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O Senhor é com ele

por T. Austin-Sparks

“Então, respondeu um dos moços e disse: Conheço um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o Senhor é com ele” (1 Samuel 16:18).

Esses versos nos apresentam 6 características de Davi, o homem descrito como alguém segundo o coração de Deus. Talvez seria mais exato dizer que temos cinco virtudes, e a última, “o Senhor é com ele”, seria a explicação do restante.


1. “Sabe tocar...”

Somos introduzidos a uma das principais características da vida de Davi, que era a adoração. Devemos muitos dos Salmos a ele. O título do que chamamos de "O Livro dos Salmos" era originalmente "O Livro de Louvores". Tornou-se no primeiro livro de adoração da nação e depois, do mundo inteiro. Aqui temos uma indicação do que seria uma característica marcante de Davi. Mas onde Davi aprendeu a tocar? Como ele desenvolveu esse talento? Na solidão. Quando essas palavras foram ditas a seu respeito, Davi era desconhecido, vivendo seus dias nos campos de Belém, onde cuidava das ovelhas de seu pai. Foi lá, na obscuridade, e talvez na solidão, que ele desenvolveu seu espírito de louvor. Posteriormente, isso se tornou público e todo o povo recebeu dos benefícios disso, mas seu começo foi forjado em vida simples e humilde com Deus. Como o jovem que o recomendou ao rei Saul teve conhecimento desse dom? Parece que ele ouviu Davi, e aparentemente foi o único que o conhecia. Não queremos enfatizar muito esse ponto, e, ainda assim, é bem patente que aconteceu algo nos campos de Belém, que produziu os fundamentos da vida futura de Davi. Ele mesmo se referiu a isso quando se ofereceu para sair e lutar contra Golias. Foi nos assuntos comuns do dia a dia que ele experimentou a realidade da presença do Senhor, aprendendo os segredos de uma vida ungida.


Desse fato, surge imediatamente o lembrete de que, na obra do Senhor, não precisamos nos esforçar para avançar, nem ser empurrados pelos outros. Nossa primeira preocupação deve consistir no exercício pessoal em direção à Deus. Se, em sua história secreta, você ministra para o Seu bom prazer, sem o estímulo que provém de aplausos e reconhecimento público, mais cedo ou mais tarde, esse ministério se tornará aparente. Deus cuidará disso. Não se preocupe muito com a obra de sua vida; se você tiver uma vida de adoração oculta, isso se mostrará no serviço para o qual Ele o chamou. Deus sempre descreveu Seu serviço como adoração, e considerou a adoração como premissa básica para Seu serviço. “Deixa ir meu filho, para que me sirva", disse o Senhor a respeito de Israel (Êx 4:23). E como Israel O serviu? Por meio da adoração. O ponto importante é que isso não começou na vida pública, mas a vida de louvor de Davi foi o resultado de uma atitude de adoração do coração, e essas canções de louvor expressavam sua devoção ao Senhor. Às vezes, talvez, as canções fossem sem palavras, formadas apenas por uma melodia interior para o Senhor.

Podemos observar que essa primeira menção à música na vida de Davi está associada aos poderes malignos oprimindo o rei Saul. Saul recebeu a mais elevada oportunidade, mas foi desobediente, tomando a iniciativa para realizar coisas, enquanto tinha uma palavra clara para esperar por Deus. “Esperarás, até que eu venha ter contigo" [1Sm 10:8] - mas Saul não pôde aguardar. Ele era inquieto, impaciente; e, tomando a frente nas coisas de Deus, ele se aliou aos poderes do mal. Samuel disse a ele: "Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria..." (1Sm 15:23). A rebelião vincula o homem aos poderes malignos. Assim, ao tentar resolver as coisas por si mesmo, Saul não apenas as perdeu, mas também permitiu que Satanás se firmasse em sua vida. Este tem sido o objetivo de Satanás desde o início, afastar as coisas de Deus, trazendo-as para si. Em sua manifestação final na pessoa do Anticristo, ele se sentará no templo de Deus, afirmando ser Deus, e será adorado como tal. Essa é a sua ambição. Davi tinha um caráter oposto ao de Saul, pois o motivo de sua música era trazer toda a glória a Deus. Vemos dois reinos, um tirando de Deus, e o outro Lhe concedendo tudo. Não é de se admirar que Saul se tornasse no pior inimigo de Davi.

