga a cena. Será que a minha presença significa a Tua presença?” Oremos assim, porque deve haver o impacto de Deus.

Essa é a Palavra, essa é a Obra, e é por isso que estamos no Mundo. Vocês serão dispersos entre as nações, e o que farão? Vocês irão pregar; sim, isso deve ser proclamado. Vocês trabalharão, sofrerão e estarão muito ocupados, estou certo disso, mas lembrem-se : Deve haver aquela vida em secreto com Deus que significa que quando você sair do santuário, do lugar secreto com Deus, a presença de Deus está com vocês e registrada onde vocês estão, e se os homens forem insensíveis, o diabo não será! Ele sabe onde o Senhor está. Ele é o arqui-inimigo de Deus e do fato Dele ter uma base nesse mundo. Ele é o príncipe desse mundo e não tolerará qualquer interferência no seu reino sem uma luta.

Sim, trazer o Senhor tem sido um combate por todo o caminho, mas essa é a obra do Senhor, e é por isso que estamos aqui.

(Uma mensagem dada a jovens cristãos em outubro de 1970).

Da revista “A Witness and a Testimony”, Set-Out 1971, Vol. 49-5.

Origem: The Word, the Work and the World