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Aspectos da Cidade

por T. Austin-Sparks

Transcrição de uma mensagem de T. Austin-Sparks proferida em Março de 1960.
A forma falada foi mantida literalmente.

Vamos tomar alguns versos do Antigo e outros do Novo Testamento. No Antigo, está no primeiro livro de Reis, no capítulo 7:

“Edificou Salomão os seus palácios, levando treze anos para os concluir. Edificou a Casa do Bosque do Líbano, de cem côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura, sobre quatro ordens de colunas de cedro e vigas de cedro sobre as colunas. A cobertura era de cedro, abrangendo as câmaras laterais em número de quarenta e cinco, quinze em cada andar, as quais repousavam sobre colunas. Havia janelas em três ordens e janela oposta a janela em três fileiras. Todas as portas e janelas eram quadradas; e janela oposta a janela em três fileiras. Depois, fez o Salão das Colunas, de cinquenta côvados de comprimento e trinta de largura; e havia um pórtico de colunas defronte dele, um baldaquino. Também fez a Sala do Trono, onde julgava, a saber, a Sala do Julgamento, coberta de cedro desde o soalho até ao teto. A sua casa, em que moraria, fê-la noutro pátio atrás da Sala do Trono, de obra semelhante a esta; também para a filha de Faraó, que tomara por mulher, fez Salomão uma casa semelhante à Sala do Trono. Todas estas construções eram de pedras de valor, cortadas à medida, serradas para o lado de dentro e para o de fora; e isto desde o fundamento até às beiras do teto, e por fora até ao átrio maior. O fundamento era de pedras de valor, pedras grandes; pedras de dez côvados e pedras de oito côvados; por cima delas, pedras de valor, cortadas segundo as medidas, e cedros. Ao redor do grande átrio, havia três ordens de pedras cortadas e uma ordem de vigas de cedro; assim era também o átrio interior da Casa do Senhor e o pórtico daquela casa”.

No Novo Testamento, nosso texto está no livro de Apocalipse no capítulo 21, verso 2:

“Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo”.

Verso 10: “e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, a qual tem a glória de Deus. O seu fulgor era semelhante a uma pedra preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina. Tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas, nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel...”

Verso 16: “A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios. O seu comprimento, largura e altura são iguais”.

Verso 19: “Os fundamentos da muralha da cidade estão adornados de toda espécie de pedras preciosas...”

Em ambas representações, vemos o que simboliza o lugar de deleite e habitação do Senhor. Aquele que é maior que Salomão está edificando uma Casa para Si e para Sua Noiva. O Rei está edificando a Cidade onde deve ser estabelecido Seu trono.

Lemos atentamente as descrições da edificação de Salomão e da nova Jerusalém, a Cidade Santa. Podemos distinguir claramente três características marcantes: a primeira, força; a segunda, beleza; e a terceira, um alto preço. Essas são as três principais características do local onde Senhor irá habitar. Ele está interessando nisso, trabalhando de forma profunda e paciente para Sua expressão e para a manifestação de Seu propósito.

Força! Algo muito evidente no edifício de Salomão, uma vez que esse elemento pode ser visto naquelas pedras poderosas e pesadas, e também naqueles grandiosos cedros do Líbano. Tudo isso nos remete à impressão de força. Demorou muito tempo para obter aquelas pedras, que têm uma longa história. Na verdade, é impossível rastrear o seu início. Essas substâncias rochosas são longevas. Os cedros do Líbano não foram plantados ontem, e passaram por tempestades, muitos longos anos de crescimento. Não vemos nada superficial e leve nesses materiais. Nada será capaz de arrebatá-los, eles resistirão e permanecerão, por isso eles são a personificação do princípio da resistência perseverante. Percebemos eternidade em sua própria constituição, pois esses materiais passaram por muitos testes tempestuosos; e estão na Casa por essa razão, por isso o Rei irá morar ali. Eles foram expostos aos elementos, nunca foram mimados, cobertos e protegidos das adversidades; mas foram expostos a todas as forças que poderiam destrui-los. Aqui temos uma representação de força.