Desde o inicio de sua vida, Davi transformava tudo que vivenciava em música. Todas as suas experiências, sua história, se transformou em música. É muito bom estudar os Salmos que tem uma introdução com explicações da ocasião na qual foram escritos. Mesmo quando Absalão o expulsou do trono, Davi transformou aquela experiência amarga em uma canção (Salmo 3). Todo o valor de seus Salmos é que eles surgiram de uma experiência vital de Deus. O volume dos Salmos tornou-se no livro de louvores de Israel, até que finalmente Davi organizou tudo para a adoração no templo. Ele reuniu um coro de quatro mil vozes e, assim, organizou o seu louvor em vinte e quatro turnos, para que o louvor nunca cessasse em Israel, dia e noite. Assim que um turno terminava, o próximo assumia o controle e, assim, se passavam as vinte e quatro horas diárias, toda semana e todo mês, durante todo o ano. Dessa maneira, havia um fluxo ininterrupto de adoração a Deus.

Até os momentos mais profundos e sombrios da vida de Davi foram transformados por em Salmos de louvor a Deus. Ele teve seus fracassos, suas tragédias e até mesmo seu pecado desesperador, mas em tudo isso encontrou perdão e restauração, quando se voltou de todo coração para Deus. É por isso que ele era tão amado por Deus, porque nunca falhava em encontrar seu caminho até Ele por meio da adoração. E a adoração sempre se mostrou a arma mais poderosa contra o reino das trevas. “Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu" [Ap 5:5] é parte do cântico celestial e, como Judá significa 'louvor', isso sugere que há um poder vitorioso militante no louvor espiritual. Muitas vezes, Martinho Lutero encontrava seu escape por meio disso. Ele conhecia muito do ataque dos poderes satânicos; e às vezes parecia estar envolvido em um conflito corpo a corpo com o diabo. Sua única resposta, porém muito eficaz nesses momentos era dizer: 'Vamos cantar, irmão'!


O Salmo 22 é um dos grandes Salmos Messiânicos compostos por Davi e, embora ele se inicie com um clamor consternado por ser abandonado por Deus, logo irrompe um apelo Àquele que habita entre os louvores a Israel (versículo 3). É como se Deus recebesse um trono para governar, quando Seu povo O adora e louva. Isso não é uma coisa de pequena importância. Novamente, no Salmo 114:2, ao referir-se à procissão gloriosa do Egito na direção à herança [em Canaã], o salmista nos diz que: "Judá se tornou o seu santuário". Esta é apenas uma maneira figurada de dizer que os louvores do Senhor concedem-Lhe uma santa morada. O louvor estabelece Deus no lugar certo, que é acima de tudo. É uma coisa tremenda poder colocar o Senhor sobre todas as coisas, acima dos colapsos, das perplexidades e do sofrimento, acima dos nossos inimigos, fracassos e até mesmo dos nossos pecados. Foi isso que Davi fez, e essa é certamente a realidade espiritual que está por trás da descrição: “sabe tocar”.

Louvor, o verdadeiro louvor, significa que estamos do lado da vitória. É claro que existe um tipo de canto que é, de fato, uma confissão de derrota. Me refiro a uma canção para manter o ânimo, um assobio nas trevas, para fingir que está tudo bem. Davi não precisava fazer isso, pois a declaração final a seu respeito era que "o Senhor era com ele". Essa foi tanto a razão como o resultado do louvor de Davi. No entanto, apesar de ser adorador, sempre louvando, por vezes Davi mergulhava nas profundezas do desespero, precisando confessar que, ao cantar, sua alma estava abatida e inquieta dentro de si. Ainda assim, ele tinha uma resposta para isso. Contemplar o dia da libertação, que certamente viria: 
“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois AINDA o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmo 42: 5).

Temos o registro do final da história no livro do Apocalipse, que nos dá vislumbres do coro glorioso dos remidos no céu. Naquele dia, todos saberemos tocar, e será verdade, no sentido mais pleno, que o Senhor estará conosco. Portanto, louvemos ao Senhor pois AINDA mais O louvaremos. Essa revelação, por si só, nos conduz à uma experiência atual de vitória.

2. “Forte e valente”

Isso nos leva diretamente ao segundo aspecto da vida deste homem ungido, a saber, que ele era um homem de grande coragem. Davi pode não ter sido tão impressionante em termos físicos quanto seus irmãos, mas, por ter coragem espiritual e moral, foi considerado um homem poderoso. A bravura começa a nos dominar, conquistando nossos próprios humores e sentimentos; tendo seu desenvolvimento inicial dentro de nós, não nas coisas exteriores. Às vezes, não é tão difícil sermos corajosos quando temos platéia, e somos inspirados a ter coragem pelo fato das pessoas estarem nos assistindo, mas é muito mais difícil sermos corajoso quando estamos sozinhos. Mais uma vez, observamos que Davi foi considerado um homem de valor enquanto estava em segundo plano, e não era observado pelas pessoas em geral.

