A Clínica Espiritual (1946)
por T. Austin-Sparks

Capítulo 1 - Paralisia

A Paralisia de Expectativas Desiludidas

Não são poucos os exemplos típicos da paralisia causada por expectativas desiludidas na Palavra de Deus. Alguns são percebidos por meio de expressões arremessadas e fragmentadas, como a usada por Jó: “se malograram os meus propósitos” [Jó 17:11]; ou na expressão daqueles dois discípulos na estrada para Emaús: “nós esperávamos” [Lc 24:21], ou, nas palavras de João Batista: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” [Mt 11:3].

E aquele homem que ficou conhecido como o “Rico Insensato”, existem dois fragmentos na narrativa: “E disse…Mas Deus lhe disse…” [Lc 12:18;20].

Em cada situação havia um chegar ao fim, a um beco sem saída, uma paralisia. Cada uma delas era representada por uma expectativa falsa.

Pelo menos dois exemplos (como o de João Batista e dos discípulos na estrada de Emaús) foram considerados por uma concepção errônea. Essa concepção é muito abrangente hoje e se tornou responsável por muito engano; e ele funciona duas formas. Por um lado muitos desistem em desespero - como João Batista - porque as questões nas quais eles vieram a crer eram inseparáveis de uma certa aceitação de uma linha de ação que não se seguiu; de resultados que não aconteceram e de um sucesso que não se materializou. Por outro lado muitos são iludidos por essa falsa concepção a pensar que um certo tipo de sucesso, crescimento, popularidade e conquista é O alvo, enquanto que - de fato - o supremo espiritual valor está quase que totalmente ausente.

Nos dois casos temos pelo menos duas concepções errôneas fundamentais que causaram a paralisia. Uma foi a falha em reconhecer a natureza primária, inicial e essencialmente espiritual da missão e obra de Cristo. Na mente deles o temporal e terreno se sobrepunha no horizonte, excluindo o espiritual e celestial. Achamos desnecessário mostrar o quanto isso acontecia. É uma das coisas mais óbvias nos Evangelhos, e foi um dos maiores problemas do Mestre com Seus discípulos. Repetidamente, Ele tentou trazer luz para corrigir essa concepção errônea, e sabia que isso seria uma base sob a qual eles finalmente ficariam ofendidos, a dificuldade pela qual todos tropeçariam, quando O vissem como uma vítima aparentemente indefesa na Cruz.

Também houve um equívoco total com relação à ordem dos eventos, como Atos 15:14-16 claramente demonstra. Havia uma completa incapacidade de reconhecer o propósito, método, meios, tempo, instrumento, base e paixão Divinas. Isso deixou entrar em cena os interesses pessoais, preocupações, ambições e falsas ansiedades. A frustração desses interesses, e a desilusão da Cruz esmagaram-nos e a todo o seu esquema.

“Nós esperávamos”, disseram eles; mas o pensamento deles era terreno. Algo da “visão celestial” é essencial para vida, certeza, fé e ascendência. Vamos descobrir que antes que possa haver uma manifestação da soberania de Cristo em relação à terra e ao mundo em um senso proporcional; haverá uma intensa gravitação celestial e espiritualidade na vida e obra daqueles que são chamados para compartilhar o trono.

Independente do que estivesse passando pela mente de João levando a sua mensagem patética e desesperadora, é quase certo que sua própria condição apresentava um problema gerado por uma ideia equivocada. Poderia ser algo assim: “Se Ele é realmente Cristo, e tudo que foi profetizado a respeito Dele é verdade - tudo que é dito sobre libertar os prisioneiros e oprimidos - por que tendo eu tal relacionamento com Ele, e tendo-O servido como servi, deveria ser deixado nessa masmorra? Há relatos de milagres e obras poderosas. Por que me resta sofrer assim?” Esse problema chega bem próximo do coração de muitos do povo do Senhor. Sabemos da parte do próprio Mestre que Ele estava longe de ignorar ou esquecer João. No caso de João, é certo que, não foi devido ao pecado nem foi por esquecimento Divino, que ele foi deixado em sua tribulação sem livramento. A razão será encontrada em outro lugar.