Olhe para aquela Cidade poderosa. Doze mil côvados não nos dizem muito, até começarmos a lembrar que aquilo é um cubo. Quando pensamos a respeito, vemos comprimento, largura e altura iguais. Hoje ficamos impressionados, talvez quase chocados, ao ouvirmos sobre os milhares de milhões de quilômetros... Esta cidade é imensa! Apenas mencionei isso para enfatizar esse fator de ponderação, o seu aspecto substancial e duradouro.

Queridos amigos, talvez nem precise enfatizar, mas não é essa a história do verdadeiro povo de Deus? O Senhor não nos coloca em estufas para nos cultivar, para nos tornarmos em Suas árvores! O Senhor não nos protege das tempestades, das adversidades! Ele nos expõe aos ventos amargos e ao sol abrasador da adversidade e da provação. O Senhor está trabalhando em nós aquilo que corresponde à Sua Natureza: a eternidade, pois Ele é um Deus eterno. Algo assim dificilmente será arrebatado. O Senhor está implantando substância em cada um de nós. Hoje, temo que o apelo para se tornar cristão seja tão frequentemente relacionado à facilidades ou diversão. Bem, graças a Deus por TODA a alegria divina, mas uma verdade relacionada à Casa e a Cidade, é que a primeira coisa que o Senhor está trabalhando e buscando no Seu povo é a fidelidade substancial, firme e duradoura que corresponde à Sua natureza. Substancial! Como precisamos de cristãos substanciais, que não precisam ser mimados, amamentados, e que não necessitam ser adulados para fazê-los continuar ou manterem-se firmes. Homens e mulheres como cedros do Líbano; como aquelas pedras talhadas - pesadas, com as quais o Senhor pode contar, responsáveis ​​​por sustentar peso.

Podemos nos lembrar novamente de existe um lugar amplo para isso na Palavra de Deus: seja forte no Senhor e na força do Seu poder, seja forte na graça que está em Cristo Jesus. Pense novamente. Você quer entender por que é permitido aos ventos soprar com tanta força... as tempestades? Para nos afastar daquilo que é natural, despreocupado, sem valor, leve e frívolo e para nos tornar em pessoas de peso. Força - através de testes, através da adversidade - força... para perseverar por todas as eras.

Muitas coisas serão arrebatadas na última grande provação. Se a provação e a adversidade forem a única maneira de nos aprofundar, plantando calibre em nós, suponho que devemos esperar por mais delas na medida que o tempo se encurtar.

Beleza, não falarei muito sobre isso, mas é algo tão evidente nessas representações, não é? Beleza. O Senhor também está trabalhando nisso. Ele deseja que Sua morada, o lugar que Ele está edificando para Sua própria habitação, seja atraente, admirável, grandioso, algo para se maravilhar. Suponho que a única palavra que cobre toda essa esfera de beleza é a palavra "graça". Graça! Se o sofrimento se relaciona à força, podemos relacionar a graça à beleza.

Se nós tivermos uma verdadeira apreensão da essência da graça divina, haverá algo sobre nós que não será feio, repulsivo, mas será bonito, suave. A beleza não é feroz, cruel, nem difícil. A beleza é, em certo sentido, suave. Talvez suave seja a melhor palavra. Se continuamos com o Senhor até o fim, devemos estar deixando nossa dureza natural de julgamento, palavras, atitudes e assumindo cada vez mais a suavidade da graça. Olhe novamente para essas descrições, talvez particularmente para a da cidade, e veja como essa característica da beleza é notável.

Beleza! O poder para perseverar, resistir e permanecer em pé é algo poderoso, ainda assim, percebemos que uma das coisas mais maravilhosas a respeito do Senhor, e qualquer coisa ou alguém em quem Ele cumpre Seu propósito é essa combinação de força e beleza. O equilíbrio: nem tudo é força, nem tudo suavidade, vemos um equilíbrio maravilhoso no Senhor Jesus, olhe para Ele! Essas duas coisas reunidas é o que o Senhor deseja.

E, finalmente, o preço. Como foi cara a construção de Salomão, ouro de Ofir! Vemos um preço muito alto ligado àquelas casas que ele edificou, a cidade, a fundação dos muros; tudo feito com pedras de valor... algo muito precioso, muito valioso para o Senhor. Aqui não vemos nada barato, e de fato Deus nunca usa nada que não tem um alto preço. Lembre-se disso! Tudo o que é de Deus é custoso, custa caro. Não vemos nada ali desprezível, mau; tudo é uma personificação do sofrimento: pedras de valor.