É claro que também existem novos desafios para o homem exposto a testes públicos, mas quando isso aconteceu, Davi confirmou que a estimativa original de seu valor era correta, pois pela graça de Deus ele se manteve fiel nas muitas tentações de dúvida e temor. Quando os filisteus o prenderam em Gate, ele declarou: "Em me vindo o temor, hei de confiar em ti" (Sl 56:3). É o medo que rouba a coragem de um homem. O medo entrou no mundo junto com o pecado, e governou o comportamento humano desde então, assim como exerce um poder terrível entre os espíritos malignos (Tg 2:19). Se o pecado gera medo, a coragem geralmente depende de uma boa consciência. O homem mais destemido ou corajoso que já andou nesta terra foi o Senhor Jesus, cuja notável coragem moral foi baseada em um caminho absolutamente claro entre Ele e Seu Pai. Uma má consciência nos torna pequenos e covardes, enquanto que uma boa consciência nos concede estatura e ousadia. Davi estava longe de ser um homem sem pecado, mas aprendeu o segredo de como se acertar com Deus. Um grande tema de seus Salmos é a bênção do perdão e da justificação pela fé em nosso Deus, Salvador.

Nosso valor também depende de uma fé completa no Senhor. Davi creu em Deus cegamente; creu e amou. Percebemos isso largamente nos Salmos. Somente o perfeito amor pode expulsar o medo. Toda nova experiência de Deus que veio a Davi o deixou mais preparado para confiar no Seu grande amor e amá-lo em retribuição, fato que sem dúvida o estabeleceu cada vez mais como um homem valente. O Senhor edificou sua força ao levá-lo a circunstâncias difíceis e adversas nas quais experimentou do amor inabalável de seu Deus. Então, quando ele cresceu em coragem, foi capaz de empreender coisas completamente além de sua medida, pelos interesses do Senhor. Probabilidades não lhe interessavam, desde que ele tivesse certeza de que o Senhor estava com ele. Ele também provou sua coragem em esperar por Deus e permanecer esperando nEle sem reclamar, mesmo quando as coisas pareciam estar tomando o caminho contrário. Para um homem de ação estar incapacitado, e precisar suportar, ser paciente enquanto espera em Deus, demanda por muita coragem. Houve momentos em que Davi poderia ter agido em desespero para se livrar de seu grande inimigo Saul, mas ele se recusou a fazê-lo. Ele estava preparado para esperar em Deus. Quando aprendemos essa lição, estamos aprendendo um valor de uma ordem muito elevada.

3. “Homem de Guerra”

Em terceiro lugar, Davi era um guerreiro. Essa é a primeira referência indicando a guerra constante que deveria ser uma característica de sua vida. Davi deveria ser um lutador, não por ser pessoalmente agressivo, por precisar gastar energia, ou por ser treinado ou qualificado em assuntos militares, mas pelo seu zelo pelos direitos de Deus. É bastante claro que foi isso que despertou seu espírito: uma indignação pelo fato do nome de Deus estar sendo desonrado e uma preocupação pelo bem estar do povo de Deus. Tudo derivou de um senso de responsabilidade pelos interesses do Senhor, tornando-no num lutador. Ao dizer disso, somos remetidos às palavras desse outro grande guerreiro espiritual, Paulo: "Sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho" (Fp 1:16).

Como dissemos, tudo na vida de Davi teve início nos assuntos simples e humildes de sua vida cotidiana. Sua primeira luta foi por um cordeiro. Apenas um cordeiro! Por que arriscar sua vida por apenas um cordeiro? Seu pai era um homem de relativas posses - considerando seus presentes ao rei e aos irmãos mais velhos [1Sm 17:17,18] - nunca sentiria falta de um cordeirinho. Certamente o leão poderia ter devorado aquele! Mas não, aquele cordeiro era responsabilidade de Davi, fazia parte dos bens do seu pai que lhe haviam sido confiados. Foi esse sentimento de preocupação pelos interesses de Jessé que o levou mais tarde a ter o mesmo encargo pelos interesses de Deus, fazendo dele o lutador que ele foi.

A guerra, no entanto, exige total abnegação. Aqueles que têm problemas e interesses pessoais podem guerrear de maneira errada. Esses nunca serão bons soldados do Senhor, nem combaterão o bom combate da fé. Aqueles que passam todo o tempo reclamando e criticando estão fazendo o trabalho do inimigo. No deserto, Israel foi derrotado não por inimigos externos, mas por suas queixas e murmúrios internos.