Seria bom ouvir alguém que teve uma expectativa diferente, sem desespero: “o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações” [At 20:23]. Esse tinha muito a dizer sobre a fecundidade espiritual de suas cadeias.

“Para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias” [Ef 6:19,20].

“De maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” [Fp 1:13].

“E a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” [Fp 1:14].

“Que gerei entre algemas” [Fm 1:10].

Pode parecer injusto fazer uma comparação entre esses dois homens, mas apenas faço isso porque ele encontrou tanto onde João esteve; e quem sabe se Paulo algumas vezes não foi tentado a se sentir como João? Os fatos são que frequentemente existe um serviço mais amplo por meio de um encurtamento, uma vida mais plena por meio de uma morte mais profunda, um maior ganho através de uma perda mais aguda; e precisamos olhar para o impacto da operação de Deus em nós na esfera que o olho do homem não pode ver. O Mestre disse que João foi o maior dos profetas; e ele, que não foi menor do que eles, precisou entregar sua vida e sofrer até a morte pelo seu testemunho. Há evidentemente aos olhos de Deus uma virtude em certos sofrimentos de Seus servos que tem uma maior importância para Ele, do que uma efêmera glória que pode ser dada a Ele por libertá-los. Existe uma bem-aventurança peculiar, à qual o Senhor referiu em Sua resposta a João, que pertence àqueles que sob severas provas “não se escandalizam Nele” [Mt 11:6]. De uma maneira estranha, João estava relacionado à Cruz e ao “Cordeiro de Deus”, e assim ele foi trazido à esfera da “ofensa da Cruz”.

O que esperamos em nosso relacionamento com “o testemunho de Jesus”? Supondo que os profundos propósitos de Deus somente podem ser realizados por meio Dele ocultar de nossa carne tudo o que ela anseia em seu desejo de sobrevivência, e mais, ao supor que Sua obra em nós, sob a qual fé e obediência triunfante assumem sua forma mais elevada, necessita de Seu ocultamento, aceitando o risco de ser considerado infiel? Não há dúvida que a maioria daqueles que foram chamados em algumas das mais vitais expressões do “propósito eterno” foram treinados na escola da aparente contradição, adiamento, retardo e trevas Divinas. Paulo escreveu aos santos de Tessalônica que “ninguém se inquiete com estas tribulações. Porque… estamos designados para isto” [1 Ts 3:3].

Jó, que clamou “se malograram os meus propósitos”, aprendeu que isso não importava muito, visto que os grandiosos propósitos de Deus permaneciam firmes. Tudo depende de sabermos se estamos em “Seu propósito” e no Seu caminho de realização, se no dia da provação triunfaremos ou ficaremos paralisados.

Jó encontrou forças em reconhecer que “ele cumprirá o que está ordenado a meu respeito e muitas coisas como estas ainda tem consigo”[Jó 23:14], a despeito dessas coisas serem bem diferentes de suas próprias expectativas.

Um relacionamento verdadeiro e correto com o Senhor é a base sobre a qual há absoluta confiança, segurança e esperança quando nossos propósitos e expectativas são despedaçados. Não foi assim no caso do “rico insensato”. “Ele disse…” - Ele tinha seus propósitos não relacionados à Deus. “Mas Deus disse…” que esse era o fim de todo o propósito.

Se tivermos a vida de Deus em nós podemos sobreviver a qualquer coisa. O Senhor não está lá fora para caprichosamente frustrar nossas esperanças ou desapontar nossas expectativas, mas Ele deseja mudá-las para as Suas ou satisfazê-las em uma esfera cada vez mais elevada.

