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A lei das dores de parto

por T. Austin-Sparks

”E à mulher disse [DEUS]: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos... E a Adão disse... maldita é a terra por tua causa; em fadigas (sofrimento) obterás dela o sustento durante os dias de tua vida... No suor do rosto comerás o teu pão" (Gênesis 3:16,17,19).

"Pois a criação está sujeita à vaidade... Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora". (Romanos 8:20,22).

O fato da existência da lei das dores de parto em toda a criação é indiscutível. Sabemos que essa é uma verdade fundamental da Bíblia e foi imposta pelo Criador por causa do pecado. O senso comum dita que isso não estava na concepção inicial de Deus, que é algo contrário à natureza do homem. Podemos tentar extrair o sentido e a causa da necessidade dessa lei considerando o ato Divino e o ensino contido na Palavra. Qual é esse significado central dessa lei?

Resumidamente: O que custa pouco é pouco valorizado. O que vem fácil, vai fácil. Aquilo que nos custa sofrimento, torna-se precioso para nós. Aquilo pelo qual sofremos não é desprezado, mas zelosamente preservado.

Isso nos leva a uma suposição e uma dedução quando tentamos descobrir a causa da introdução dessa lei. Mas observe, essa lei não foi estabelecida com parcialidade. Não foi imposta somente à mulher, mas ao homem também. Depois somos informados de que "toda a criação ... geme e suporta angústias".

Somos levados a concluir que o comportamento de Adão e Eva no jardim indicava uma grave carência de senso de reverência e apreço pelo que haviam recebido. Tudo havia sido criado e dado a eles para assumissem o encargo e responsabilidade de preservar o que lhes havia sido entesourado. Eles eram os guardiões dos interesses Divinos. Aquele casal tinha imensas e gloriosas possibilidades diante de si, tudo que existia naquela ocasião apontava para coisas maiores, devia ser guardado de forma sagrada e ser zelosamente conduzido até sua plena realização. Tudo indica que as coisas foram tomadas como garantidas, como naturais. Eles careciam de um senso de valores adequado e governante, pois olhavam para as coisas ao seu redor à luz de como elas serviam aos seus próprios deleites. Essa fraqueza e carência foram amplamente exploradas pelo perspicaz tentador, e serviram de base para seu ataque. Consequentemente, a lei das dores de parto foi estabelecida para contrariar essa disposição.

O homem precisava perceber que Deus dá valor a Seus dons e que tudo dentro de Seus propósitos é caro e precioso. Não estamos preparados para sofrer por uma coisa que estimamos levianamente. Isso é visto de forma evidente e clara na redenção. Independente de considerarmos a redenção básica na Cruz de Cristo, a redenção progressiva na vida do cristão ou a sua consumação na redenção do 'cativeiro da corrupção' e 'revelação dos filhos de Deus', vemos como sua concretização demandou um alto preço de angústia e dores de parto [conf. Rm 8:19, 21]. Cristo viu o fruto do penoso trabalho de Sua alma [conf. Is 53:11]. A Igreja e os verdadeiros cristãos atingem a plenitude espiritual por meio da "comunhão de seus sofrimentos" [Fp 3:10]. A própria criação chegará à glória por meio de grandes convulsões e angústia. Tudo isso está registrado na Bíblia.

Mas vamos retomar o ponto específico de nossa mensagem e sua aplicação. Se Deus concede algo livre e abundantemente, Ele espera encontrar como contrapartida uma demonstração de responsabilidade e encargo por esses dons por meio de séria e reverente consideração, respeito e apreço por eles. A salvação muitas vezes é apresentada de forma muito barata, e algo que custou um preço indescritível é revertida no deleite de quem a recebe. Como resultado, quando provação e adversidade forem ordenados para atestar o verdadeiro valor do que fora recebido, muitos ficam desapontados e vão embora. Eles não perceberam o real valor do que receberam, ao ponto de acreditar que seja algo pelo qual se valha a pena sofrer.

Se o Senhor conceder um ministério rico e valioso ao Seu povo, mais cedo ou mais tarde os envolvidos passarão por um tempo quando tudo se resumirá em profundas e desesperadas dores de parto, e o valor desse ministério será provado pela estimativa dada àquilo que foi recebido. O mesmo é verdadeiro com respeito àqueles que ministram. Um verdadeiro servo de Deus é aquele que gera sua mensagem em meio ao sofrimento e a dor. Seu ministério deve trazer a marca de uma história profunda com Deus. Um serviço litúrgico, meramente ritualístico, ainda que executado com devoção, não produzirá homens e mulheres espirituais. Isso pode até tornar as pessoas religiosas, o que também é verdadeiro em outras esferas além do Cristianismo.

As dores de parto de Cristo não aconteceram porque não existia religião. Pelo contrário, havia muita religião em Jerusalém e em outros lugares. Entretanto, havia pouca ou nenhuma percepção do alto valor das dádivas de Deus. Vemos no caso de Israel, em dois mil anos de angústia, como Deus não tolera que Seu maior Dom - Jesus Cristo, Seu Filho - seja descartado e considerado levianamente, como Israel imaginava que podia fazer.

As dores de parto de uma mãe se relacionam com seu amor pelos filhos, a menos que ela seja absolutamente anormal. Quando o fazendeiro ou jardineiro labuta, trabalha, e passa dias e noites ansioso durante sua colheita, não estima levianamente a semente ou o solo, pelo contrário, tem forte apreciação por eles, tratando-os com extremo cuidado.

Vamos olhar o sofrimento e a adversidade como a maneira de Deus nos conduzir à uma percepção da Sua estimativa daquilo que Ele nos concedeu. 'Aquele que mais sofreu, mais tem a oferecer.'

Primeiramente publicado na revista “Uma Testemunha e um Testemunho de Jul-Ago 1961, Vol 39-4.

Origem: “The Law of Travail”


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