Você pode pensar que tem muitas razões para murmurar, o próprio Davi teve momentos em que sentiu que estava sendo muito mal tratado, mas descobriu - como também faremos - que a devoção sincera aos interesses do Senhor é o caminho certo da vitória. O homem de guerra de Deus também é um adorador; sua boca deve estar cheia dos altos louvores do Senhor. Se a adoração acontecer primeiro, ocorrerá um afastamento dos problemas egoístas e pessoais, possibilitando uma concentração total de todo o coração na honra do nome do Senhor.

Somente assim o homem de Deus pode ser um verdadeiro guerreiro. Isso nos leva a um ponto muito prático: a primeira fase da guerra espiritual e todas as batalhas subsequentes demandará por uma nova entrega ao Senhor. Esse é muitas vezes o segredo do sucesso, e especialmente no caso do cristão cujos inimigos são espirituais, e que não é chamado para conflitos ou triunfos pessoais, mas para participar da batalha de Cristo contra o mal, participando de Sua vitória.

4. “Sisudo em Palavras”

David era conhecido por ser prudente em palavras ou, como é traduzido na Versão Autorizada (AV), ele era "prudente nas questões". Davi era um homem discreto, de sábios conselhos e que podia falar por Deus, por ter aprendido a ouvi-Lo. Talvez o fato de ter sido ensinável tenha sido uma de suas excelentes qualidades. A pessoa que é auto-suficiente, que pensa que sabe muito, nunca será capaz de falar sabiamente por Deus.

Alguns de nós pode ter sentido, às vezes, que Deus não pode nos usar, por nos faltarem as qualificações ou habilidades naturais que os homens consideram necessárias para servi-Lo. A prudência a que nos referimos aqui não é uma qualidade natural, mas é uma característica espiritual de quem realmente sabe o que é ter o Senhor com ele. O Senhor não está buscando esperteza. De fato, muitas vezes Ele não pode usar as pessoas porque elas são muito inteligentes, nas suas próprias estimativas. A capacidade de ser ensinável, no entanto, é uma qualidade que Ele valoriza grandemente, e isso é uma questão tanto do espírito quanto da mente. Muitas vezes existe uma grande diferença entre conhecimento e a sabedoria, ou diríamos a prudência. O conhecimento pode consistir em uma massa de informações corretas, mas sabedoria significa saber aplicar esse conhecimento de maneiras boas. É possível que um cristão tenha uma vasta quantidade de informações espirituais, conhecendo bem o que a Bíblia ensina e o que os comentaristas sugerem, mantendo tudo isso na mente ou no caderno, mas com poucas evidências disso nos valores práticos da vida. A sabedoria é uma questão de usar as informações corretamente, transformando-as em algo que traga glória de Deus.

Além disso, essa sabedoria será sempre construtiva. Há alguns que pensam que mostram sua sabedoria superior pela sua capacidade de criticar. Se eles puderem apontar uma falha ou descobrir algumas faltas, consideram que estão sendo sábios. Mas o efeito de suas ações é destrutivo, enquanto as Escrituras deixam claro que a verdadeira sabedoria é sempre construtiva. Salomão, o rei mais sábio de todos, foi um grande construtor, e foi ele quem escreveu sobre a sabedoria edificando sua casa (Pv 9:1). Tanta coisa está escrita no Novo Testamento a respeito de um discurso voltado para edificação que parece implicar que, se nossas línguas não podem contribuir para uma ajuda positiva dessa maneira, é melhor permanecer em silêncio. A sabedoria é sempre mostrada em seus valores de edificação.

De fato, a sabedoria sempre atua por meio da capacidade de discriminar o que é para a glória de Deus. Nada mais importa. A presença do Espírito em um homem é evidenciada pela maneira pela qual ele evita aquilo que entristece a Deus, e se dedica ao Seu prazer. Se o Senhor estiver com ele, então ele será prudente em suas questões.

5. “Boa Aparência”

O veredicto final de Davi foi que ele era uma pessoa agradável, um homem de boa presença. É claro que Deus pretendia que isso fosse uma verdade para todo ser humano. De um certo ponto de vista, esse é o tema da Bíblia. "Façamos o homem à nossa imagem", disse Deus [Gn 1:26]. Naquilo que dizia respeito ao homem, Deus sempre teve a perfeição como Seu propósito. Por meio do pecado, no entanto, o homem tornou-se atrofiado, deformado e repulsivo para Deus, e ele sempre permaneceria assim, se o Senhor Jesus não tivesse trazido uma salvação que torna os homens perfeitamente inteiros. Enquanto o Salvador passava pelo caminho, encontrava cegos, paralíticos, deformados e lhes falava palavras de libertação e transformação, deixando-os inteiros novamente - eles eram salvos. Seu propósito eterno na salvação é ter filhos conformados com Seu Filho eterno, que é de fato a Pessoa Graciosa e Agradável.