Vamos acrescentar algo de conotação mais geral? Muitas coisas inesperadas, e bem contrárias às expectativas, podem acontecer conosco tanto nas esferas da experiência espiritual como do serviço Cristão, mas uma das formas mais amargas e fatais dessa paralisia surgem por meio de expectativas desapontadas relacionadas à pessoas. Davi disse em sua perturbação “todo homem é mentiroso” [Sl 116:11]; e muitos outros chegaram perigosamente perto de sentir que não ousam confiar em ninguém. A experiência de colapso de Davi, e pior, do amigo familiar que foi para a casa de Deus com ele, é a experiência de muitos outros. Líderes de confiança e altamente estimados, homens de Deus nobres e grandemente usados, aqueles que confiamos, admiramos e consideramos como autoridades e conselheiros, santos e profundamente instruídos, todas essas coisas de muitas maneiras diferentes nos fazem tremer sob o choque da desilusão. Uma manifestação de mau humor, irritabilidade, ciúme, interesse pessoal, orgulho, respeito às pessoas, suspeita, preocupação por uma posição, prestígio, aprovação, ser influenciado por boatos, relatos, críticas, preconceitos, parcialidade, transigência, e muitas outras coisas. Qualquer pessoa que ler isso entenderá o que estou dizendo e será capaz de compreender o agudo sofrimento e resultante dormência e paralisia de uma experiência como esta, que ataca os sinais vitais da fé, comunhão e confiança. Existem tantas pessoas amarguradas e céticas, ácidas e desconfiadas por causa de expectativas decepcionadas, e que muitas vezes permitem que estas atinjam sua fé em Deus.

Mas a primeira coisa a dizer é que o Senhor prescreveu cuidadosamente algo para essa forma de paralisia, tanto para a sua prevenção como para a cura. Ele apontou o antídoto tanto em palavras e com em ações. Na palavra, com quanta dor Deus precisa nos advertir a “não colocar a confiança no homem”? Repetidas vezes o perigo e insensatez de tornar o homem como suporte e base de confiança foram enfatizados. No sentido prático, por que - se não com esse propósito - o Senhor não impediu que o desapontador e, às vezes vergonhoso colapso de Seus melhores servos fosse registrado? Se a Bíblia é inspirada por Deus, então temos que assumir que o registro é intencionado por Deus. É estranho que tão freqüentemente extraiamos conforto para nós mesmos desse fato, mas ficamos chocados quando descobrimos “paixões semelhantes” em alguns outros.

Devemos compreender de uma vez por todas que - em sendo gratos como devemos e precisamos por toda a graça de Deus distribuída em meio aos Seus filhos, valorizando toda ajuda recebida por meio deles, e estimando-os altamente por seu serviço - o Senhor nunca permitirá que sigamos por muito tempo com fundamentos e muletas humanas, mas nos libertará para ver que somente Ele é nossa Rocha, e que nossa educação e crescimento espirituais devem se apoiar e originar sobre o conhecimento pessoal e direto Dele mesmo. Quanto maior for a utilidade ao Senhor de qualquer vida, maior será a experiência de solidão. Ele nos conduz com frequência a lugares onde outros não podem ir, interpretar, compreender, ajudar. Ao contrário, por seu jogo mental sobre nossa estranha experiência, e de suas interpretações, são trazidos ainda maiores sofrimentos e angústias para nós. Mais cedo ou mais tarde estamos fadados a nos desapontar com o homem, mas isso pode nos conduzir a um mais rico e profundo conhecimento de Deus, se não ficarmos amargos e paralisados por essa experiência.

Isso pode também se tornar ocasião de uma grande e saudável desconfiança em nós mesmos, por um lado, e uma profunda solicitude e simpatia pelo sofrimento pelo outro. O Mestre na hora de angústia “espera por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum” [Sl 69:20 - ARC]. Podemos nos permitir apenas dar um gole no copo para saber algo da ajuda de Deus, que ninguém mais pode dar.


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