Observe os doze fundamentos, onde estavam os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro. O primeiro é de jaspe, claro como cristal. Quem foi o primeiro dos apóstolos? Simão Pedro. Jaspe, claro como cristal! Vemos que toda a mistura saiu, e ele se tornou transparente, claro. Mas que sofrimento! Veja o que lhe aconteceu: “E, saindo dali, chorou amargamente” [Mt 26:75]. Pedro tem muito a nos dizer em suas cartas a respeito de ardentes provações que tem a finalidade de nos testar, nos experimentar. Pedro conhecia o sofrimento. Sim, mas vemos que isso produziu algo muito precioso e valioso para o Senhor. Não foi Pedro quem usou essa palavra: “portanto, os que credes, é a preciosidade” [1Pe 2:7]? Se nos lembrarmos dos caminhos do Senhor conosco, não poderemos deixar de perceber que o Senhor está preparado para tomar muito tempo, energia e dinheiro para obter a essência do valor espiritual.

Quem conhece a vida de Madame Curie, que descobriu o rádio, pode se lembrar das toneladas e toneladas de coisas que os homens considerariam lixo, que foi coletado e amontoado para obter um pouco de rádio. Apenas um pequeno fragmento de rádio obtido de toneladas! Considerando o preço do rádio naqueles dias; vamos perceber o seu poder, sua virtude! O Senhor parece agir assim: Ele está preparado para usar toneladas e mais toneladas, para obter apenas um fragmento dessa natureza essencial de Si mesmo: preciosidade. É uma energia intrínseca, algo sobre a natureza do Senhor que é tremendamente potente; a potência da Verdade, a potência do Amor, de Deus.

Enquanto o Senhor deseja que sejamos escrupulosamente cuidadosos no que se refere ao nosso uso e cuidado com dinheiro, pois Ele não seria solidário nem por um momento com o descuido nessa esfera, às vezes Ele mesmo parece usar esses recursos, materiais e financeiros, de maneira tão profunda, com o propósito de obter alguma medida espiritual. Nós devemos olhar para tudo à luz do seu valor espiritual; pois é assim que Ele olha. Nada com o Senhor tem qualquer valor, exceto que resulte em algo dEle mesmo. Podemos ter milhões, apesar de supor que nenhum de nós o tenha, mas ainda que tivermos milhões, isso para o Senhor não é nada. Ele diz: quanto isso representa de Mim? Podemos ter pouco e ter que considerar cada centavo que gastamos, mas pode haver, em seu uso, algo do Senhor, para o Senhor. Assim o Senhor olhou as moedas da viúva, à luz do seu valor espiritual, enquanto contempla a abundância do fariseu sem um pensamento ou palavra de prazer. Tudo se relaciona ao valor espiritual, no que diz respeito ao Senhor.

Pense em quanto tempo o Senhor toma! Como ficamos chateados com essa questão do tempo... esse é um dos nossos grandes problemas, o fato do Senhor ser tão lento, esperar tanto tempo, demorar tanto! Isso é realmente um problema conosco, não é? Sempre tentamos apressar o Senhor. Mas se o Senhor precisar de tempo para obter o que busca, Ele levará a eternidade para obtê-lo, e levará uma vida inteira, se for necessário. Veja bem, o que vale para o Senhor é o valor real, o custo das coisas.

Poderíamos falar muito sobre sofrimento... como o povo de Deus o experimenta! De fato os sofrimentos do povo do Senhor são um problema, mas se Paulo estiver certo, eis aqui a resposta: “nossa leve e momentânea tribulação...” e só poderemos falar assim se pudermos ver o restante de sua afirmação: "produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação" - peso de glória eterno! Esse é o fim, o objetivo, a meta. Nossa aflição leve; que não é nada leve, afinal, mas que será uma aflição muito pesada, a menos que possamos ver o que o Senhor está buscando. Talvez, a partir dessa visão, a aflição seja considerada de uma forma diferente.

Então, aqui estamos: um alto preço. O Senhor busca um verdadeiro valor e, quando Ele o obtém, essas características: força, beleza e verdadeira preciosidade, um alto preço - o processo então será plenamente justificado.

Origem “Aspects of the City


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