Davi é um prenúncio desta poderosa obra de salvação. Aquele que por natureza receberia a repulsa de um Deus santo (nascido em pecado e moldado em iniquidade) tornou-se num homem segundo o coração de Deus, de presença agradável, que podia ser visto e admirado. Pode ser útil considerar algumas de suas características, e a primeira é, sem dúvida, a mansidão. Davi nunca se considerava tão bom quanto os outros homens, ao contrário, sempre se considerava o mais pobre dentre eles. O vazio do ego é a própria essência da mansidão. Veja também como Davi sofreu quando as coisas davam errado. Nunca por um momento ele culpava ninguém, mas sempre condenava a si mesmo. Se já existiu um homem cheio ao ponto de transbordar com a consciência da maravilhosa misericórdia de Deus para com um pecador, esse homem foi Davi. Veja novamente como ele sofreu injustamente, sem se tornar vingativo. É uma marca de mansidão suportar injustiças e não ficar amargurado em decorrência disso. Durante anos, Davi suportou tanto mal da parte de Saul e, ainda assim, se recusou a se vingar, mesmo quando isso poderia ter sido tão fácil. Quando Saul morreu em batalha, Davi não se regozijou, tampouco expressou alívio, mas realizou uma da mais belas lamentações de pesar por Saul e por seu filho Jonatas.

Outra coisa que tornou Davi tão excelente foi a maneira como ele acumulou riquezas para a casa de Deus. Ele se apossava de todas as suas experiências de sofrimento e espremia dali algo para Deus e Seu povo. Ele passou por uma experiência profunda e sombria? Então ele a tomava e extraía dela algo que enriqueceria as próximas gerações. Foi assim que obtivemos nosso Saltério. Essa não é a maneira que uma pessoa pequena vê as coisas, pois ao enfrentar seus problemas, essa pessoa se entrega a si mesma, cedendo à autopiedade. O homem grandioso, no entanto, faz exatamente o mesmo que Davi fez, usando sua adversidade como fonte de conforto e ajuda aos outros.

Uma outra característica da estatura espiritual e moral de Davi foi sua paixão singular. "Pois tenho suportado afrontas por amor de ti, e o rosto se me encobre de vexame... Pois o zelo da tua casa me consumiu" (Sl 69:7, 9). A preocupação suprema de Davi era pela casa do Pai, e nisso ele era um verdadeiro tipo de Senhor Jesus a quem essas mesmas palavras são aplicadas. Ele tinha uma grande preocupação com a glória do Pai, e uma tremenda coragem para tornar essa preocupação em ação. Davi era assim. Muito está escrito nos livros de Samuel e Crônicas sobre sua preocupação com a casa de Deus. Essa era sua paixão singular e unificadora. Sua vida era uma unidade governada por tal singularidade de propósitos, e foi isso que o tornou grande. Ele tinha qualidade espiritual; era um homem de boa presença. Deus não obtém glória de nossa pequenez, nossos ciúmes mesquinhos e nossa ocupação egoísta. Mas quando crescemos espiritualmente, deixando para trás todas essas coisas infantis, então a glória de Deus começa a ser vista em nós.

Mas tudo isso era manifestado porque o Senhor estava com Davi. Ele mesmo estava ciente dessa Presença, embora às vezes fosse tentado a questionar e duvidar disso. O que é mais importante é que outras pessoas perceberam. Isso é o que mais importa. Será que quando as pessoas nos conhecem, encontram o Senhor? Quando o Senhor Jesus veio a esta terra, ele foi chamado "Emmanuel" - Deus conosco. O veredicto de Sua vida depois de voltar à glória foi: "Deus era com ele" (At 10:38). E o Espírito Santo veio para tornar isso real em nossa experiência. Sua unção significa que o Senhor está conosco, e isso deve tornar aquelas cinco qualidades efetivas em nossas vidas, da mesma forma que foram observadas no jovem Davi. Desfrutar da presença Senhor teve um alto preço para Davi. Custou-lhe sua a casa; custou-lhe o adiamento de ser recebido em seu legítimo lugar como rei; custou-lhe conforto e popularidade. No entanto, essa presença deu a ele aquilo que é mais valioso do que todos os tesouros terrenos. Isso lhe deu a suprema alegria de trazer prazer ao coração de Deus. O Senhor estava com ele.

Publicado na revista “Toward the Mark”, nos meses de Nov e Dez de 1975, Vol. 4-6..

Origem: “The Lord is With Him”


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