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Tornou a fazer dele outro vaso

por T. Austin-Sparks

Publicado pela primeira vez como um editorial na revista "A Witness and A Testimony", Jan-Fev 1960, Vol 38-1. Origem: “He Made it Again”.

“Tornou a fazer dele outro vaso” (Jeremias 18:4).

Temos uma crise na história do barro. O Oleiro foi forçado a reduzi-lo à uma massa disforme. Depois de longo e paciente esforço, um árduo trabalho, Ele foi obrigado a tomar essa decisão triste e dolorosa. O barro deveria ser quebrado e passar por um período em que parecerá - mas só parecerá - que o Oleiro o descartou. Durante esse tempo, o barro - porque não é uma mera matéria inanimada e insensível, mas uma pessoa consciente de Deus - terá a oportunidade de considerar sua condição à luz do passado e entender por que está passando por essa tragédia.

Nesta crise da Casa do Oleiro, precisamos ler a história de Israel e a história de muitas obras que Deus empreendeu, seja na Igreja ou em vidas individuais. Temos dois ou três aspectos desta crise.

Primeiramente, o barro - o material do vaso - foi selecionado, escolhido. Mas o critério dessa escolha não foi devido a uma qualidade superior desse barro em relação aos demais. Aquele barro era parte da massa da humanidade. Haviam diversas considerações para justificar que ele fosse deixado em seu estado de abandono, sem nenhum mérito para demandar que fosse considerado. Ele era tudo o que não deveria ser e não era nada do que deveria ser para satisfazer as exigências de Deus. Sua seleção foi toda um ato de graça.

“Demonstrar amor aos que dele carecem (desagradáveis)".

Mas no mistério e potência da graça ele foi tomado, separado e trazido para a roda do propósito Divino [conf Jr 18:3]. Foram dadas a ele promessas e alianças; com conforto e exortação; com instrução e advertência; com súplica e amor. Não apenas por meio de palavras, mas de obras; estranhas e confusas, profundas e dolorosas, graciosas e gentis. A combinação de palavras com ações constituíam o objetivo do Oleiro de produzir um "utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” [2Tm 2:21].

De tempos em tempos, uma sombra de advertência surgia no rosto do Oleiro, e isso indicava que nem tudo estava indo bem com o barro. Havia algo inconsistente com Seu objetivo. Seus dedos sensíveis encontraram alguma substância estranha e inflexível. Ele acrescentou um pouco mais de pressão por meio da dor, da advertência, da instrução, da exortação; mas essa propensão, essa aderência, ainda persistia.

Por fim, após um longo e completo esforço, o Oleiro teve que dizer 'não posso prosseguir, a única esperança é adotar caminhos de confusão, suspense e colapso'.

Nessa condição o barro foi levado a muito exame do coração, no qual, como aconteceu com Davi depois de seu grande erro com o carro filisteu [2Sm 3], suas razões foram perscrutadas.

Como essas razões foram buscadas com o coração quebrantado, o Oleiro, finalmente, começa a falar novamente ao barro.

Algumas das coisas que Ele disse foram as seguintes:

1. 'O fato de Eu ter te escolhido em graça soberana, e assim ter tomado a iniciativa de colocá-lo como parte do Meu grande propósito, nunca teve a intenção de exonerá-lo de ser uma substância responsável e cooperativa. Em vez disso, te envolveu na obrigação de um amor responsivo e uma entrega em gratidão. Minha própria misericórdia e bondade, para não falar da imensa glória que estaria reservada no fim, pretendia inculcar em você Minha própria natureza de graça e abnegação. Mas você viu tudo isso objetivamente e agiu como se tivesse pouco ou nada a fazer para "confirmar sua vocação e eleição" [2Pe 1:10].’

2. 'Então, você falhou em dar atenção suficiente a outro fator vital. Eu lhe dei muita luz e verdade. Meus servos se levantaram cedo e oraram até tarde para obter para você a verdade que poderia conduzir à "conformidade à imagem" que tenho em vista. Durante um longo período você vem recebendo e recebendo, até o ponto de não conseguir mais suportar. Mas você não deu atenção ao fato de que não é suficiente ter luz e verdade sem andar nelas, e tê-las "no interior". Você deixou de lembrar que as maiores tragédias acometeram aqueles que tiveram mais luz e não a transformaram em vida e caráter. Você tem a verdade em abundância, mas ela não está em você. Há uma lacuna entre o que você sabe na teoria e o que você é'.

3. 'Além disso, novamente, a grandeza de Minha graça, a paciência de Minha longanimidade e a prodigalidade de Minha luz só se somaram para torná-lo espiritualmente orgulhoso, vaidoso e superior. Você se tornou egocêntrico e limitado. Em todos os Meus pensamentos e obras em relação a você, Eu tinha um vaso em mente, e não um mero ornamento em um pedestal, mas um vaso para uso. Uma grande vocação mundial absorve a todos que estão Comigo, mas você alimentou sua própria alma e não entesourou e valorizou o suficiente a grande honra e responsabilidade de ter um ministério dirigido à todo o mundo. Essas são algumas coisas que me impedem de prosseguir, daí a crise de frustração, confusão e suspense'. (Podemos reconhecer que essas foram algumas das coisas que constituíram a controvérsia de Deus com Israel e que os levaram à crise do exílio, quando o barro foi posto de lado por algum tempo. São tendências de todos os tempos entre o povo de Deus).

O Oleiro espera. Ele vê reconhecimento, arrependimento, remorso e submissão? Se assim for - "Ele tornará a fazer outro vaso".

Deus não abandona definitivamente um plano ou propósito. Até mesmo Suas relações mais drásticas nesta vida são baseadas em esperança. Ele é "o Deus da esperança" [RM 15:13].

Abrimos a Bíblia e vemos a terra em um triste estado de caos, sem forma e vazia, mas "Ele a fez de novo". Vemos a raça humana em terrível desolação pelo pecado de Adão, mas "em Cristo há uma nova criação". "Ele fez de novo".

Israel no Egito está em uma situação triste e devastada, mas "Ele conseguiu novamente". Israel na Babilônia é o barro descartado e - por enquanto - rejeitado; mas "Ele fez de novo". Pedro foi atingido, disperso e desolado por ter negado seu Mestre; mas "Ele fez de novo".

João Marcos, sem dúvida, teve muitas horas comoventes e de autocensura depois de abandonar o trabalho; mas "Ele fez de novo". Esta é a história e - graças a Deus - o testemunho de muitos “vasos terrenos quebrados”. "Ele fez de novo... como pareceu bem ao oleiro".

À medida que avançamos para este novo ano de 1960, e talvez todos estejam cientes de como falhamos e decepcionamos as esperanças e expectativas anteriores, não vamos nos concentrar no fato de que o vaso "foi estragado na mão do oleiro", mas que Ele "tornou a fazer dele outro vaso, como bem lhe pareceu”. Toda a obra de Deus termina com um: “Muito bom" [conf Gn 1].


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